Apesar de sua grande extensão territorial (17,1 milhões de km2), a Federação Russa possui relativamente poucas terras aráveis, devido a condições climáticas desfavoráveis que englobam principalmente a região norte do país, as quais são destinadas exclusivamente à criação de gado. Contudo, a Rússia detém cerca de 10% das terras agrícolas do mundo, e apresenta um PIB (Produto Interno Bruto) projetado em 2018 para o setor em torno de 60 bilhões de dólares (aproximadamente 4% do PIB total russo).

Colheita de trigo

Com cerca de 35 milhões de hectares de terras a serem utilizadas para o plantio, a Rússia tem um enorme potencial para expandir a produção agrícola, e isso se potencializou com o acontecimento de alguns processos internacionais que se abateram sobre o país. Segundo o Financial Times (2017), quando a União Europeia e os EUA impuseram sanções a partes da economia da Federação Russa, após a alegada participação na crise na Ucrânia em 2014, algumas autoridades locais retrataram o bloqueio como uma oportunidade. Juntamente com um rublo em queda, previu-se que essa medida externa potencializaria o desenvolvimento do negócio nacional, incentivando a substituição de importações e tornando as exportações mais competitivas. As medidas limitadoras impostas pelo governo russo serviram como cobertura para avançar um objetivo estratégico que ele já havia estabelecido: tornar a Rússia cada vez mais autossuficiente em alimentos.

Com grandes investimentos em tecnologias, equipamentos e técnicas de plantio, a Rússia apresentou uma safra recorde de grãos em 2016, com cerca de 119 milhões de toneladas produzidas, sendo que o país se especializaria na produção de trigo (cerca de 61% do total), segundo relatório da FSSS russa (Federal State Statistic Service) para aquele ano, seguido de cevada (15%) e milho (13%), fazendo com que a nação não só atendesse a necessidade de consumo interno, como também voltasse sua produção excedente para o mercado externo.

Campo de trigo

Segundo os dados atuais (2018) do Serviço Federal de Alfândegas (FTS) e do Ministério da Agricultura russos, o volume da exportação de grãos já é 50% superior ao ano passado (2017). Isso significa que a Rússia não apenas é o líder global nesse setor, mas também está “expulsando” seus concorrentes europeus e norte-americanos do mercado, tendo como principais importadores desses produtos o Egito, a Turquia, a China e a Coreia do Sul, além de novos mercados, como Marrocos e Senegal (que pertenciam a França), Nigéria, Bangladesh, Indonésia e também o México (que tradicionalmente importa grãos dos EUA).

Para manter essa privilegiada posição mundial, o próximo passo da Federação Russa vai ser a autossuficiência em sementes. Muitos agricultores utilizam sementes especializadas, criadas para resistir a pragas, doenças e secas, porém, para algumas safras, mais da metade delas provém de produtores estrangeiros, como a Monsanto e a Syngenta, que dominam o mercado global. Empresas russas, entre elas a Ros Agro, querem diminuir essa dependência das importações, criando suas próprias sementes e cruzando com novas variedades, atingindo características desejadas, o que acarretaria em benefícios enormes com até 20% de aumento nos rendimentos das safras, segundo Pavel Volchkov, chefe de engenharia genômica do Instituto de Física e Tecnologia de Moscou.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Trigo” (Fonte):

https://images.freeimages.com/images/large-previews/673/ear-1327474.jpg

Imagem 2 Colheita de trigo” (Fonte):

https://images.freeimages.com/images/large-previews/90a/harvesting-1325831.jpg

Imagem 3 Campo de trigo” (Fonte):

https://images.freeimages.com/images/large-previews/8e0/corn-field-4-1368918.jpg

About author

Mestrando no programa de Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais (PUC-SP) na linha de pesquisa em Cooperação Internacional. Especialista em Política e Relações Internacionais (FESPSP) e habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ). Cursou MBA em Economia de Empresas (FEA-USP) e graduou-se como Bacharel em Ciências Econômicas (CUFSA). Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC) atuou durante 7 anos como educador voluntário no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Como articulista no Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) escreve sobre política e economia da Eurásia.
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