ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIAORIENTE MÉDIO

O papel da Rússia no conflito entre EUA e Irã

O ano de 2020 teve início com um desbalanceamento geopolítico e econômico de proporção global, devido a um bombardeio cirúrgico e fatal perpetrado no dia 3 de janeiro pelo Governo norte-americano, no aeroporto internacional de Bagdá, capital do Iraque.

Qassem Soleimani (esquerda) e Abu Mehdi al-Muhandis (direita)

O ataque causou a morte do major-general iraniano Qassem Soleimani, responsável pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e comandante da Força Quds, uma divisão responsável por operações militares extraterritoriais, e de seu braço direito, Abu Mehdi al-Muhandis, um dos principais líderes das Forças de Mobilização Popular, ou Hashd al-Shaabi, uma coalizão paramilitar pró-Teerã integrada ao Estado iraquiano.

Declarações provindas do Pentágono deixaram claro que o principal objetivo desse ataque foi “eliminar” uma liderança ideológica com pretensões terroristas, e que representava uma ameaça aos EUA e ao mundo civilizado.

As reações ao bombardeio foram quase imediatas. China, União Europeia, Grã-Bretanha, França e Alemanha pediram calma e prudência, ao mesmo tempo em que o Irã e seus movimentos satélites, como o Hezbollah* libanês, o Hamas** palestino e os Houthis iemenitas clamaram por vingança.

Forças militares iranianas

Segundo especialistas, o cenário geopolítico atual se dirige para uma possível escalada de conflito e violência que pode ter efeitos devastadores não só na região do Oriente Médio, como, também, reverberar por toda a comunidade internacional. Posto isso, governos e instituições internacionais estão se mobilizando para tentar evitar possíveis manifestações de âmbito militar entre as duas nações. O mundo não pode arcar com outra guerra no Golfo”, afirmou o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), António Guterres.

De certo, o questionamento da comunidade internacional é grande em determinar quais serão os próximos movimentos a serem executados pelos EUA e Irã, mas, outro grande e importante ponto de interrogação é qual será o comportamento da Rússia em meio a um possível confronto entre as duas nações, e porque especificamente a Rússia e não outra nação.

Historicamente, a Rússia lutou contra a Turquia, a Inglaterra e a França pelo acesso ao Mediterrâneo em tempos passados para proteger os cristãos do domínio otomano, e para garantir uma posição na Terra Santa. Durante a maior parte da era pós-Segunda Guerra Mundial, a União Soviética foi uma força importante no Oriente Médio. Moscou apoiou a Organização de Libertação da Palestina (OLP) em sua luta contra a denominada “entidade sionista”. Egito e Síria travaram guerras contra Israel com armas soviéticas, ajuda de conselheiros militares soviéticos e, ocasionalmente, até mesmo pilotos soviéticos foram utilizados no conflito, segundo fontes históricas. Engenheiros e muito dinheiro soviético ajudaram a construir obras de infraestrutura no Egito. Então, no final dos anos 1980, a União Soviética caiu em tempos difíceis e rapidamente se retirou da região, deixando o legado hegemônico local para seu inimigo ideológico à época, os EUA.

Atualmente, segundo especialistas, a Federação Russa vem agindo como um rolo compressor no Oriente Médio. O poder aéreo russo salvou o regime de Bashar al Assad de uma certa derrota não só contra grupos rebeldes, mas, também, contra o Estado Islâmico. A Turquia e Israel têm agora de aceitar a presença de tropas russas nas suas fronteiras. A Arábia Saudita deu ao Presidente russo, Vladimir Putin, o tratamento do tapete vermelho por ser um grande parceiro estratégico dentro da OPEP+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados). Em todo o Oriente Médio, do norte da África ao Golfo Pérsico, a Rússia é onipresente, com seus visitantes de alto escalão, suas armas, seus soldados e seus acordos para construir usinas nucleares.

O ressurgimento da Rússia como um grande agente de poder no Oriente Médio está operando não só em contraste com a postura errática dos Estados Unidos na região, mas, porque, por um quarto de século após a Guerra Fria, a Rússia esteve localmente ausente e essa ausência, e não o seu regresso, é que seria a verdadeira anomalia geopolítica, deixando claro seu verdadeiro papel dentro da região e porque sua atuação em desbalanceamentos sistêmicos é tão importante não só para a localidade, mas, também, globalmente.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, com o presidente do Irã, Hassan Rouhani

No tocante ao Irã, apesar de a Rússia ter interesses similares à nação persa, devido ao fato de terem colaborado conjuntamente com o Governo sírio em sua recuperação depois da guerra interna, seus posicionamentos divergem sobre questões locais. Segundo fontes, “Moscou busca um equilíbrio entre as forças locais do Oriente Médio e tem um papel de mediador externo, enquanto o Irã busca, em muitos sentidos, a direção oposta disso, tentando ser o líder regional, enquanto Teerã acredita que esse é o único meio de garantir a segurança da República Islâmica”.

Apesar de Moscou ter proferido críticas ao governo Trump por assassinar Soleimani, até agora a Rússia permaneceu em silêncio em relação ao que irá fazer sobre o assunto, mas, de certo, qualquer ajuda por parte dela ao Irã, caso haja um conflito direto com os EUA, seria especificamente para proteger seus próprios interesses regionais, principalmente o de âmbito econômico, pois, segundo analistas, a relação entre os dois países seria apenas de parceiros táticos e não de aliados estratégicos, por conta de seus diferentes objetivos globais.

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Notas:

* O Hezbollah, que em árabe significa ‘Partido de Deus’, é uma força islâmica xiita com estrutura similar à do Exército e, ao mesmo tempo, um grupo político com sede no Líbano. Ele nasceu em 1982, durante a Guerra Civil Libanesa, a princípio como uma milícia, ou seja, constituída por cidadãos libaneses portadores de armas e de um suposto poder policial.

** Hamas é a sigla de Ḥarakat al-Muqāwamat al-Islāmiyyah (em português, Movimento de Resistência Islâmica). O grupo tem origem palestina e baseia-se nos princípios sunitas. A organização divide-se entre as brigadas Izz ad-Din al-Qassam (braço armado), um partido político e uma estrutura de cunho filantrópico. Com essa formação, o Hamas é considerado um dos movimentos islâmicos e fundamentalistas mais importantes da Palestina. A origem do Hamas remete ao ano de 1987, quando o grupo foi instituído a partir da Primeira Intifada, manifestação da população da Palestina contra a ocupação de Israel.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Homenagem póstuma a Qassem Soleimani” (Fonte): https://nationalinterest.org/blog/buzz/trump-cant-win-iraq-because-iran-winning-middle-easts-information-war-112326

Imagem 2 Qassem Soleimani (esquerda) e Abu Mehdi alMuhandis (direita)” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Qasem_Soleimani#/media/File:Abu_Mahdi_al-Muhandes_&_Qasem_Soleimani01.jpg

Imagem 3 Forças militares iranianas” (Fonte): https://nationalinterest.org/blog/buzz/what-does-america-have-fear-about-irans-large-army-112676

Imagem 4 O presidente da Rússia,Vladimir Putin, com o presidente do Irã,Hassan Rouhani” (Fonte)

About author

Bacharel em Ciências Econômicas pelo Centro Universitário da Fundação Santo André (CUFSA) e pós-graduado em Economia pela FEA-USP (MBA). Habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ), e Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC). Atuou durante 7 anos como educador no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Atualmente, é pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Tem grande interesse nas áreas de Geopolítica, Relações Internacionais e Economia Política Internacional
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