AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

O retorno de Hugo Chávez

Hugo ChávezNa segunda-feira, dia 18 de fevereiro, o presidente reeleito da Venezuela, Hugo Chávez, retornou ao país, após mais de dois meses (71 dias) de afastamento, tendo permanecido no hospital Cimeq, em Havana, para realizar a quarta cirurgia contra o câncer, onde ficou em tratamento até o presente.

Chávez chegou de surpresa a Caracas. No entanto, já na madrugada do dia 18 sua chegada foi recebida com entusiasmo pela população venezuelana, que soltou fogos de artifício com os anúncios que eram feitos pelas redes de TV e com manifestantes se reunindo em várias praças da cidade para comemorar. As declarações foram das mais variadas formas demonstrando o fascínio que o mandatário exerce sobre parte expressiva do povo venezuelano. A situação de euforia levou os seguranças do hospital militar para o qual Chávez se deslocou a pedir para as pessoas que se amontoaram que não perturbassem os demais pacientes [1].

O consultor jurídico, Arnilú Serrano, declarou: “Chegou o filho amado, o filho mimado da Venezuela. Esse grande homem que deu sua vida para o povo e hoje faz as pessoas encherem as ruas de alegria, de grande emoção, porque nosso presidente está em nosso país[1].

Outra cidadã venezuelana, Marta Lucia Yépez, moradora da comunidade “Brisas del Llano” e apoiadora da política chavista afirmou: “Não tenho vergonha de dizer que chorei de alegria. Ele não podia nos deixar sozinhos, ainda que a revolução não tenha parado. Ele sempre esteve no comando, mesmo doente e, através dos ministros, deu instruções que depois recebemos na comunidade, para poder continuar trabalhando pela revolução. Isso não se detém e agora que ele está aqui não para mesmo, continuamos em revolução[2]. O pedreiro Wilmer Ramones disse: “Ele acabou com o show que a oposição tinha montado para nos desanimar com falsas notícias. Seu retorno nos enche de força. Todos somos Chávez[2].

Manifestações de mesmo teor foram feitas por outros cidadãos demonstrando a emoção que flui da relação entre o mandatário e o segmento da população que recebeu benefícios diretos com suas políticas assistencialistas. 

Osveida Bermúdez manifestou sua emoção afirmando: “Soube às sete da manhã. Minha irmã me ligou de Ciudad Bolívar, que fica a 10 horas de Barinas. Disse-me muito emocionada: ‘Como vocês, que estão na terra de Chávez, não sabem que o presidente chegou?’ Quase tenho um infarto de tanta emoção. Nosso presidente, a quem devemos esta casa, tinha voltado. Chávez é como nosso pai, irmão, mais um membro da família e já estávamos com muitas saudades dele[2].

Iván Humberto García Yanes, declarou também: “Chegou o castigo para os que tentam acabar com nossa revolução. Havia muita dúvida e manipulação dos meios e da oposição com relação à doença do presidente. Bom, está aqui, agora vamos ver o que eles têm a dizer[2] e Rafael Vargas, da comunidade “Corazón de Jesús”, içou a bandeira do país quando soube do retorno do Presidente afirmando que, “Além de ser um irmão e um amigo, Chávez é um sentimento nacional e qual é a melhor maneira de honrá-lo? (…). Todos somos Chávez e temos que demonstrá-lo com ações[2].

Em frente ao portão do hospital cartazes diziam: “eu sou Chávez[2], “Chávez descanse que o povo te respalda[2], “Pensaram que não voltaria, mas na madrugada chegou Hugo Chávez Frias[2], “Voltou, voltou!” [2] e havia gritos e declarações dadas à imprensa, como “Amo o presidente com toda a minha alma. Graças ao Deus todo poderoso por tê-lo trazido de volta para mim[2], feita por uma jovem senhora de 43 anos, Alexandra Viloria, ou “Hoje a Venezuela amanheceu com mais amor e alegria do que nunca, com a notícia de que nosso presidente voltou![2], por Franchesco Gull,  ou ainda, “Esta foi a maior bênção de nosso Senhor Jesus Cristo, trazê-lo de volta para a Venezuela, porque presidente como Hugo Chávez não teremos nunca mais[2], dita por uma senhora de 63 anos chamada Herminia Martinez, mostrando todas estas manifestações que a propaganda maciça do governo identificando o presidente com o povo, construindo sua imagem de salvador, associadas as políticas assistencialistas produziu efeitos ao longo desses 14 anos em que está governando, ao ponto de santificá-lo e tornar quaisquer posicionamentos de oposição como reivindicações contra o povo e o cidadão venezuelano, logo, contra o país.

