ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Netanyahu confirma plano de anexação de assentamentos na Cisjordânia e Vale do Jordão para 1º de julho

O Primeiro-Ministro israelense, Benyamin Netanyahu, definiu o dia 1º de julho como data prevista para adiantamento do seu plano de anexação dos assentamentos israelenses no Vale do Jordão e na Cisjordânia, na esperança de um sinal verde de Washington. Conforme publicou o The Middle East Monitor, Netanyahu disse repetidamente que planeja “avançar anexando unilateralmente essas áreas a partir do próximo mês”. Os palestinos rejeitaram a proposta e manifestaram indignação contra a anexação sugerida por Israel.

No domingo 7 de junho, o Primeiro-Ministro israelense disse a colonos e Prefeitos da Cisjordânia que ainda pretende anexar todos os assentamentos ali estabelecidos na data de 1º de julho, o mais cedo permitido por seus acordos de coalizão. Contudo, conforme reportou o The Times of Israel, Netanyahu reconheceu que a anexação de outras terras alocadas sob o plano de paz do presidente norte-americano Donald Trump provavelmente levará mais tempo.

De acordo com o The Times of Israel, o pronunciamento de Netanyahu significaria que o governo inicialmente anexaria cerca de 3% do território da Cisjordânia, cobrindo os 132 assentamentos, lar de cerca de 450.000 israelenses. O restante dos cerca de 30% que o acordo de Trump concede a Israel – a maior parte no Vale do Jordão – seria anexado em um período posterior, quando o comitê conjunto de mapeamento EUA-Israel concluísse a determinação das divisões territoriais exatas além da chamada Linha Verde pré-1967.

Segundo analistas, o governo de Trump, dominado pela crise do coronavírus e pela onda de protestos nacionais contra abusos policiais, não teria dado a Israel o endosso para anexar os territórios para não despertar mais instabilidade doméstica. O Assessor Sênior da Presidência dos Estados Unidos e uma das principais cabeças por detrás do plano, Jared Kushner, teria dito para Netanyahu “desacelerar consideravelmente o processo” de anexação unilateral de grandes partes da Cisjordânia e do Vale do Jordão.

Ainda em junho, as forças israelenses fizeram incursões e promoveram demolições como em Ain Hajla, à leste de Jericó, no vale do Jordão. O Middle East Monitor reporta que moradores foram expulsos de 8 propriedades palestinas, ficando sem qualquer abrigo. Ainda que Netanyahu tenha declarado sua intenção de anexar o estratégico e fértil Vale do Jordão já durante sua campanha eleitoral em setembro de 2019, o movimento também é parte da proposta do Presidente norte-americano “Paz para a Prosperidade”, anunciada em 28 de janeiro de 2020.

Mapa das fronteiras Israel-Palestina propostas no plano de Donald Trump ‘Paz para a Prosperidade’, de 28 de janeiro de 2020. Em azul, o Estado palestino proposto

O plano foi condenado como ilegítimo pela comunidade internacional, já que anexação dos assentamentos ilegais viola o direito internacional. Os palestinos rejeitaram a proposta e manifestaram indignação contra a anexação unilateral sugerida por Israel. A Autoridade Palestina (AP) rejeitou a proposta dos Estados Unidos e disse recentemente que considera todos os acordos assinados com Israel e os EUA nulos. As Nações Unidas e a União Europeia observaram que a anexação unilateral violaria o princípio da autodeterminação dos povos e seria um golpe devastador nas perspectivas de uma solução de dois Estados para o conflito israelense-palestino. Os planos de paz que se baseiam na solução de dois Estados reservam aos palestinos os territórios que ocupavam antes da guerra de 1967: Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

Como reflexo do alinhamento da Casa Branca com Tel Aviv, em maio de 2018 os EUA transferiram sua embaixada da capital israelense para Jerusalém. Em março de 2019, Trump reconheceu a anexação israelense das Colinas de Golã ocupadas na Síria. Em junho de 2019, os Estados Unidos reduziram suas contribuições à UNRWA, a agência das Nações Unidas para refugiados palestinos, a zero; e em fevereiro de 2020 o país excluiu o financiamento à Autoridade Palestina e cessou toda a assistência humanitária da USAID na Cisjordânia e em Gaza.

