Em meados de junho iniciou-se um novo capítulo de tensões entre o Estado de Israel e a Autoridade Nacional Palestina (ANP). Essa nova escalada de violência entre israelenses e palestinos deu início ao conflito que já dura mais de duas semanas, contabilizando, aproximadamente, 550 mortos e mais de 100 mil refugiados[1]. Esse cenário carrega tensões de origem histórica,  que envolvem antagonismos que precedem o século XX, mas que se acentuam com nascimento do Estado de Israel, particularmente após 1967, quando a parte oriental de Jerusalém, território palestino, é ocupada pelos israelenses.

Os Estados Unidos da América (EUA) reconheceram o Estado de Israel no dia 14 de maio de 1948, durante a administração do ex-presidente Harry Truman. Alguns analistas apontam que desde então os EUA apoiam o Governo israelense, tanto em termos financeiros quanto em termos diplomáticos, e, portanto, privilegiam os seus interesses nas tentativas de forjar um Acordo de Paz com a Palestina[2].

Assim, afirmações como as feitas pelo presidente norte-americano Barack Obama de que os laços entre Estados Unidos e Israel são inquebráveis, reflete o quão intrínseca é essa aliança, independentemente de um governo republicano ou democrata[3]. Essa é uma das críticas feitas aos Estados Unidos, que tem seu papel questionado ao falhar em mais uma tentativa de articular um Acordo de Paz entre Israel e palestinos.

Com o final da Guerra Fria e a vitória na Guerra do Golfo, em 1991, os Estados Unidos consolidaram a hegemonia necessária para implantar o projeto de estabilizar o Oriente Médio[4]. Assim, a partir dos anos 90 do século passado, o Governo norte-americano (republicanos ou democratas) buscou promover um processo de paz entre ambos.

A primeira tentativa foi feita em 1993, através dos Acordos de Oslo, quando Bill Clinton, Ex-Presidente dos EUA, buscou mediar as negociações para acordar uma resolução que colocaria fim ao conflito, num prazo limite de até cinco anos. No entanto, diversos eventos antagonistas entre israelenses e palestinos postergaram as negociações. Mais tarde, em 1999, houve uma tentativa de reviver os Acordos de Oslo, mas, novamente, não houve progresso e a Segunda Intifada, em 2000, pôs fim às esperanças de um Acordo[5].

Em 2002, foi a vez de George W. Bush assumir a segunda tentativa que previa a criação de um Estado Palestino até 2005, também fracassada pela falta de progresso e pelas diferenças nos diálogos. Mais tarde, em 2007, Bush mediou uma nova tentativa de resolução, reunindo em Annapolis (EUA) israelenses, palestinos e os aliados árabes dos EUA para buscar um compromisso conjunto. No entanto, o Hamas, que no presente controla a região da Faixa de Gaza, afirmou que não aceitaria o resultado das negociações. Mais uma vez o Acordo não obteve consenso e, por fim, em dezembro de 2008, a Palestina se retirou das negociações após a operação militar israelense na Faixa de Gaza[6].

Em 2010, já sob o comando do presidente Barack Obama, surgiram outras esperanças de se estabelecer um novo processo de paz. Contudo, a interrupção dos diálogos acerca dos “assentamentos israelenses” em partes da Cisjordânia e no Leste de Jerusalém, território que é reivindicado pelos palestinos, encerrou os diálogos novamente[7]. Por fim, em julho de 2013, John Kerry, Secretário de Estado norte-americano, assumiu o compromisso de mediar mais uma negociação, que tinha como data limite 29 de abril de 2014.

Ainda no início deste ano, o processo de paz já demonstrava sinais de esfacelamento. O próprio John Kerry afirmou que os Estados Unidos iriam reavaliar seu papel no Conflito Israel-Palestina, ressaltando que “há limites para a quantidade de tempo e esforços que os EUA podem dedicar, se as duas partes não estão dispostas a tomar medidas construtivas para que possam existir progressos[8]. Os eventos que ocorreram posteriormente apenas ressaltaram a impotência dos EUA em mediar esse processo de paz. 

Em meados do mês de abril, os Estados Unidos demonstravam-se desapontados com a decisão do Fatah, partido vinculado à Organização pela Libertação da Palestina (OLP),e do Hamas, de formarem um pacto de união, uma vez que esse pacto poderia prejudicar as negociações de paz entre Israel e a Palestina.De fato, em seguida, o Governo israelense declarou que cancelaria as negociações[9].

Alguns analistas apontam que o fracasso das negociações deve-se ao fato de que as mesmas não foram promovidas de forma direta, ou seja, entre os líderes dos dois lados,(“Netanyahu e Abbas não se encontraram, não há um nível de confiança[10]) e, nesse sentido, torna-se “evidente que um acordo entre israelenses e palestinos em um futuro próximo não será alcançado[10]. Para Robert Serry, Coordenador Especial da ONU para o Processo de Paz no Oriente Médio,“a inação pode transformar este momento em uma crise. Por isso devemos fazer uma reflexão conjunta sobre como chegamos a este impasse e as formas de superá-lo[11].

