ANÁLISE - TecnologiaANÁLISES DE CONJUNTURA

O Mar: janela de oportunidade para a energia nuclear

Depois dos eventos de 11 de março de 2011, quando um terremoto e tsunami levaram ao colapso três dos seis reatores nucleares na usina de Fukushima Dai-Ichi, no Japão, poderíamos ser induzidos a pensar que a energia nuclear e a água do mar não se combinam. Entretanto, isso não é verdade. Usinas nucleares no oceano ao invés de em terra, flutuando na superfície, ancoradas abaixo dela ou fixas nos fundos marinhos, são alternativas técnicas bastante interessantes.

Mapa mostrando o epicentro do terremoto e a posição das centrais nucleares afetadas

Tal ideia vem sendo vista com respeito. As usinas nucleoelétricas terrestres são estruturas customizadas ao local onde são instaladas, construídas pelas técnicas de construção civil, nas quais cada uma é um pouco diferente da outra e equipes de especialistas entram e saem de acordo com a fase do projeto. Usinas marítimas, ao contrário, poderiam ser produzidas em série em fábricas usando, se não as mesmas técnicas de linha de montagem, ao menos as técnicas de construção naval de estaleiros, com equipes permanentes.

Tal condição tornaria as usinas marítimas mais baratas do que as em terra e a eletricidade produzida por elas poderia custar pelo menos um terço a menos do que a de uma equivalente terrestre. Isso também as tornaria mais seguras. Um reator ancorado no fundo do mar nunca teria falta de resfriamento de emergência, problema que causou o colapso de Fukushima. Tampouco precisaria ser protegido contra o risco de terroristas lançarem uma aeronave contra ela. Seria à prova de tsunami também. Embora os tsunamis se tornem ondas grandes e destrutivas quando chegam em águas rasas, no oceano aberto eles são meras ondulações. De fato, se fosse ancorada em profundidade o suficiente (cerca de 100 metros), tal reator submarino não seria afetado por tempestades passageiras.

Usina nuclear flutuante da Rússia

Todas essas razões tornam as usinas nucleares marítimas uma ideia que vale a pena investigar. O Naval Group, empresa de equipamento naval francesa, projeta reatores que permanecerão fixos no fundo do mar ao invés de se movimentarem em um barco. O plano é envolver um reator e um turbo-gerador elétrico em um cilindro de aço com o comprimento de um campo de futebol e com um peso de cerca de 12.000 toneladas.

Todo o sistema, chamado de Flexblue, seria ancorado no leito do mar entre cinco e 15 km da costa, longe o suficiente para garantir a segurança em caso de emergência, mas próximo o suficiente para ser reparado facilmente. A eletricidade gerada (até 250 megawatts, suficiente para 1 milhão de pessoas) seria transmitida para terra por um cabo submarino. Para reabastecimento e manutenção, o cilindro seria levado à superfície com ar injetado em seus tanques de lastro. E, quando uma estação chegasse ao fim de sua vida útil, poderia ser rebocada para uma instalação especializada para ser desmontada com segurança.

O Naval Group ainda não atraiu nenhum cliente por seus projetos, mas uma abordagem um pouco menos ambiciosa dos reatores marinhos – ancorando-os na superfície e não abaixo dela, se concretizou na Rússia. A primeira usina nuclear flutuante, Akademik Lomonosov, foi construída. Ela foi lançada recentemente, rebocada para Murmansk para o carregamento de combustível, e daí será transportada para Pevek, um porto no Extremo Oriente da Rússia, onde começará a gerar energia em 2019.

O Akademik Lomonosov consiste em dois reatores de 35 MW montados em uma barcaça. Os reatores são versões modificadas daqueles usados nos quebra-gelos da classe Taymyr. Como tal, eles são projetados para serem capazes de operar em tempestades do Oceano Ártico. Para aumentar sua segurança, a barcaça que os transporta será ancorada a cerca de 200 metros da costa, atrás de um quebra-mar resistente a tempestades e tsunamis.

Ao todo, a Akademik Lomonosov custou cerca de US $ 480 milhões para ser construída e instalada, ou seja, muito menos do que teria que ser gasto construindo uma usina nuclear equivalente em terra em um ambiente tão remoto e hostil. Planos para uma segunda planta semelhante estão sendo lançados.

Corporação Nuclear da China divulgou conceito de sua primeira usina nuclear flutuante Foto: Divulgação

Mas a Rússia não está sozinha no planejamento de reatores flutuantes. A China tem ambições semelhantes, embora os destinos dos dispositivos envolvidos sejam mais controversos que os da Rússia. Especificamente, o governo chinês pretende, durante a década de 2020, construir até 20 usinas nucleares flutuantes, com reatores com potência de 200MW, para fornecer energia a ilhas artificiais que estão sendo construídas como parte de seu plano para impor a reivindicação do país a grande parte do Mar do Sul da China, uma reivindicação contestada por todos os outros países da região.

