ANÁLISES DE CONJUNTURAORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL

O futuro dos BRICS: o brasileiro Marcos Troyjo é eleito para presidir o New Development Bank

Ao final do mês de maio deste ano (2020), o diplomata, economista e cientista político brasileiro Marcos Troyjo foi eleito como o Presidente do New Development Bank (NDB), popularmente conhecido como Banco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A instituição foi fundada em 2014 na Cúpula de Fortaleza (Brasil) e teve o início de suas operações no ano seguinte. Sete (7) dos 59 projetos aprovados pelo NDB foram destinados ao Brasil, totalizando o montante de US$ 1,5 bilhão (aproximadamente, 7,57 bilhões de reais, conforme cotação de 15 de junho de 2020) e perpassando diversos setores: transporte, desenvolvimento sustentável, energias renováveis, desenvolvimento urbano etc.

O Banco possui capital autorizado de US$ 100 bilhões (em torno de 504,81 bilhões de reais, de acordo com a mesma cotação), podendo realizar empréstimos anuais de até US$ 34 bilhões (próximo de 171,64 bilhões de reais, ainda segundo esta cotação) e tendo como objetivo estimular o desenvolvimento sustentável em países emergentes. A contribuição financeira e o poder de voto de cada país são divididos de forma igualitária. A sede do Banco está localizada em Xangai, na China, com um escritório regional em Johannesburgo, África do Sul. Ao final de 2019 foi aprovado um projeto legislativo para a criação de um escritório regional do NDB em São Paulo e um escritório de representação em Brasília.

Marcos Troyjo, o novo Presidente do NDB

Marcos Troyjo deixa o cargo que ocupava enquanto secretário especial de Comércio Exterior e Assuntos Internacionais do Ministério da Economia para suceder o indiano Kundapur Vaman Kamath na presidência do NDB. Troyjo deverá exercer a função por um mandato de cinco anos e enfrentando uma conjuntura especialmente desafiadora: um cenário internacional de instabilidade geopolítica, com o acirramento de tensões entre Estados Unidos e China, além das incertezas sobre os impactos que a crise do coronavírus acarretará para as estruturas da governança global.

A sigla dos BRICS foi originalmente lançada como BRIC (na época, apenas Brasil, Rússia, Índia e China), pelo economista Jim O’Neill, em 2006, como um acrônimo designando países com potencial de crescimento, nos quais valeria a pena investir. Surgiu como uma sigla de investimentos e foi posteriormente adotada pelos respectivos corpos diplomáticos dos países membros como uma iniciativa de cooperação internacional. Através dos anos o grupo foi ganhando materialidade e institucionalização, realizando cúpulas anuais, cooperação ministerial nos mais diversos temas e consolidando-se definitivamente com a criação do NDB.

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Por muitos anos apontou-se a heterogeneidade dos Estados membros como um dos entraves para a cooperação, mas a experiência tem demonstrado a habilidade e o pragmatismo dos corpos diplomáticos de forma a negociar e cooperar entre si, apesar das grandes divergências culturais e de regime político entre os membros. Entretanto, existe outra dificuldade premente que poderá impactar a concertação de interesses e a cooperação futura: instabilidades domésticas nos países membros.

O Brasil enfrenta a sua maior crise econômica desde 1929, além disto, a África do Sul também enfrenta problemas neste sentido. A Índia e a China continuam a manter altas taxas de crescimento nos anos recentes e embora não se possa dizer o mesmo da Rússia, este país continua sendo um ator importante na geopolítica global, devido ao seu poder militar e sua capacidade de projeção de influência através da Eurásia. 

Chefes de Estado dos BRICS na ocasião da Cúpula de 2019

A tendência parece apontar para uma crescente disparidade econômica, com a China decolando rapidamente à frente dos outros membros, o que talvez provoque assimetrias nos recursos de poder disponíveis para a negociação entre os BRICS. A próxima reunião de Cúpula foi adiada e deverá ocorrer em São Petersburgo, na Rússia, em Outubro (2020), se a pandemia de Covid-19 permitir. A Rússia ocupa a Presidência rotativa do grupo no ano de 2020, tendo sucedido o Brasil, que a ocupou no ano passado (2019). 

Em uma economia global profundamente conectada e interdependente, crises como a Covid-19 só podem ser enfrentadas através do diálogo, troca de conhecimentos e cooperação internacional. Nesse sentido, a necessidade de promover o desenvolvimento sustentável, a cooperação Sul-Sul e instituições globais mais justas são três dos principais temas que unem o grupo dos BRICS. Em relação à dimensão do desenvolvimento, a Covid-19 vem mostrando a necessidade de promover políticas industriais e fomento à ciência e tecnologia em países que não são capazes de produzir bens como respiradores e máscaras em quantidades suficientes.

Evolução da renda per capita dos BRICS entre 2000-2018

Governos e sociedades capazes de olhar além de suas fronteiras nacionais, promovendo a cooperação com parceiros estratégicos, poderão emergir desta crise como líderes na governança global que ainda está sendo moldada pelos impactos da pandemia. A atuação de Marcos Troyjo à frente do NDB poderá ser um exemplo positivo neste sentido.

Por fim, a cooperação não implica que os atores concordem com todos os termos de um determinado assunto. A cooperação exige negociação para alcançar pontos de benefícios mútuos e geralmente implica em concessões de todas as partes envolvidas. No entanto, especialistas afirmam que o resultado sistêmico ainda é mais positivo do que quando os Estados tentam buscar apenas os seus próprios interesses individuais.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Tipografia estilizada com as iniciais e as bandeiras dos países membros” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/31/BRICS_Typography.svg/1280px-BRICS_Typography.svg.png

Imagem 2 Marcos Troyjo, o novo Presidente do NDB” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/worldeconomicforum/39000368960

Imagem 3 Mapa demonstrando a localização dos BRICS” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/bb/BRICS.svg/1280px-BRICS.svg.png

Imagem 4 Chefes de Estado dos BRICS na ocasião da Cúpula de 2019” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/7d/2019_Reuni%C3%A3o_Informal_do_BRICS_-_48142657062.jpg/1280px-2019_Reuni%C3%A3o_Informal_do_BRICS_-_48142657062.jpg

Imagem 5 Evolução da renda per capita dos BRICS entre 20002018” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/21/BRICS-GDP-pCapita-2000-2018.jpg

About author

Mestrando em Estudos Contemporâneos da China pela Renmin University of China (RUC) e pesquisador afiliado pela Silk Road School. Mestre em Relações Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Possui especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Agente consular junto ao Consulado Honorário da França em Porto Alegre, atuando paralelamente no escritório RGF Propriedade Intelectual, no período de 2013-2016.
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