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O mundo no pós-crise financeira internacional (2008) está presenciando uma mudança nas negociações globais. As tradicionais negociações entre as potências europeias com os Estados Unidos e entre as nações em desenvolvimento com os norte-americanos começou a ser invertida, tendo visto a emergência das negociações sul-sul, bem como a maior atenção que vem sendo dada às riquezas da África.

Com a mudança no quadro de prioridades em negociações econômicas, começou também uma corrida para a conquista do continente africano. Hoje, temos as grandes potências europeias e Washington mais atentos aos países africanos por razões de economia, ao invés de priorizarem as motivações geopolíticas, numa situação diferente da que ocorria num passado recente, antes de as atuais potências emergentes como a China, Rússia, Brasil e Índia obterem os seus significativos crescimentos. Porém, dentro das variáveis existentes na economia, a nova crise financeira que se desencadeou na Europa deu mais espaço para uma expansão dos países emergentes no continente africano, principalmente após a África do Sul se juntar ao BRICS (“Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul”) .

Mas, assim como na era colonial, está correndo na frente aquele que percebe o mundo de uma perspectiva superior e entende as amplas potencialidades econômicas e comerciais existentes. Observadores têm mostrado que as potências asiáticas adotaram este comportamento, tanto que não focaram suas energias apenas na Ásia e no continente africano, mas deram também atenção para os países da “América Central” e “América do Sul”.

Especialistas indicam que os planos dos asiáticos de entrarem com força nestas regiões, principalmente nos países sul-americanos, não foram difíceis de ser traçados, graças ao grande número de imigrantes existentes em países americanos, bem como a uma aproximação cultural que ocorre, além de terem percebido e estarem ocupando a grande lacuna deixada por Washington e pelos países europeus no passado recente que não deram prioridade às Américas  do Sul e Central em seus planos de governo, logo em suas respectivas políticas externas.

Analistas apontam que a presença das potências asiáticas na região é bem-vinda e destacam alguns pontos simples e de entendimento popular para explicar. Um exemplo que pode ser ilustrativo é a presença japonesa no Brasil. Os produtos japoneses são considerados de “qualidade”, como “sofisticados” e os japoneses em solo brasileiro já não são tidos mais nacionais daquele país e sim brasileiros. Ou seja, os filhos daqueles imigrantes japoneses que chegaram no final do século XIX e início do século XX já têm sua presença consolidada no Brasil, com grande miscigenação cultural, e, hoje, são eles quem fazem a diferença no momento de negociar com as empresas do Japão.

Diferente dos japoneses, no caso chinês, estes sempre foram mais fechados e não se miscigenaram com a cultura local, nem construíram uma base tão sólida para negociações como fizeram imigrantes e descendentes de imigrantes do Japão, destacando-se que isto se deu embora a imigração chinesa tenha iniciado no Brasil desde Colônia. Assim, diferente dos nipônicos que se firmaram e paulatinamente no país e interagiram com a cultura local, o segredo chinês para o Brasil e seus vizinhos se deu e se dá pelo planejamento bem estruturado.

Os grandes desafios foram o idioma para se comunicar, descobrir uma forma de conquistar a confiança local e o trabalho com a imagem da China na região para ter uma boa aceitação na região. O grande número de chineses, cantoneses, taiwaneses e outras etnias chinesas presentes no Brasil, Paraguai e Argentina foi bem explorado para os negócios, mas o presidente Hu Jintao foi além, pois ele iniciou a ampliação das instituições que ensinam língua portuguesa e espanhola em toda a China, objetivando preparar os chineses para negociar com os latino-americanos em seus respectivos idiomas, sem a necessidade da língua inglesa, pois perceberam que esta não é dominada pela grande maioria da população latino-americana.  

O Brasil, que é um dos três parceiros comerciais mais importantes da China, pode se tornar o maior parceiro nos próximos anos, um cenário possível pelos sinais emitidos pelo Estado chinês com sua preocupação em disseminar  o conhecimento da língua portuguesa em todo o país. Comparando-se com os EUA e a Inglaterra, no ano passado (2011), a língua portuguesa tinha cerca de 10 mil alunos em cursos regulares nos Estados Unidos. Entre os britânicos, ela havia sido posta como um dos idiomas prioritários do país, de acordo com um levantamento apresentado pela “BBC Brasil”, também em 2011. Na China, o caso é diferente e para mostrar a diferença é interessante falar da história deste idioma no seu território.

Na década de 1950 o Governo chinês havia iniciado um incentivo para o estudo de outros idiomas em seu país. A prioridades na época eram a língua russa, devido as suas relações diplomáticas, mas também o inglês e o japonês foram incluídos nessa lista devido ao desenvolvimento estratégico do Estado.  Nos anos 1960, a língua portuguesa passou a ser conhecida como “minoritária” no país e foi iniciado um curso na “Universidade de Estudos Estrangeiros de Beijing”, num ato para estabelecer laços de amizade com Portugal, Brasil e outros países que hoje integram a “Comunidade de Países de Língua Portuguesa” (CPLP).

