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ESPORTENOTAS ANALÍTICAS

O esporte no Líbano: outra face da disputa partidária

A relação entre política e esporte existe em diversos países, mesmo que tais relacionamentos não devam existir, segundo os estatutos de Federações Internacionais, como a Fédération Internationale de Football Association (FIFA). Utilizando este exemplo do Futebol, na hipótese de ocorrer a intervenção por parte do Governo ou de Partido Político de um país em sua respectiva Federação Nacional, o caso é passível de expulsão desta Federação pela entidade maior, no caso a Federação ou Confederação Continental, ou mesmo pela  FIFA, que se sobrepõe a todas.

No começo do século XXI, por exemplo, a Federação da Bósnia foi muitas vezes ameaçada pelas entidades superiores pelo fato de reproduzir o sistema político do Estado em sua Federação e diversas seleções africanas também já receberam a mesma advertência.

O caso do Líbano é um exemplo interessante para ser observado devido à presença de todas as partes da sociedade e do sectarismo que lhe divide[1] tanto na política quanto na organização administrativa do esporte. A situação política atual do Líbano foi instaurada após a primeira guerra mundial, quando, após um curto período de independência, o país se tornou colônia da França[2].

De maneira a se beneficiar de um controle maior sobre a população, foi imposto um sistema onde cada uma das dezessete religiões/seitas tivesse um papel na política, de acordo com sua importância em números populacionais. Foram realizados diversos censos por parte dos franceses, tendo o último ocorrido em 1948. Desta maneira, o poder foi colocado nas mãos dos aliados naturais da França: os Cristãos Maronitas.

O fato é que, desde 1948, não foram mais feitos censos populacionais e a demografia libanesa se desenvolveu, fazendo com que a representatividade que existia desde a primeira metade do século XX, ficasse desatualizada. Outro fator interessante a ser observado é a autorização do voto somente para a região de nascimento. Isso faz com que muitas vezes as pessoas que moram em diferentes lugares do Líbano tenham que retornar ao seu local de nascimento para votar, bem como que expatriados ainda não tenham o direito ao voto.

A participação das dezessete seitas e de seus diversos Partidos Políticos no dia a dia no país é muito visível e ficou ainda mais perceptível após o início da Guerra Civil em meados dos anos 70. Durante muitos anos, o esporte no Líbano foi deixado em segundo plano devido ao conflito que desolou o Estado e dividiu o país e sua capital entre as diversas facções.

Aos poucos, com a diminuição do conflito e a reforma realizada pela Revolução dos Cedros, houve uma reparação do sistema político libanês, bem como a retomada das competições esportivas[3]. Entretanto, este retomar das competições não significou a autorização por parte do Governo de uma participação popular nos estádios, graças à tensão existente entre as diversas seitas, não autorizando por quase uma década que os estádios recebessem espectadores[4].

A violência de torcidas é evidentemente um problema global e não se estende somente ao Líbano. Todavia, a situação esportiva dos times libaneses destaca-se em relação aos demais do cenário mundial por que todos são financiados por Partidos Políticos e por personalidades políticas que utilizam da popularidade do esporte para benefício de campanha, fazendo com que a presença desta rivalidade, não só esportiva, mas também política crie instabilidade.

Como mencionado, no Líbano, o votante só pode votar no bairro ou vilarejo onde nasceu, isso leva a que os Partidos deste bairro sejam mais representativos da população que vive em no lugar. Logo, existe uma relação entre a religião a qual o votante pertence, seu local de nascimento e o Partido para o qual ele vota, diminuindo a esfera nacional a um domínio bairrista (na terminologia técnica, paroquialismo), criando ainda uma certa relação de clientelismo.

É neste sistema que se encontra a importância do esporte no Líbano, que, por mais que não tenha um grande sucesso internacional, tem no Futebol, por exemplo, uma popularidade imensa no país, tal qual ocorre em todo o Oriente Médio[5]. A atuação e investimento por parte dos Partidos Políticos nos Clubes de Futebol faz com que exista uma relação entre o sucesso que um clube pode ter e a quantidade de votos conseguidos em eleições pelo Partido ao qual o clube pertence.

Nesse sentido, especialistas concluem que o Futebol e os outros esportes do Líbano apenas refletem a sociedade sectária vigente no país[6] e configuram um caso expressivo de relacionamento entre o Esporte e a Política.

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Imagem 1No ‘jogo para a paz’, o então primeiro ministro Rafik Hariri” (Fonte):

http://news.bbc.co.uk/2/hi/middle_east/8618829.stm

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Fontes Consultadas:

[1] Sobre o sistema político do Líbano e a guerra civil, ver:

Kerr, M. A Positive Aspect to the Tragedy of Lebanon: The Convergence of US, Syrian and Israeli Interests at the Outset of Lebanon’s Civil War”. In: Israel Affairs, Vol. 15, No. 4, 2009, p. 355 – 371.

[2] Danny Zahreddine fala sobre o sistema político libanês na Veja: http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/como-funciona-o-sistema-politico-libanes-e-quais-os-prognosticos-para-o-pais-em-meio-a-crise-que-se-instalou-no-pais

[3] Sobre a Revolução do Cedro, ver:

Knio, K. “Lebanon: Cedar Revolution or Neo-Sectarian Partition?”. In: Mediterranean Politics 10 (2), 225-231.

[4] Sobre o futebol no Líbano, ler o artigo de James Montague: http://www.nytimes.com/2012/02/29/sports/soccer/in-lebanon-national-soccer-team-helps-bring-country-together.html?_r=2&

[5] Sobre futebol no Oriente Médio, ver:

Montague, J. “When Friday Comes: Football, War and Revolution in the Middle East”. Hardback and eBook. ISBN: 978-1909245051, 2013, 352 pp.

[6] Ver:

Reiche, D. “War Minus the Shooting? The politics of sport in Lebanon as a unique case in comparative politics” (Third World Quarterly, Vol. 32, No. 2, 2011);

Ver também, James Montague:

http://www.nytimes.com/2007/10/24/sports/24iht-CUP.1.8030583.html;

Ver também artigo presente no Now!:

https://now.mmedia.me/lb/en/reportsfeatures/religious_about_football

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Ver ainda o vídeoO dia em que Pelé parou a guerra no Líbano”:

https://www.youtube.com/watch?v=SaO2EyaTSWs  

About author

Mestrando em Estudos Políticos do Oriente Médio e do Mediterrâneo no King’s College London. Especialista em História e Política do Oriente Médio e Maghreb. Possui Bacharelado em Historia pela UFSC. Participou de diversos projetos de pesquisa ligados ao CNPQ: A imagem do Outro em relatos de viajantes; Diáspora Africana no Brasil e Movimento Sem Terra. Hoje, além de trabalhar academicamente com Esporte para o Desenvolvimento e para a Paz, é treinador voluntário em um projeto que ensina jovens de bairros desprivilegiados a jogar futebol.
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