fbpx
NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

O Conflito Sírio e o debate sobre a criação de uma “Zona Segura”

Desde os primeiros anos da Guerra Civil na Síria, a criação de uma Zona de Exclusão Aérea tem sido discutida por atores internos e externos ao conflito. Em 2012, enquanto a oposição clamava que a comunidade internacional tomasse tal iniciativa, a fim de mostrar a Assad que “seus oponentes ao redor do mundo são sérios[1], Turquia e Estados Unidos avaliavam a possibilidade[2]. No ano seguinte, a oposição russa a tal estratégia tornou sua aprovação impossível pelo Conselho de Segurança da ONU[3].

Há algumas semanas, a discussão entre Turquia e Estados Unidos a respeito de uma Zona de Exclusão Aérea parece ter sido renovada, agora em um contexto diferente, no qual, mais do que intervenção no Conflito Sírio, atores internacionais entram em guerra contra o Estado Islâmico (EI).

Em 23 de julho deste ano (2015), a Turquia finalmente se juntou à guerra contra o EI, atacando suas tropas com ataques aéreos e de artilharia na fronteira síria, forçando o grupo a recuar[4]. Esta foi a primeira vez em que um jato F16 turco cruzou a fronteira síria para atacar o Estado Islâmico[5]. O Governo turco também deu permissão aos Estados Unidos para usarem suas bases aéreas em Incirlik e Diyarbakir, não apenas como suporte a operações de vigilância, mas também para missões de combate[4].

Tal envolvimento da Turquia se deu após o um ataque suicida na cidade turca de Suruc, fronteiriça à Síria, em 20 de julho, que levou a 32 mortes e 104 feridos[5]. Esta foi a primeira vez que o Estado Islâmico conduziu um ataque em território turco[6].

Diante de uma ameaça visivelmente crescente desse grupo, os turcos tentam negociar com os Estados Unidos a criação de uma “Zona Segura” no norte da Síria, na área adjacente à fronteira turca, em troca das bases aéreas a serem usadas pela Força Aérea Americana[6].

Na última terça-feira, 11 de agosto, o Governo da Turquia havia afirmado ter chegado a um acordo com os Estados Unidosacerca dos termos para a criação dessa “Zona Segura”; no entanto, o Departamento de Estado Americano negou a existência de tal Acordo[7]. De toda forma, o primeiroministro turco Ahmet Davutoğlu parece determinado a continuar pressionando por uma Zona de Exclusão Aérea e uma “Zona Segura”, a fim de proteger civis fugindo tanto do Estado Islâmico como das forças do Governo sírio[8].

Ainda que os planos de uma “Zona Segura” não tenham deixado o papel, a discussão entre Turquia e Estados Unidos sobre a iniciativa parece já ter afetado as dinâmicas do conflito sírio. No último domingo, 9 de agosto, o grupo Jabhat alNusra, afiliado daAlQaeda na Síria, anunciou que estaria recuando de suas posições contra o Estado Islâmico no norte de Aleppo. Como apontaElias Groll para a Foreign Policy, grupo afirmou não ter outra escolha a não ser recuar, uma vez que não pode formar uma aliança com Turquia e Estados Unidos[9].

Ao mesmo tempo, como destaca Daniel Gorevan, da organização humanitária Oxfam, em artigo de Teresa Welsh, enquanto tal “Zona Segura” tem sido “retratada como uma iniciativa humanitária, […] há a possibilidade de que ela tornaria a situação para civis ainda pior[10]. Uma “Zona Segura” poderia criar uma ilusão de segurança para civis e encorajar refugiados a retornar a suas casas, sob uma falsa promessa de segurança[10].

Ainda, como aponta relatório do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e da organização americana InterAction, “a criação de uma zona segura – sem o consentimento das partes [beligerantes] – normalmente requer algum elemento de força para dissuadir ataques e proteger aqueles dentro da zona[11]. No entanto, conforme foi observado em artigo de Heather Murdock, a área ao norte da Síria apresenta um conflito intenso e entre diferentes grupos, além disso, conta com diversas cidades sob o controle do Estado Islâmico, o que dificulta grandemente a imposição de uma “zona segura[12].

Enquanto permanece incerta a melhor forma de proteger civis afetados pelo Conflito Sírio, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês), 12,2 milhões de pessoas encontram-se necessitadas de ajuda humanitária na Síria, incluindo 7,6 milhões de deslocados internos em todo o país[13]. Ainda, desses 12,2 milhões, 2,8 milhões encontram-se na Província de Aleppo, onde se encontraria a planejada “Zona Segura” (ver imagem nesta nota)[14]. Ao mesmo tempo, dos mais de 4 milhões de refugiados resultantes da Crise Síria[15],  a Turquia conta com mais de 1,8 milhão[16], constituindo-se como o país com mais refugiados sírios em números absolutos.

————————————————————————————————

Imagem Mapa da região fronteiriça entra Turquia, Síria e Iraque. Área correspondente à planejadazona segura marcada em listras diagonais pretas” (Fonte):

http://www.bbc.com/news/world-europe-33868627

————————————————————————————————

Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/2012/08/12/syria-no-fly-zone_n_1770494.html

[2] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/2012/08/11/syria-no-fly-zones_n_1767301.html

[3] Ver:

http://www.huffingtonpost.com/2013/06/17/russia-syria-no-fly-zone_n_3453092.html;

Ver também:

http://www.huffingtonpost.com/2013/06/14/syria-no-fly-zone-france_n_3441057.html

[4] Ver:

https://www.foreignaffairs.com/articles/turkey/2015-08-03/turkeys-cover;

Ver também:

http://www.nytimes.com/2015/07/24/world/europe/turkey-isis-us-airstrikes-syria.html

[5] Ver:

http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/war-with-isis-in-iraq-and-syria-turkey-joins-west-as-a-reluctant-ally–but-what-took-it-so-long-10414801.html

[6] Ver:

https://www.rt.com/news/311985-usa-turkey-f-16-isis/

[7] Ver:

http://www.reuters.com/article/2015/08/11/us-mideast-crisis-turkey-usa-idUSKCN0QG1UG20150811

[8] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-europe-33868627

[9] Ver:

http://foreignpolicy.com/2015/08/10/jabhat-al-nusra-abandons-fight-north-of-aleppo-as-turkey-and-u-s-plot-safe-zone/

[10] Ver:

http://www.usnews.com/news/articles/2015/08/07/why-turkeys-proposed-safe-zone-against-isis-in-syria-may-not-be-so-safe

[11] Ver:

http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/Trapped%20in%20Conflict%20Roundtable%20Outcome%20Report%20July%202015.pdf, p. 7.

[12] Ver:

http://www.voanews.com/content/analysis-turkeys-safe-zone-in-syria-will-remain-a-war-zone/2902577.html

[13] Ver:

http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/syr_northern_humanitarian_dashboard_july_2015_final_v9.pdf, p. 1.

[14] Ver:

http://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/syr_humsnap_a4l_july2015_150806_en.pdf

[15] Ver:

http://data.unhcr.org/syrianrefugees/regional.php#

[16] Ver:

http://data.unhcr.org/syrianrefugees/country.php?id=224

About author

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.
Related posts
ÁSIAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Fundo Monetário Internacional estima crescimento da economia chinesa em quase 2%, contrariando tendência mundial

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Conselho Europeu se reúne para tratar de ação conjunta europeia para combater a COVID-19

NOTAS ANALÍTICASPARADIPLOMACIA

As cidades mais caras da América Latina

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Resposta à COVID-19 nas Américas pode sofrer transformação a partir de novos testes rápidos

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!