ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

O Desastre Aéreo da Ukraine International Airlines

Um grave acidente aconteceu em 8 de janeiro, aproximadamente à meia-noite (horário de Brasília)*, no aeroporto Imam Khomeini, no Irã. O voo PS752 da companhia aérea Ukraine International Airlines (UIA) com destino a Kiev foi alvejado a cerca de 30 km ao sul de Teerã. 176 pessoas faleceram, sendo 167 passageiros e 9 tripulantes de sete países: 82 iranianos, 63 canadenses (a sua maioria com dupla nacionalidade, canadense e iraniana), 10 suecos, 4 afegãos, 3 britânicos e 11 ucranianos (incluindo a tripulação). A aeronave, um Boeing 737-800 com a matrícula UR-PSR, tinha três anos de uso, embora esse tempo, em si, não seja considerado um fator preponderante para avaliar as condições de segurança da mesma.

A narrativa iraniana

As primeiras imagens do local do acidente mostraram danos na fuselagem, cujas avarias ocorreram antes do choque do avião com o solo. Em vídeo publicado logo após o acidente é possível ver o avião em chamas ainda no ar. Não havia como Teerã negar mais que alvejou o Boeing. Em 11 de janeiro, o governo iraniano admite erro humano na operação do sistema de defesa. A justificativa do governo se deu porque a aeronave teria se voltado para um “centro militar sensível” da Guarda Revolucionária Islâmica. As tensões ocorridas com os EUA deixaram as forças armadas iranianas em seu mais alto nível de prontidão e serviram de justificativa para o Ministro das Relações Exteriores, Javad Zarif, que declarou: “Um erro humano em tempos de crise causada pelo aventureirismo americano levou ao desastre (…) nosso profundo pesar, desculpas e condolências ao nosso povo, às famílias de todas as vítimas e a outras nações afetadas”.

Erro e reconhecimento

Apesar de não ser algo corriqueiro, acidentes fatais e tragédias em guerras são mais comuns do que se imagina. Os EUA, p.ex., durante a Guerra Irã-Iraque em 1988 abateram um avião comercial proveniente do Irã, um Airbus A300 da Iran Air, com destino a Dubai, com 290 passageiros. Este e outros casos foram reconhecidos como erros humanos, justificados em meio à tensão da guerra. O mais recente que também envolveu a Ucrânia foi o MH17 da Malásia Airlines, abatido em 2014 quando voava de Amsterdã a Kuala Lumpur. Assim como os iranianos hoje, os russos inicialmente rejeitaram as acusações de que o míssil utilizado tinha sua procedência, enquanto que o governo ucraniano acusava os rebeldes do Donbass, apoiados por Moscou, de derrubar a aeronave. Mas, diferentemente do governo iraniano que assumiu seu erro posteriormente, as autoridades russas ainda negam qualquer envolvimento e se recusam a participar das investigações. Esta é outra característica desses casos, mesmo em países com alto grau de transparência pública e respeito à atividade jornalística, as investigações nem sempre resultam em consenso.

Antecedentes, repercussões e consequências

Justin Trudeau, Primeiro-Ministro do Canadá, segundo país com a maioria das vítimas no voo, pediu respostas às suas famílias; Volodymyr Zelensky,Presidente da Ucrânia, exigiu um pedido de desculpas com total responsabilização pela tragédia, bem como indenização para os familiares; e Hassan Rouhani, Presidente do Irã, classificou o ocorrido como “erro imperdoável” e afirmou que as investigações irão continuar. Mas, se por um lado, o Líder Supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, também assumiu o erro de seu país, por outro defendeu a atuação da Guarda Revolucionária, responsável pelo ataque, porque “manteve a segurança” do Irã.

No início do ano (2020), o conflito entre EUA e Irã após a morte de Qassam Suleimani, o chefe da Guarda Revolucionária do Irã, o braço armado do regime dos aiatolás, foi um duro golpe na hierarquia de comando do país, o que levou à retaliação de Teerã lançando mísseis contra bases americanas no país vizinho, o Iraque. Em meio a essa tensão e esperando a possível retaliação americana na capital iraniana, o oficial responsável pela defesa provavelmente se equivocou atirando em uma aeronave, cujo padrão de voo não correspondia a um procedimento de ataque.

Cabe lembrar que o governo iraniano foi alvo de uma série de protestos iniciada em novembro de 2019 contra a situação econômica, aumento do preço dos combustíveis, a corrupção e, também, contra a própria República Islâmica. As manifestações foram duramente reprimidas e deixaram, pelo menos, 180 mortos. Nesse contexto, a queda do avião com a morte de passageiros, inclusive iranianos e outros com dupla nacionalidade também iraniana, serviu como um revival de motivos pelos quais o governo atual do país não defenderia e, portanto, também não representaria sua população, o que realmente levou a novos protestos. Além dos motivos reconhecidos acima, há um sentimento geral anti-governista que se expande coma disseminação de teorias as mais variadas, inclusive de claro teor conspiratório: “O assassinato de Soleimani foi um verdadeiro choque para nós. Ele foi o herói da Revolução Islâmica. E agora existem muitas teorias sobre sua morte – alguns até acreditam que foi planejado. O sentimento se intensificou quando se soube que o Irã havia alertado sobre sua resposta. Diz-se que essa morte desviou a atenção dos assassinatos de manifestantes em novembro durante comícios contra o aumento dos preços dos combustíveis”.

