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O recrutamento de menores por grupos ilegais na Colômbia

O Governo da Colômbia anunciou em 25 de setembro de 2020 que atendeu a mais de 6 mil menores de idade que foram recuperados depois de terem sido recrutados por grupos ilegais. Essa conquista não significa, entretanto, que a guerra contra tal prática de recrutamento esteja vencida.

Lina Arbeláez, Diretora da agência governamental Instituto Colombiano de Bienestar Familiar (ICBF), informou que o Programa “Desvinculados, do ICBF, atua no sentido de assegurar condições necessárias para evitar que os menores sejam cooptados novamente, realizando aplicação de psicoterapia para superação do trauma e buscando a reconstrução da rede familiar de apoio para que a criança ou adolescente tenha uma reintegração sustentável em um meio distinto ao da guerrilha.

Este trabalho do Instituto teve início em 1999, tendo atendido jovens das diversas regiões do país e egressos das FARC (mais de 50%); do Ejército de Liberación  Nacional (ELN); da Autodefensas Unidas de Colombia (AUC); do Ejército Popular de Liberación  (EPL) e de grupos criminosos, apelidados de bandas criminales ou BACRIM.

Uma semana antes do anúncio do ICBF, em 18 de setembro, o Senador Julián Gallo confirmou, perante um tribunal de paz, ter havido recrutamento e assédio sexual de menores pela guerrilha. Gallo, conhecido como Carlos Lozada, era comandante das Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC) e hoje integra o partido Fuerza Alternativa Revolucionaria del Común (FARC), fundado após a conversão da guerrilha em agremiação política, por meio de um acordo de paz assinado em 2016.

Segundo o Senador, jovens com idade mínima de 15 anos foram cooptados para a luta armada e, com o aumento da presença de membros do sexo feminino, ocorreram casos de assédio sexual. A declaração de Gallo deu-se na primeira audiência pública, de uma série iniciada há cerca de um mês, na qual os ex-guerrilheiros confessam os crimes para reduzir a pena.

Capa do manual do programa Desvinculados do ICBF

A ação do Governo colombiano, por meio do ICBF, e o isolamento social demandado pela pandemia não inibiram o aliciamento de menores pelos grupos. Segundo matéria do Estado de Minas, oportunidades foram criadas porque a falta de renda das famílias, causada pela pandemia, favorece o recrutamento, e o medo de retaliações inibe os pais de fazerem denúncias.

Nas zonas rurais, os grupos estão literalmente “batendo nas portas das casas” para cooptarem crianças que estão ociosas pela falta de equipamentos para acessarem aulas virtuais. Nas zonas urbanas, o alvo dos grupos são os bolsões de miséria. Os números apresentados pela matéria estimam um aumento de mais de 100% no recrutamento de janeiro a maio de 2020, em relação ao mesmo período de 2019.

Estima-se que o número de crianças-soldado na Colômbia seja de 18 mil indivíduos. A estimativa está contida em uma Dissertação de Mestrado de Patrícia Martuscelli, na qual a autora afirma que os grupos admitem a presença de menores nos seus quadros, a despeito de terem normas contrárias. Para a Doutora em Ciência Política, três variáveis explicam o fenômeno das crianças-soldado: fome, pobreza, falta de oportunidades e outros fatores sociais; alistamento voluntário como resultado de análise custo-benefício, por parte dos jovens; e a mesma análise por parte dos recrutadores.

Martuscelli levanta a questão de que é polêmico considerar-se o alistamento como voluntário, mas aponta a perspectiva de que “a criança deve ser considerada como um ator das Relações Internacionais, visto que essa impacta diretamente na política internacional”. E, sobretudo, ela afirma que esta informação precisa ser obrigatoriamente considerada pelos programas de governo que visam a desmobilização, o desarmamento e a reintegração destes jovens.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Criança soldado na Colômbia” (Fonte):

https://d2lo9qrcc42lm4.cloudfront.net/Images/News/_contentLarge/Child-soldier-in-Colombia-origin-unknown-but-used-extensively-on-reports-and-blogs.jpg?mtime=20170112124050

Imagem 2 Capa do manual do programa Desvinculados do ICBF” (Fonte):

About author

Mestre e especialista em relações internacionais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialista em Política e Estratégia pelo programa da ESG (UNEB, ADESG/BA), bacharel em Administração pela Universidade Católica do Salvador (UCSal). Consultor e palestrante de Comércio Exterior.
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