Analistas apontam que a resposta popular era esperada, uma vez que Chávez é uma personagem amada pela camada mais pobre do povo e realmente adotou muitas políticas de inclusão social que produziram efeitos no início de seus 14 anos de governo, mas o silêncio sobre a real situação do Presidente foi usado pelas autoridades governantes como forma de acender as paixões e criar um ambiente inadequado a qualquer manifestação contrária vinda da oposição, além de conseguir trazer um sentimento popular de apoio aos atos que contrariam a Constituição, como o adiamento da posse de Hugo Chávez que será feito o mais breve possível [3], segundo anunciado, talvez no próprio hospital, de onde o Presidente despachará com o Vice-Presidente Nicolas Maduro, que terá a função de administrar o país, enquanto ele se recupera [3].

De acordo com especialistas, a autorização foi dada pela “Assembleia Nacional” para que permanecesse o tempo  necessário em Cuba, sendo respaldada pelo “Tribunal Superior de Justiça” (TSJ), mas os dois posicionamentos adotados por estas instituições, que são plenamente dominadas pelo partido de Hugo Chávez, o “Partido Socialista Unido de Venezuela” (PSUV), criou uma brecha constitucional, uma vez que desrespeitou a Constituição ou fez um remendo inadequado.

Não se sabe ainda se o mandatário optará por prosseguir na Presidência, ou se renunciará para continuar o tratamento agora em solo venezuelano. Acreditam os observadores que a primeira hipótese é a mais certa, pois, assim, ele impedirá riscos de cisão interna no grupo bolivariano, principalmente com o cenário de serem necessárias novas eleições, caso renuncie.

A situação de fragmentação é possível, uma vez que também entre os membros do Governo havia desencontro de informações e até mesmo pessimismo com relação a possibilidade de retorno de Chávez, tanto que o anúncio de que estava de volta ocorreu no dia seguinte às declarações do atual ministro das Relações Exteriores, Elias Jaua, o qual  afirmou que a situação de Chávez era crítica, em suas palavras, “complexa e difícil[4]. Declarou: “Não podemos negar, como disse o vice-presidente, Nicolás Maduro, que estamos perante uma doença complexa, cujo tratamento é duro. (…). Queremos o bem para o nosso presidente. A maioria da população venezuelana quer isso, mas não podemos deixar de lado que estamos enfrentando uma situação complexa e difícil. Chávez está batalhando[4].

Ademais, ressaltam os observadores que, apesar de ter produzido resultados estratégicos desejados, a situação política está frágil, pois vários setores, além da Oposição, sabem que o país caminha numa condição nebulosa, em que o Governo funciona sem ter condução clara e concreta, mas apenas devido à solidariedade mecânica (aquela identificada pelo sociólogo Emile Durkheim como resultante da convergência de valores e sentimentos) que une a parte da população beneficiada pelas políticas adotadas pelo Presidente, numa situação claramente resultante da modelo de dominação carismática desenvolvido por Hugo Chávez para controlar o povo venezuelano em vista de impor seu projeto político e ideológico.