Se a repercussão política deste acidente afetou Teerã, o mesmo ocorreu com Kiev. Enquanto o Ocidente protestava e acusava o Irã pelo feito, o governo ucraniano manteve prudência em não endossar, inicialmente, a versão do míssil, postura essa que, em meio a toda tensão, obviamente lhe trouxe críticas por seu silêncio. Após tantos revezes com o Irã se recusando a entregar a caixa preta da aeronave e não ter isolado a área da queda, foi proposta uma indenização de 80.000 dólares (aproximadamente 347.773 reais, no câmbio de 14 de fevereiro de 2020) às famílias dos passageiros. Zelensky considerou a quantia insuficiente e as relações entre os países têm se deteriorado. O vazamento de um áudio entre o aeroporto e o piloto do Boeing foi considerado como um dos motivos desta piora na cooperação entre os dois países. Segundo Hassan Rezaifar, diretor de investigação de desastres da Organização de Aviação Civil Iraniana, “Este arquivo foi um dos materiais fornecidos a um painel de especialistas que investigou o desastre. [A publicação do arquivo de áudio] pelo lado ucraniano indica que não iremos mais repassar nenhum material para eles”.

Fissura na aliança com o Ocidente

E como se isso não bastasse, fissuras podem surgir entre a Ucrânia e seus aliados ocidentais, devido à sonegação de informações. Após Zelensky ter sido envolvido em um escândalo por Donald Trump contra seu potencial rival, Joe Biden,também foi pego de surpresa quando autoridades americanas vieram a público em 10 de janeiro, com informações não disponibilizadas aos ucranianos. Pavlo Klimkin, ex-ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, relatou que as autoridades ocidentais têm falhado no compartilhamento de informações com Kiev: “‘Perdemos nosso avião, perdemos nossos cidadãos’, Sr. Klimkin disse. ‘É claro que queremos que nossos amigos estejam conosco neste momento importante no sentido de compartilhar informações, no sentido de solidariedade, no sentido de simplesmente trabalhar juntos’”.

Apesar de autoridades americanas e ucranianas tentarem abafar o atrito que se formava, Anatoliy Hrytsenko, ex-Ministro da Defesa ucraniano, insinuou que a tragédia poderia estar sendo usada politicamente pelos países ocidentais: “‘Os líderes ocidentais precisam nos fornecer essas descobertas de inteligência’, disse o Sr. Hrytsenko. ‘Se assumimos o pior e eles não fazem isso, surge um grande ponto de interrogação: trata-se realmente de determinar a causa de um acidente de avião ou agora é geopolítica?’”.

Zelensky em cerimônia de homenagem aos mortos do voo PS752

A tragédia e o simbolismo político

Ainda é cedo para dizer como o presidente Zelensky se sairá dessa, com uma melhor ou pior leitura por parte de cidadãos ucranianos, mas sabe-se que além da verdade, a política conta com a propaganda, a interpretação que se dissemina entre o eleitorado e, também, muito importante, o timing das ações adotadas. Enquanto Volodymyr Zelensky assinava um Decreto de luto oficial pelas 176 vítimas do voo 737-800 da Ukraine International Airlines, com suas bandeiras hasteadas a meio mastro nos prédios das autoridades estatais e agências locais de governo, empresas, instituições e demais organizações de estado, ainda se acreditava na versão de falha do motor da aeronave. Mas a circulação de notícias na internet é rápida, as primeiras fotos, ainda não certificadas, indicavam que o avião pudesse ter sido abatido por um míssil, cujos destroços se encontravam na cidade de Parand, a cerca de 46,6 km de Teerã.

O sistema de defesa que provavelmente abateu o avião da UIA foi o Tor-M1 9K331, de fabricação russa e usado pela Guarda Revolucionária do Irã. Para quem acompanha a política ucraniana, sabe-se que a oposição ao presidente Zelensky é fortemente anti-russa. O significado desta ação pode ser transmutado simbolicamente pelos seus opositores como uma extensão do braço russo contra ucranianos. É bom lembrar que este sentimento nacionalista foi um peso contra a reeleição de seu antigo rival, Petro Poroshenko, e até então esta era a vantagem de Volodymyr Zelensky, cuja mensagem de união e tolerância entre os diferentes povos que compõem a Ucrânia tem sido vista como um antídoto contra o divisionismo, a segregação e o preconceito. A questão que emerge é saber até quando este ativo político irá durar, se mesmo eventos aleatórios são utilizados como anti-marketing, não só de seus opositores contumazes, mas, também, de aliados como os Estados Unidos, ao não agirem com total transparência com Kiev.

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Notas:

* Especificamente às 23:42 minutos do dia anterior, 7 de janeiro de 2019, enquanto que já eram 06:12 do dia seguinte, 8 de janeiro de 2019, em Teerã.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Boeing 737800 da Ukraine International Airlines” (Fonte):

Автор: BrunoA380: http://www.plane-mad.com/aviation-photos/view/ukraine-international-airlines/boeing-737-800/paris-charles-de-gaulle/54087.html,

CC BY-SA 4.0: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=50664635

Imagem 2 Zelensky em cerimônia de homenagem aos mortos do voo PS752” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Meeting_Bodies_of_Ukrainian_Citizens_from_PS752_in_Boryspil_International_Airport_56.jpg

About author

Licenciado em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1987 e Mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) em 2008. Mantém interesse e pesquisa nas áreas de Geografia Urbana, Geopolítica e Epistemologia da Geografia. Co-autor do livro "Não Culpe o Capitalismo".
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