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O papel geopolítico russo no conflito entre Armênia e Azerbaijão

Localizadas numa região transcontinental entre Europa e Ásia, mais conhecida como Cáucaso, as ex-Repúblicas Socialistas Soviéticas Armênia e Azerbaijão vêm nas últimas semanas potencializando um conflito de longa data devido a disputas territoriais pelo domínio do enclave de Nagorno-Karabakh, e que poderá evoluir para uma guerra que ameace a estabilidade regional.

Durante anos, a Armênia e o Azerbaijão têm estado em desacordo sobre essa faixa de terra, tendo, um pouco antes do colapso da União Soviética, travado uma sangrenta guerra, que durou seis anos, no intuito de controlar o enclave que fazia parte do Azerbaijão de maioria muçulmana, mas que era povoado principalmente por cristãos armênios étnicos.

Mapa da região do Cáucaso

O conflito terminou em 1994, baseado num acordo de cessar-fogo, com aproximadamente 30.000 mortos, mais de um milhão de deslocados e uma frágil trégua que deixou Nagorno-Karabakh como um Estado independente de fato, reconhecido e apoiado pela Armênia, mas não pela maioria dos outros países, incluindo o Azerbaijão. Confrontos de baixo impacto persistem desde então, incluindo escaramuças mortais em 2016, e ambos os governos, segundo analistas, frequentemente usam o conflito para acender chamas nacionalistas dentro de suas fronteiras.

Em julho (2020), em plena pandemia da COVID-19, os atritos militares retomaram forma com diversos bombardeios pesados nas regiões setentrionais de Tovuz e Tavush, causando a morte de dezenas de militares e civis de ambos os lados. Um escalonamento do conflito se intensificou quando autoridades do Azerbaijão ameaçaram atacar uma central nuclear da Armênia, responsável pela produção de energia elétrica consumida em grande parte da área, caso ela investisse em ataques a centros estratégicos azeris.

Artilharia armênia no conflito Nagorno-Karabakh

Com o agravamento das hostilidades, um segundo ato, de maiores proporções, vem tomando corpo com uma provável escalada de tensões entre nações que têm interesses geopolíticos regionais e que estão dispostas em lados divergentes. Rússia, Turquia, Irã e Israel, cada um com seus interesses específicos, visualizam no conflito uma forma de maior influência geopolítica regional, impulsionando suas hegemonias numa região desbalanceada pelos embates étnico-territoriais.

Segundo especialistas, a defesa declarada da Turquia ao colega Azerbaijão é parcialmente impulsionada pelo desejo de recuperar seu papel passado como principal patrono militar do país, algo que a Rússia e Israel agora fazem, atuando como fornecedores de equipamentos militares. A resposta turca à última erupção da violência foi imediata e dura, endossando a versão azeri dos acontecimentos bem antes do estado das coisas no terreno ser determinado, demonstrando um comportamento inadequado de um agente que está envolvido em guerras por procuração tão distantes quanto Líbia e Síria e, segundo informações, supostamente está direcionando mercenários jihadistas sírios para atuar ao lado de tropas militares azerbaijanas.

A Rússia, por sua vez, é vista como um ator externo chave que tem um interesse legítimo no conflito, por conta, principalmente, do seu engajamento diplomático e iniciativa como uma nação coordenadora, juntamente com a França e os EUA, no Grupo Minsk* da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), a única entidade diplomática habilitada a mediar tal desbalanceamento. Outro ponto crucial nesse interesse é que a Armênia é um grande aliado, que cedeu área para implantação da 102ª Base Militar russa na região armênia de Gyumri, com aproximadamente 3 mil soldados, e é membro ativo da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO, do inglês Collective Security Treaty Organization), um bloco político-militar sob os auspícios russos na região do Cáucaso.

