ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

O pragmatismo nórdico: um “modelo” a ser seguido?

NordicConforme apontam alguns especialistas, a crise que assombra a Europa e partes do globo parece não ter produzido grandes efeitos nocivos nas sociedades escandinavas, principalmente na Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia.

Recentemente, em uma série de matérias especiais apresentadas pela revista britânica “The Economist, o “modelo” nórdico é visto, se não como aquele que dever ser seguido, ao menos como um modelo a ser pensado, uma vez que tais países “não somente escaparam dos problemas econômicos que estão convulsionando o mundo Mediterrâneo, mas também escaparam dos males sociais que afligem a América [EUA]”*.

Mas o que poderia explicar o sucesso destes países, visto que se está enfrentando uma crise de proporções mundiais? De acordo com a revista, dois fatores explanam este êxito: primeiramente, os países nórdicos souberam solucionar suas respectivas crises da dívida pública ao longo dos anos da década de 90; ademais, possuem um eficaz histórico de reformas no setor público, demonstrando serem capazes de aumentar a eficácia e flexibilidade do Estado.

Durante meados da segunda metade do século XX, esses quatro países escandinavos (Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia) sofreram terríveis consequências políticas, econômicas e sociais, como resultado direto de suas crises bancárias, mas souberam retirar lições importantes destes momentos importunos. Após alguns anos de combate as suas crises, obtiveram sucesso na modernização de suas economias e dotaram sistemas políticos, outrora enrijecidos, com mecanismos mais maleáveis.

Para ilustrar, no final dos anos 80, a Noruega enfrentou uma duradoura crise financeira e imobiliária. Após modificações no sistema político os noruegueses foram capazes de buscar políticas econômicas e financeiras com transparência e equilíbrio para aplicá-las com legitimidade, conseguindo assim estabilizar o câmbio e a taxa de desemprego, além de incentivar a competitividade voltada à exportação.

Outro exemplo, a Dinamarca, que sofria com a alta da inflação e do desemprego, implementou uma série de programas de austeridade a partir de 1982, resultando na estabilidade da taxa de câmbio. Entretanto, a elevação da taxa de desemprego só foi solucionada após a flexibilização das políticas trabalhistas.

Finlândia e Suécia sofreram com a alta da taxa de juros, com crescimento da inflação e com a constante desvalorização de suas moedas, principalmente após o término da “União Soviética”, que fora grande parceiro econômico de ambos os países. A Suécia que era em 1970 o quarto país mais rico do mundo despencou para a décima quarta posição, vinte e três anos depois. Uma forte política orçamentária foi capaz de impulsionar a reversão da crise.

Como afirma o economista Klas Eklund, professor adjunto da “Universidade de Lund”, “O motivo [do sucesso], porém, não foi o aumento dos impostos, a generosidade de benefícios, ou quaisquer outras ações desse tipo que muitas pessoas podem associar a um ‘modelo nórdico’. Pelo contrário. A política econômica em todos os quatro países, porém em extensões diferentes, foi modernizada, não somente através de reformas do mercado”**.

Estas recentes crises, ainda frescas nas memórias de grande parte das populações nórdicas, colocaram em risco um dos mais “generosos” programas sociais, como consequência, “os formuladores de políticas responderam a estas experiências de quase morte, mudando seus hábitos”*, transformando suas visões sobre a política, reformando seus governos. “Ao descobrir que o antigo consenso oriundo da social-democracia já não estava funcionando, eles [os políticos] deixaram-no ir com muito pouco barulho e introduziram novas ideias em todo o espectro político”*.

Os países nórdicos foram capazes de incorporar em suas políticas três princípios norteadores: pragmatismo, transparência e inovação. São estes princípios que explicam a existência de um “modelocapaz de combinar políticas capitalistas, pautadas na existência de um forte mercado competitivo, com um Estado forte – “um meio termo entre o capitalismo e o socialismo”*.

Cerca de um terço dos trabalhadores são empregados no setor público, enquanto a média dos demais países corresponde a 15%, de acordo com a “Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico” (OCDE). Na Dinamarca e Noruega, empresas privadas são autorizadas a operar serviços públicos, como hospitais e creches, desde que funcionem corretamente o que exige constante fiscalização, seriedade no processo fiscalizador e, principalmente, uma cultura popular voltada a entender os benefício público das ações corretas, algo que reflete baixa taxa de corrupção no seio da sociedade, além de o permanente combate a este hábito.   

A Suécia detém um dos melhores sistemas de “voucher escolar”***, dando espaço e oportunidade para escolas particulares competirem com as públicas, uma vez que tais escolas particulares são pagas pelo governo. Os suecos defendem vigorosamente o mercado livre, não adotando intervenções financeiras em grande empresas (por exemplo, o governo sueco não recuperou financeiramente a Saad, empresa automotiva, e permitiu a compra da Volvo por investidores chineses). A Dinamarca possui um avançado sistema trabalhista, facilitando a vida de empregadores com a redução de taxas sobre a demissão de trabalhadores e, ao mesmo tempo, fornece suporte e treinamento aos desempregados.

Os países nórdicos, nesse sentido, apresentam os maiores índices de competitividade, incentivadas através de políticas governamentais, ressaltando–se que estes são apenas alguns exemplos das ações políticas que demonstram o espírito daquilo que muitos crêem ser um “modelo” adotado pelos escandinavos.

O pragmatismo que proporciona esta espécie de amálgama entre políticas de esquerda e de direita acredita na combinação de uma economia aberta juntamente com investimentos públicos em capital humano.

Embora seja difícil apontar um “modelo nórdico” – uma vez que estes quatro países apresentam políticas distintas em inúmeras esferas – os especialistas confluem para a avaliação de que “a principal lição a se aprender com os nórdicos não é ideológica, mas prática. O Estado não é popular porque é vasto, mas sim porque funciona”*. Não é um modelo perfeito, certamente, mas o pragmatismo presente está sempre buscando formas de reestruturação em prol da preservação dos direitos individuais, da liberdade e da consecução dos benefícios públicos.

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Fontes consultadas:

* Ver:

The Economist. Edição Impressa. Volume 406, número 8821. 2-8 de Fevereiro.

** Ver:

O modelo nórdico – os valores compartilhados por uma nova realidade. Global Utmaning, Swedish Institute, 2010.

*** Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/School_voucher

 

About author

Mestrando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (Usp); Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP). Colaborador do Núcleo de Análise da Conjuntura Internacional (NACI) e do Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura (Polithicult). Experiência profissional como consultor de negócios internacionais. Atua nas áreas de Política Internacional, Integração Europeia, Negócios Internacionais e Segurança Internacional. No CEIRI NEWSPAPER é o Coordenador do Grupo Europa.
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