Houve saltos em determinados momentos, causados por dificuldades que surgiam e precisavam ser resolvidas. Um caso expressivo é que a relação Brasil-China mudou muito quando o então presidente brasileiro João Goulart (1961 – 1964), visitou a China em 1961, quando ainda era Vice-Presidente. De acordo com arquivos da “Rádio China Internacional” (CRI), durante à visita do brasileiro, o Presidente chinês havia solicitado um tradutor de chinês-português e não havia um disponível em todo seu país. Desde a ocorrência deste caso, o Governo deu início a um novo tratamento para atender os líderes de origem lusófona. Por isso foram criadas licenciaturas do idioma português nas universidades chinesas e, nos últimos 50 anos, mais de 400 mil profissionais foram formados. Segundo dados apresentados pela “BBC Brasil” em 2011, nos próximos anos, objetiva-se aumentar de 15 para 30 o número de instituições que lecionam o idioma no país, indicando que os chineses veem a comunicação com os povos de língua portuguesa não mais como uma opção e sim como essencial para o seu futuro econômico e comercial.

Na América do Sul, os portos brasileiros são as principais entradas de produtos chineses para todo o continente. Mas além do comércio, também estão ocorrendo investimentos em infra-estrutura, compras de lotes de terra e um significativo número de empresas está se instalando no país. Isso está tornando o Brasil tão importante para Beijing quanto as relações que a China tem com o continente Europeu.

Analistas apontam que as bases para alavancar ainda mais as relações do gigante asiático com Brasília e seus vizinhos já estão prontas. Algumas divergências não chegam a superar as relações comerciais estabelecidas, as quais renderam e ainda rendem lucros mútuos. Além disso, não devem ser alterados os avanços já conquistados com a mudança de poder ocorrida recentemente em Beijing. O atual presidente Xi Jinping deverá conduzir seu país de forma a manter suas relações estáveis com as nações do globo e, conforme destacam vários observadores, pelos cenários econômicos construídos pelos especialista na área, o atual líder poderá priorizar as relações com os países do MERCOSUL e da “América Central”.

Nos próximos anos, a China terá fortes concorrentes, como a Índia, a “Coreia do Sul” e o Japão, que estão investindo significativamente nos países dessa região. Relacionar-se com as nações da América (Central e do Sul) será fundamental para o futuro econômico chinês, tal qual destacam os especialistas econômicos apresentados por Adrian Hearn, em uma análise apresentada no jornal brasileiro “Folha de São Paulo”.
Observadores destacam que o cenário internacional tem definido que a China não pode depender apenas dos mercados europeus e dos Estados Unidos. Também ressaltam que não apenas os chineses estão nesta condição, mas o mesmo está ocorrendo com os seus vizinhos. Além disso, que a importância de relacionar-se com a “América Latina” na atualidade é tão ou mais importante que se relacionar com as potências econômicas europeias em crise e os asiáticos já perceberam tal realidade, por isso não estão desperdiçando tempo para preencherem as lacunas diplomáticas, culturais e econômicas que foram deixadas de lado por europeus e estadunidenses. Assim, as potências asiáticas estão buscando firmar-se como importantes parceiros das nações latino-americanas.
Segundo vem sendo destacado na mídia internacional, com ênfase na mídia especializada, a China neste momento investirá no seu mercado doméstico, apostando no aumento do consumo interno, o que demandará as matérias-primas que hoje são importadas da América Latina, dentro de planejamento que tem como meta a projeção de crescimento de 7% do PIP até o ano de 2020. Isso certamente é um grande incentivo para que os países latino-americanos mantenha as boas relações com o presidente Xi Jinping.
No entanto, cuidados devem ser tomados, pois analistas apontam que, com o encerramento deste ano fiscal de 2012 dentro do planejado, com o “Partido Comunista Chinês” consolidado e com a concretização da  alternância tranquila de poder na China, poderá ocorrer o crescimento do número de países latinos disputando os melhores contratos com Beijing e trabalhando com seus potenciais exportadores para assegurar bons negócios.

Porém, vencer a concorrência para exportar para os chineses é tão importante quanto preparar planejamentos estratégicos para o sucesso da China, definindo formas de enfrentar os seus avanços futuros na região, pois, se de um lado ocorrerão os benefícios dos negócios com chineses pensando em seu mercado, poderá ocorrer que a maré de produtos da China no Ocidente seja maior e mais forte quando o consumo interno no país asiático estiver satisfeito, sendo necessário que todas as nações da região estejam preparadas para competir com seus principais clientes.
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Fontes Consultadas:

Ver:
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1184100-analise-expansao-do-mercado-interno-chines-beneficiara-america-latina.shtml
Ver:

http://www.mdic.gov.br/sitio/interna/noticia.php?area=5&noticia=11951

Ver:

http://novohamburgo.org/site/noticias/educacao/2012/10/11/cresce-interesse-de-estrangeiros-em-aprender-a-lingua-portuguesa/

Ver:

http://portuguese.cri.cn/561/2012/01/16/1s144984.htm

VerArquivos disponíveis na Casa de Macau em São Paulo”:

http://www.casademacausaopaulo.com.br/
Ver também Arquivos no site daCRI Portuguese”:

http://portuguese.cri.cn/

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. É membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence. Atualmente trabalha como repórter fotográfico.
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