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O dilema multidimensional do terrorismo e o massacre aos universitários quenianos

No dia 2 de abril de 2015, o grupo terrorista Al Shabaab escreveu mais um triste capítulo na vida dos quenianos, ao abrir fogo contra os estudantes da Universidade de Garissa, no leste do Quênia. Sobre o massacre, o saldo é de 147 estudantes mortos e 79 estudantes feridos[1]. Entre as possíveis relações causais para o atentado, destacam-se a perseguição religiosa contra os cristãos, a ascensão do Al Shabaab diante da ingovernabilidade na Somália e as respostas às investidas das Forças de Defesa do Quênia (KDFKenya Defense Forces).

Do ponto de vista religioso, há muitas evidências sobre a intolerância existente entre a comunidade islâmica e os cristãos em Garissa. Para Mohamed Amin, ex-membro do parlamento na Somália, a tática do Al Shabaab é baseada em dividir a comunidade[2]. Assim, se as Forças de Segurança não mudarem o curso e tentarem se tornar amigas da comunidade muçulmana, então muitos simpatizantes irão se unir ao grupo terrorista. Existe atualmente um tipo de perseguição, tanto étnica quanto religiosa.

Do ponto de vista político, o Al Shabaab se configura como uma ala radical da antiga União das Cortes Islâmica da Somália, extinta em 2006[3]. Após ser expulso da capital do país em Mogadíscio, em agosto de 2011, e por ter perdido o controle do Porto de Kismayo, em setembro de 2012, o grupo terrorista tem atuado em diferentes localidades rurais e esporadicamente em atentados suicidas em cidades importantes. Entretanto, mesmo diante da presença do islã entre os cidadãos da Somália e os terroristas do Al Shabaab, há diferenças e perseguições entre os dois grupos. O Al Shabaab defende a versão wahabista do islã, inspirada pela Arábia Saudita, enquanto a maioria dos somalis segue a linha do sufismo. O grupo terrorista destruiu um grande número de santuários sufistas, provocando uma queda na popularidade do grupo.

Desde que a KDF assumiu o controle em Kismayo, a polícia destaca que 320 pessoas foram mortas e 785 foram feridas nessa onda terrorista[4]. Além disso, os alvos dessa guerra ao terror passaram de ambientes ligados às autoridades estrangeiras, como a embaixada dos EUA e um hotel de um grupo israelita, para a realidade local, como no ataque ao Shopping Westgate, em 2012[5], e, na última semana, os ataques à Universidade de Garissa, no nordeste do país[1][3][4].

Do ponto de vista econômico, os atentados já geraram prejuízos no turismo do país, tendo em vista as ameaças terroristas aos estrangeiros na região. Além disso, a corrupção e as crises políticas chegam ao bolso e à mesa da população, o que gera descontentamento e a busca de uma solução radical para a eterna desigualdade de renda na população. A crescente perseguição étnica e religiosa atua como combustível para o grupo terrorista e suas tentativas de desestabilizar a democracia e os governos.

Muito embora os efeitos dessa guerra ao terror tenham sido evidentes para todos, não há consenso sobre quais as respostas mais eficientes e coordenadas, ou, pelo menos, qual a direção a ser tomada para encarar os problemas[4]. Ações terroristas como o massacre aos universitários em Garissa trazem à tona o risco de mudar leis e criar discriminações ou repressões aos cidadãos, conforme suas bases étnicas ou religiosas[4]. Ou seja, ao invés de tomar uma solução para o problema, aprofundam-se as incoerências discursivas e possíveis soluções práticas, o que gera, por sua vez, mais insatisfação e clivagem, seja entre quenianos e refugiados, ou entre cristãos e muçulmanos.

Em suma, a face multifacetada do terrorismo promove inúmeros ângulos ajustáveis para encarar causa e efeito na guerra ao terror, contudo, todas estas versões produzem vieses e compreensões superficiais que acabam gerando reducionismo do ponto de vista cultural (religião ou etnia), político (projeção de poder dos Estados, anarquia através de ações terroristas) e econômico (déficit nas contas correntes nacionais e interferência na balança comercial e de pagamento dos países).

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Imagem (Fonte):

http://i2.cdn.turner.com/cnnnext/dam/assets/150402010757-map-kenya-garissa-exlarge-169.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver Daily Nation:

http://www.nation.co.ke/-/1148/2674856/-/view/asTopics/-/malf09/-/index.html

[2] Ver Washington Post:

http://www.washingtonpost.com/world/rescuers-remove-bodies-from-the-dormitories-and-airlift-survivors-to-capital/2015/04/03/ea482aae-d984-11e4-bf0b-f648b95a6488_story.html

Ver também Standard Media:

http://www.standardmedia.co.ke/article/2000157381/after-garissa-attack-armed-guards-shield-kenyan-churches

[3] Ver BBC Brasil:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/04/150402_quenia_ataque_universidade_fd

Ver também Washington Post:

http://www.washingtonpost.com/blogs/worldviews/wp/2014/06/17/how-kenya-made-itself-vulnerable-to-terror/

[4] Ver Daily Nation:

http://www.nation.co.ke/oped/blogs/dot9/franceschi/-/2274464/2674656/-/12j3t9b/-/index.html

[5] Ver CEIRI Newspaper:

https://ceiri.news/um-ano-do-ataque-no-shopping-westgate/

About author

Mestre em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco e graduado em Relações Internacionais na Universidade Estadual da Paraíba. Tem experiência como Pesquisador no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) no projeto da Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional (Cobradi). Foi representante brasileiro no Capacity-Building Programme on Learning South-South Cooperation oferecido pelo think-tank Research and Information System for Developing Countries (RIS), na Índia; digital advocate no World Humanitarian Summit; e voluntário online do Programa de Voluntariado das Nações Unidas (UNV) no projeto "Desarrollar contenido de opinión en redes sociales sobre los ODS". Atualmente, mestrando em Development Evaluation and Management na Universidade da Antuérpia (Bélgica) e Embaixador Online do UNV na Plataforma socialprotection.org.
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