O principal líder opositor, Henrique Capriles, deu boas vindas ao Presidente, mas foi rígido nas suas considerações sobre esta situação em que o país vive. Declarou no seu Twiter (@hcapriles): “Bom dia, lendo a notícia de que o presidente retornou, seja bem-vindo à Venezuela, tomara que seu retorno gere sensatez em seu governo” (…). “Que o retorno do presidente signifique que o Sr. Maduro e os ministros se coloquem a trabalhar, há milhares de problemas a resolver”. (…). “tomara que o retorno do presidente seja definitivo e signifique a paralisação imediata do #PaquetazoROJO (pacotão vermelho)[5], em referência a desvalorização de 32% do Bolívar venezuelano em relação ao dólar norte-americano.

Conforme vem sendo anunciado, a recepção do povo foi excelente para a estratégia dos chavistas, mas não se tem informações sobre as reais condições de Hugo Chávez [6], nem há possibilidade de se construir um cenário estável para o país, podendo ser o seu retorno, em condições ainda incógnitas, mais um lance do jogo de xadrez entre o Governo e a crescente oposição para garantir apoio popular em vista da aceleração do processo de estatização no país, denominado por Chávez como aceleração da Revolução bolivariana para a implantação do que chama de “Socialismo do Século XXI”. 

————————–

Imagem:

* Hugo Chávez (Fonte – Wikipédia):

http://pt.wikipedia.org/wiki/Hugo_Chávez

————————–

Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bemparana.com.br/noticia/247324/povo-venezuelano-festeja-volta-de-hugo-chavez

[2] Ver:

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/02/venezuela-celebra-retorno-de-hugo-chavez.html

[3] Ver:

http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2013/02/justica-venezuelana-deve-empossar-chavez-com-retorno-ao-pais.html

[4] Ver:

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/pelo-twitter-hugo-chavez-anuncia-retorno-a-venezuela?utm_source=redesabril_veja&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabril_veja&utm_content=feed&

[5] Ver:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/02/capriles-da-boas-vindas-chavez-e-diz-esperar-sensatez-do-governo.html

[6] Ver:

http://www.publico.pt/mundo/noticia/regresso-de-hugo-chavez-nao-afasta-cenario-de-eleicoes-na-venezuela-1585073

—————————-

Ver também:

Anúncio da volta de Chávez (Telesur)

http://expresso.sapo.pt/hugo-chavez-regressou-a-venezuela-telesur=f787866

Ver também:

Anúncio da volta de Chávez

http://www.dw.de/hugo-chávez-retorna-de-surpresa-à-venezuela/a-16606940

Ver também:

Anúncio da volta de Chávez (VIDEO)

http://sicnoticias.sapo.pt/mundo/2013/02/18/hugo-chavez-volta-a-venezuela-para-continuar-tratamentos-em-hospital-de-caracas

Ver também:

Anúncio da volta de Chávez

http://jornaldeangola.sapo.ao/13/0/hugo_chavez_regressa_ao_pais

Ver também:

Anúncio da volta de Chávez

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/02/chavez-anuncia-no-twiter-que-esta-na-venezuela.html

Ver também:

Anúncio da volta de Chávez

http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/02/18/hugo-chavez-retorna-a-venezuela-depois-de-mais-de-dois-meses-em-tratamento-em-cuba.htm

Ver também:

Anúncio da volta de Chávez

http://www.redebrasilatual.com.br/temas/internacional/2013/02/hugo-chavez-anuncia-volta-a-venezuela

Ver também:

Visita de Evo Morales a Hugo Chávez em Caracas

http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2013/02/19/evo-morales-visita-hugo-chavez-na-venezuela/

Ver também:

Visita de Evo Morales a Hugo Chávez em Caracas

http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/?Noticia=489423  

Ver também:

Cumprimento de Fidel Castro a Hugo Chávez pelo retorno à Venezuela

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/02/fidel-castro-comemora-volta-de-hugo-chavez-venezuela.html

About author

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.
Related posts
AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

O Chile e a polêmica sobre saques em fundos de pensão

ANÁLISES DE CONJUNTURANOTAS ANALÍTICAS

COMUNICADO CEIRI NEWS DE 12 DE OUTUBRO

ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O papel geopolítico russo no conflito entre Armênia e Azerbaijão

ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Representatividade africana no Conselho de Segurança

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!