As empresas envolvidas neste projeto pretendem testar alguns de seus reatores à prova de tsunamis, da mesma forma que os franceses, colocando-os em águas suficientemente profundas para a formação de enormes ondas de tsunami. No entanto, como estão na superfície, isso não os protegerá das tempestades, e localizá-los longe da costa significa que a abordagem russa de construir quebra-mares de proteção também não funcionará. Os tufões no Mar da China Meridional podem elevar as ondas com uma amplitude superior a 20 metros.

Para resistir a essas tempestades, as barcaças terão âncoras presas a “torres de amarração” giratórias. Isso fará com que uma barcaça se comporte como um cata-vento, sempre apontando para o vento. Como essa é a direção da qual as ondas vêm, ela permanecerá alinhada àquelas ondas, dando-lhe a melhor chance de escapar de qualquer tempestade. Os cascos das barcaças também serão construídos altos, para cortar as ondas. Desta forma, eles serão capazes de sobreviver a uma “tempestade de 10.000 anos”.

O navio Arctic Sunrise – Greenpeace

O Mar da China Meridional também é uma área movimentada para o transporte marítimo. Portanto, qualquer usina nuclear flutuante precisará suportar um impacto direto de uma embarcação de carga pesada viajando a uma velocidade de, digamos, 20 nós (37,04 Km/h), seja essa colisão acidental ou o resultado de ação hostil. Uma maneira de fazer isso seria instalar as barcaças com zonas externas de deformação feitas de materiais como aço corrugado e madeira. Nem todos estão satisfeitos com a ideia de energia nuclear naval. O Greenpeace argumenta que as usinas offshore poderiam ser invadidas por piratas ou terroristas, ser atingidas por um iceberg ou escapar de regras de segurança que são difíceis de aplicar no mar, chegando a chamá-las de “Titanic nuclear” e “Chernobyl dos mares”.

É mais provável que o futuro das usinas nucleares marítimas dependa do futuro da energia nuclear como um todo do que das ações de grupos anti-nucleares como o Greenpeace. Observando-se tecnicamente, o urânio tem um papel importante a desempenhar na geração de eletricidade nas próximas décadas, sendo uma resposta satisfatória à questão do potencial de mudança climática decorrente da queima de combustíveis fósseis. Muitas novas usinas nucleares serão então necessárias. E se isso acontecer, colocar essas usinas no mar pode ser uma solução.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Projeto da usina nuclear flutuante Academician Lomonosov Divulgação” (Fonte – PUBLICADOS BRASIL):

http://publicadosbrasil.blogspot.com/2015/05/rosatom-constroi-primeira-usina-nuclear.html

Imagem 2 Mapa mostrando o epicentro do terremoto e a posição das centrais nucleares afetadas” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Acidente_nuclear_de_Fukushima_I#/media/File:JAPAN_EARTHQUAKE_20110311.png

Imagem 3 Usina nuclear flutuante da Rússia” (Fonte):

https://russian.lifeboat.com/blog.images/russia-has-launched-a-floating-nuclear-power-plant-critics-are-calling-nuclear-titanic.jpg

Imagem 4 Corporação Nuclear da China divulgou conceito de sua primeira usina nuclear flutuante Foto: Divulgação” (Fonte OESP):

https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,china-comecara-a-construir-sua-primeira-usina-nuclear-flutuante,10000019156

Imagem 5 O navio Arctic Sunrise Greenpeace” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Greenpeace#/media/File:Arctic_Sunrise_Greenpeace_Rijeka_14042013_2_roberta_f.jpg

About author

É Diretor Presidente e Diretor Técnico da Eletrobrás Termonuclear S.A. - Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA. Membro do Board of Management da World Nuclear Association. Foi Professor Titular da Faculdade de Administração da FAAP, Professor Visitante da Escola Politécnica da USP, Diretor Técnico-Comercial da Amazônia Azul Tecnologias de Defesa SA – AMAZUL, Assistente da Presidência da Eletronuclear e Coordenador do Programa de Propulsão Nuclear do Centro Tecnológico da Marinha. Especialista em Segurança Nuclear e Proteção Radiológica, é Doutor em Engenharia Naval e Oceânica pela USP, Mestre em Engenharia Nuclear pela Universidade de Paris XI e autor de vários livros e artigos sobre engenharia naval e nuclear, gestão e planejamento, política nuclear e não-proliferação.
Related posts
ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Vladimir Putin completa 20 anos à frente do Governo russo

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Ampliação das conexões aéreas de Cabo Verde

ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

O retorno das forças pró-russas à Ucrânia

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

A Bolívia e a busca de saídas para o mar

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Olá!
Powered by