A Rússia tem vantagens distintas que superam a influência turca, pois tem envolvimento direto com os dois lados do conflito e essa percepção decorre de vários fatores. Primeiro, o Azerbaijão reconhece que Moscou tomou a iniciativa diplomática no processo de paz de Nagorno-Karabakh, em que os mediadores França e EUA cederam a liderança diplomática ao país eslavo. Uma segunda vantagem para a Rússia remete ao aumento de sua influência protetora sobre a Armênia, que não tem uma alternativa real de segurança, fazendo com que a natureza transacional das relações entre Yerevan** e Moscou se fortaleçam a partir do aspecto do protecionismo da segurança internacional.

Em terceiro lugar, como demonstrado em rodadas anteriores de combate, a mais notável em abril de 2016, apenas a Rússia respondeu a novas hostilidades de forma rápida e eficaz. Isso também é evidente na realidade de que os únicos acordos de cessar-fogo alcançados no conflito Nagorno-Karabakh foram intermediados com o envolvimento russo.

Reunião de mediação do então Presidente russo, Dmitri Medvedev, com o Presidente armênio Serzh Sargsyan e o Presidente azerbaijano Ilham Aliyev, em 2008

Para o restabelecimento das amenidades, a Federação Russa não só demostra suas habilidades diplomáticas, como também seu poder bélico, caso essa necessidade se apresente. Entre 17 e 21 de julho (2020), época de novos conflitos armênio-azeris, o Ministério da Defesa russo lançou, de forma repentina, exercícios militares, quando foram mobilizados cerca de 150 mil militares, 414 aeronaves e mais de 100 navios de guerra (divididos entre o Mar Negro e o Mar Cáspio), que participaram de um evento operacional para avaliar a capacidade dos centros de comando militar na garantia da segurança do sudoeste do país, o qual foi também uma preparação para o “Cáucaso-2020”, uma série de exercícios bélicos realizados em 25 de setembro (2020), com as tropas da China, Irã, Paquistão e Mianmar, juntamente com as ex-repúblicas soviéticas Armênia, Azerbaijão e Bielorrússia.

Com o agravamento dos conflitos na região caucasiana, a Rússia será essencial para qualquer eventual resolução negociada para Nagorno-Karabakh, sendo, provavelmente, o único ator regional capaz de impor um cessar-fogo e ajudar a garantir um durável acordo de paz.

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Nota:

* O Grupo de Minsk foi criado em 1992 pela Conferência sobre a Segurança e a Cooperação na Europa (CSCE), agora Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), para encorajar a negociação entre o Azerbaijão e a Armênia no sentido de resolverem pacificamente o conflito de Nagorno-Karabakh.

** Yerevan é a capital da Armênia, significando aqui o Estado armênio.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Artilharia azeri em ataque a posições armênias” (Fonte):

https://southfront.org/wp-content/uploads/2020/10/dfgdfgdfgdf.jpg

Imagem 2 Mapa da região do Cáucaso” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A1ucaso#/media/Ficheiro:Caucasus-political_pt.svg

Imagem 3 Artilharia armênia no conflito NagornoKarabakh” (Fonte):

https://southfront.org/wp-content/uploads/2020/10/0000464164-article2.jpg

Imagem 4 Reunião de mediação do então Presidente russo, Dmitri Medvedev, com o Presidente armênio Serzh Sargsyan e o Presidente azerbaijano Ilham Aliyev, em 2008” (Fonte):

https://i1.wp.com/www.defesa.tv.br/wp-content/uploads/2020/09/OAs8aiAdSOMRDGollWzNhrewB6ClKweB.jpeg?resize=768%2C474&ssl=1

About author

Mestrando no programa de Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais (PUC-SP) na linha de pesquisa em Cooperação Internacional. Especialista em Política e Relações Internacionais (FESPSP) e habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ). Cursou MBA em Economia de Empresas (FEA-USP) e graduou-se como Bacharel em Ciências Econômicas (CUFSA). Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC) atuou durante 7 anos como educador voluntário no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Como articulista no Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais (CEIRI) escreve sobre política e economia da Eurásia.
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