Assim, ainda em meio às tentativas de Paz, deu-se início à escalada de tensões, que posteriormente resultaria no conflito em si.  Essa escalada da violência, particularmente no último final de semana, chamou a atenção da comunidade internacional, que mais uma vez clama por esforços para alcançar um cessar-fogo. Segundo Philip Luther, Diretor para o Oriente Médio e Norte da África da Anistia Internacional,“Sob as leis do direito humanitário internacional, todas as partes do conflito têm a obrigação absoluta de proteger as vidas de civis, que foram surpreendidos pela intensificação do embate[12].

Ainda no começo do conflito, o Governo norte-americano assumiu o papel de buscar esforços para estabelecer um cessar-fogo[13]. Na última segunda feira, 21 de julho, Barack Obama destacou que seu país está preocupado com o aumento das mortes de civis ereiterou ainda que os Estados Unidos tem “sérias preocupações sobre o crescente número de mortes de civis palestinos e a perda de vidas israelenses. Por isso, nosso foco, e da comunidade internacional, tem que ser conseguir um cessar-fogo, que termine o conflito e pare as mortes de civis inocentes[14].

Nesse sentido, em vista das fracassadas tentativas de promover o acordo de paz entre israelenses e palestinos, é natural que se questione o papel desempenhado pelos EUA no conflito.  Para alguns analistas como Allen Weiner, Diretor do Programa de Direito Internacional e Comparado de Stanford, o processo de paz já é difícil com a mediação do Governo norte-americano, sem a presença deste, ele certamente estaria quase que fadado ao fracasso[15]. Outros analistas assinalam que é preciso uma mudança da opinião pública norte-americana quanto à situação dos palestinos, para que haja uma pressão interna e consequentemente uma reformulação na postura norte-americana em mediar o conflito[16].

Desse modo, obviamente que a condução do processo de paz depende da aproximação do diálogo entre as israelenses e palestinos, pois “a construção da paz exige que as partes comecem a estabelecer padrões de comportamento que lhes permitam acreditar que a confiança mútua é possível. As partes devem reconhecer as perdas que um acordo imporá a ambos os lados para que possam garantir os benefícios da paz[17]. E, nesse sentido, talvez caiba uma reavaliação do papel e da forma como os EUA conduzem essa mediação, a qual, entre retomadas e interrupções, carrega ainda problemas basilares observados nas propostas de 1993.

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Imagem (Fonte):

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/middleeast/9685336/Gaza-conflict-shows-how-the-power-of-the-Arab-Spring-was-underestimated.html

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/07/140721_gaza_israel_entenda_rb.shtml

[2] Ver:

http://www.foreignpolicyjournal.com/2013/12/02/the-u-s-role-in-the-israeli-palestinian-conflict/

[3] Ver:

http://www.theguardian.com/commentisfree/2012/nov/19/us-public-opinion-israel-palestine-gaza

[4] Ver:

OLIC, Nelson Bacic; CANEPA, Beatriz. Oriente Médio e a questão da Palestina. São Paulo: Moderna, 2003.

[5] Ver:

http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/le-monde/2014/07/15/eua-ja-fracassaram-cinco-vezes-ao-propor-paz-entre-israel-e-palestinos.htm

[6] Ver:

http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/le-monde/2014/07/15/eua-ja-fracassaram-cinco-vezes-ao-propor-paz-entre-israel-e-palestinos.htm

[7] Ver:

http://oglobo.globo.com/mundo/kerry-anuncia-retomada-de-dialogo-entre-israel-palestinos-9101411

[8] Ver:

http://www.dw.de/eua-diz-que-vai-reavaliar-seu-papel-no-processo-de-paz-no-oriente-m%C3%A9dio/a-17546076

[9] Ver:

http://oglobo.globo.com/mundo/eua-temem-que-acordo-entre-hamas-fatah-inviabilize-negociacoes-de-paz-12274144

[10] Ver:

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2014/06/15/analistas-dizem-que-eua-erraram-ao-promover-paz-entre-israel-e-palestina.htm

[11] Ver:

http://www.onu.org.br/para-representante-da-onu-conflito-entre-israel-e-palestina-vive-hora-da-verdade/

[12] Ver:

http://anistia.org.br/direitos-humanos/blog/israel-gaza-conflitos-se-agravam-todos-os-lados-devem-proteger-civis-2014-07-1

[13] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/07/140711_gaza_israel_eua_fl.shtml

[14] Ver:

http://oglobo.globo.com/mundo/foco-agora-cessar-fogo-dizem-eua-sobre-conflito-entre-israel-palestinos-13323648

[15] Ver:

http://codinomeinformante.blogspot.com.br/2013/03/por-seu-papel-de-mediador-eua-sao.html

[16] Ver:

http://www.worlddialogue.org/content.php?id=239 

[17] Ver:

http://codinomeinformante.blogspot.com.br/2013/03/por-seu-papel-de-mediador-eua-sao.html