Segundo informou a agência Reuters, em 6 de junho, milhares de israelenses protestaram contra o plano do Primeiro-Ministro israelense de estender a soberania sobre partes da Cisjordânia ocupada. Em Tel Aviv, na esteira do anúncio de Netanyahu, manifestantes carregavam cartazes dizendo “não à anexação, não à ocupação, sim à paz e à democracia”. Alguns agitavam bandeiras palestinas. Os organizadores também exibiram um vídeo do senador democrata dos Estados Unidos, Bernie Sanders, apoiando a causa palestina.

Já colonos israelenses e membros da extrema-direita expressaram reservas e até objeções ao plano de anexação de Netanyahu. Conforme escreve Mazal Mualem para o Al-Monitor, opositores internos, que supostamente se beneficiariam da ocupação, argumentam que a anexação que o Primeiro-Ministro está promovendo como passo histórico “é realmente um codinome para o estabelecimento de um Estado palestino que Netanyahu também está endossando como parte do plano de paz dos EUA”. Naftali Bennett, líder do partido nacionalista Bait Yehudi, teria sido ouvido acusando Netanyahu de ocultar intencionalmente os mapas e detalhes do plano de anexação. Nas palavras de Bennett: “Ainda não sabemos os detalhes do plano e do mapa. É soberania ou Palestina?”, reportou o The Times of Israel.

A iniciativa de extensão da soberania israelense sobre 30% da Cisjordânia – que na prática normaliza a ocupação, conforme escrevem G. N. Nithya eMohammad Ayesh – enfrentou oposição inesperada dos colonos por ser supostamente acompanhada de concessões aos palestinos, incluindo o estabelecimento de um Estado árabe nos 70% restantes da Cisjordânia. Yochai Damri, membro do Conselho Yesha, organização composta por 24 chefes de conselhos de assentamento, disse ao The Washington Post: “Se formos deixados aqui assim, estaremos no mar de um Estado palestino, um Estado inimigo. […] Todos sabemos que existem árabes que querem nos matar. Eles farão tudo o que puderem para nos machucar e nos forçar a sair desta terra”.

Conforme pesquisa elaborada pelo Israel Democracy Institute e publicada em 3 de junho pelo The Jerusalem Post, 50,1% dos israelenses apoiam a aplicação da soberania israelense a partes da Judéia e da Samaria. Entre os que apoiam a anexação dos territórios ocupados, um quarto dos israelense (25,3%) disseram que apenas apoiariam com o endosso do governo dos Estados Unidos, e outros 24,8% disseram que apoiam a anexação mesmo sem o apoio norte-americano. 

Michael Lynk, relator especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, disse à Mersiha Gadzo, da Al Jazeera, que “se Israel seguir adiante com a anexação, criará um Estado com dois níveis distintos de direitos políticos, econômicos, sociais e de propriedade, equivalentes ao apartheid”. E concluiu: “Quando a poeira baixar… o mundo perceberá que há apenas um Estado que opera entre o Mediterrâneo e o rio Jordão – e esse é Israel”, disse Lynk.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 PrimeiroMinistro israelense, Benjamin Netanyahu, em discurso em julho de 2015(Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Prime_Minister_Netanyahu_(22674245217)_(cropped-01).jpg

Imagem 1 Mapa das fronteiras IsraelPalestina propostas no plano de Donald Trump Paz para a Prosperidade’, de 28 de janeiro de 2020. Em azul, o Estado palestino proposto(Fonte): 

https://en.wikipedia.org/wiki/Trump_peace_plan#/media/File:Trump_Peace_Plan_(cropped).jpg.

About author

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).
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