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O retorno da geopolítica: cenários sobre a ascensão chinesa

A política internacional está passando por uma conjuntura de intensas mudanças e instabilidade. Vários fatores contribuem para isto: 1) regimes democráticos vêm sofrendo críticas em diversos países ao redor do mundo; 2) as tecnologias, como a inteligência artificial e o big data ainda provocarão mudanças que não são completamente dimensionadas pelas sociedades; 3) desafios sistêmicos de médio e longo prazo, tal como o avanço do aquecimento global; 4) maior espaço para a atuação no Sistema internacional, destacando a proeminência da China e a crescente importância da Ásia enquanto polo de dinamismo econômico.

Os Estados Unidos ainda são a principal potência global. No entanto, um maior foco nas suas questões domésticas, aliado à ascensão de atores como a China estão contribuindo para este cenário dinâmico e aberto a mudanças. Especialistas apontam que o ordenamento internacional surgido no pós-Segunda Guerra Mundial, que teve os seus valores reforçados ao final da Guerra Fria, tem sofrido rupturas e novas ideias estão emergindo, vindas de centros de poder localizados em outros espaços, fora da visão de mundo estritamente Ocidental.

Mapa Físico da Ásia

Nesta conjuntura de múltiplas narrativas e diferentes atores buscando os seus interesses e vantagens estratégicas, a geopolítica ressurge com força. A geopolítica designa a análise da interação entre, por um lado, os ambientes geográficos e, por outro lado, os processos políticos. Portanto, a geopolítica consiste no uso de recursos ou elementos geográficos para atingir objetivos políticos. A geopolítica pode ainda constituir uma série de lentes de análise para verificar de que forma os fatores geográficos influenciam as ações políticas, assim como a concentração ou dispersão do poder. O desenvolvimento de tecnologias de ponta está historicamente ligado à disrupções geopolíticas. Portanto, a expansão da geopolítica permeia as relações, seja nas áreas política, ambiental, econômica e tecnológica.

Tradicionalmente, o campo das Relações Internacionais aponta três posturas possíveis no âmbito da política internacional: competir, cooperar ou entrar em conflito*. Tendo como foco as relações entre os Estados Unidos e a China e as dinâmicas de competição, cooperação e conflito no âmbito da tecnologia, observa-se que a resposta norte-americana à maior proeminência chinesa provocará diferentes mudanças para o ordenamento global. A Guerra Comercial e a crescente disputa pelo domínio e desenvolvimento das tecnologias que guiarão a expansão das cadeias globais de valor nas próximas décadas são os dois principais campos de disputa que aparecem de forma mais proeminente na mídia nacional e internacional.

No âmbito do domínio e desenvolvimento de tecnologia, existem três cenários possíveis acerca da ascensão chinesa: 1) competição, no qual as principais potências globais podem se desconectar, cada uma buscando formar a sua próprias redes e zonas de influência; 2) cooperação, neste ponto veríamos a concorrência, onde as diferentes capacidades dos Estados e de suas empresas definiriam o espaço ocupado por determinado ator no sistema internacional; 3) o cenário do conflito poderia envolver o aprofundamento de disputas como a guerra comercial, além do aprofundamento da diplomacia bilateral.

No cenário competitivo, desenvolvimentos como as tensões ligadas à expansão da empresa chinesa Huawei na área da telecomunicação 5G e os pedidos do governo Norte-americano pelo banimento desta empresa em diversos países sinaliza a possibilidade de uma desconexão. Ou seja, as cadeias de produção de bens tecnológicos poderiam se tornar mais nacionalizadas e/ou concentradas em aliados específicos. Outras evidências que apontam para esta possibilidade incluem a declaração do mandatário chinês Xi Jinping de que o país vai tentar depender menos das indústrias de tecnologia advindas dos Estados Unidos. Este seria um cenário com posturas de balanceamento e formação de alianças entre os grandes atores do sistema, porém onde ainda existam eficientes canais de diálogo para promover a cooperação em algumas áreas, mesmo que se mantenha certo grau de tensão.

Mandatários dos Estados Unidos e da República Popular da China, Donald Trump e Xi Jinping

No cenário cooperativo a concorrência, as diferentes capacidades e vantagens competitivas dos Estados e de suas principais empresas ditam o espaço ocupado por determinado ator nos diversos mercados e cenários regionais. Ou seja, este seria um cenário no qual a dispersão ou concentração de poder ocorreriam de forma organizada, possivelmente pautados pelo diálogo, pela diplomacia multilateral e pela ação de instituições como a ONU, o Banco Mundial, o Banco Asiático de Infraestrutura e Investimento, o G20, entre outras.

O cenário de conflito poderia envolver o aprofundamento de disputas como a guerra comercial e talvez mesmo as guerras por procuração (proxy), onde dois ou mais agentes realizam a difusão de suas tensões, terceirizando determinado conflito para outros territórios, não diretamente envolvidos na disputa original. Além disto, um cenário com posturas mais conflitivas produziria o aprofundamento da crise da diplomacia e das instituições multilaterais, a exacerbação do uso político de narrativas nacionalistas e/ou extremistas e a preferência pela condução de diplomacia pelas vias bilaterais.

Fluxo Líquido de Investimento Estrangeiro Direto por país (1985-2018)

É provável que a ascensão chinesa produza uma combinação de diferentes respostas por parte dos atores tradicionais do Sistema internacional. Além das possibilidades apontadas nos cenários traçados, é importante relembrar que, por vezes, ocorrem os cisnes negros**, como costuma se denominar em análises de risco. Por fim, até 2040 a Ásia deverá representar mais de 50% do PIB mundial e 40% do consumo, ressaltando a tendência de mudança do eixo econômico global rumo às regiões fora do Ocidente.

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Notas:

* Na análise do construtivismo wendtiano, denominam-se estas atitudes sob três perspectivas: 1) Lockeano (competir),2) Hobbesiano (conflito), 3) Rousseauniano (cooperar). A perspectiva acerca dos outros atores alteraria, portanto, as ações dos Estados no Sistema Internacional. Um exemplo claro, diz respeito à diferente maneira com a qual os Estados Unidos lidam com o poderio nuclear do Reino Unidos e da Coreia do Norte. Apesar do arsenal nuclear do Reino Unido ser muito mais numeroso, este ator não é visto como uma ameaça, ao contrário da Coreia do Norte.

** Denomina-se de cisne negro, os fatos que possuem uma possibilidade muito reduzida de ocorrer e grande impacto. Ou seja, são fatos muito difíceis de serem previstos e que quando ocorrem têm efeitos devastadores para os agentes envolvidos na matriz analítica.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Bandeira e mapa da China sobrepostos sobre o mapa mundi” (Fonte): https://pixabay.com/pt/china-mapa-china-mapa-%C3%A1sia-pa%C3%ADs-2965333/

Imagem 2 Mapa Físico da Ásia” (Fonte): https://mapswire.com/asia/physical-maps/

Imagem 3 Mandatários dos Estados Unidos e da República Popular da China, Donald Trump e Xi Jinping” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:President_Trump_at_the_G20_(48162296741).jpg

Imagem 4 Fluxo Líquido de Investimento Estrangeiro Direto por país (19852018)” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Foreign_Direct_Investment_by_Country.png

About author

Mestrando em Estudos Contemporâneos da China pela Renmin University of China (RUC) e pesquisador afiliado pela Silk Road School. Mestre em Relações Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Possui especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Agente consular junto ao Consulado Honorário da França em Porto Alegre, atuando paralelamente no escritório RGF Propriedade Intelectual, no período de 2013-2016.
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