ANÁLISES DE CONJUNTURAEURÁSIA

O silêncio dos monumentos tombados na Rússia

A morte de George Floyd enquanto em custódia de um oficial de polícia nos Estados Unidos incendiou o palco internacional com protestos contra o racismo e a brutalidade policial. Em várias nações democráticas ocidentais, ativistas solidários ao movimento “Vidas Negras Importam” (#BlackLivesMatter) vandalizaram e levaram ao chão estátuas que remetiam a um passado colonial e escravagista, como monumentos dedicados a Cristóvão Colombo e ao Presidente americano confederado, Jefferson Davis. A história da Rússia, contudo, mostra-se imune ao derrubamento de monumentos simbólicos.

Em artigo para o The New York Times, o jornalista Andrew Higgins expõe os perigos de vilipendiar monumentos em sociedades que divergem quanto à visão de seus heróis e vilões. Higgins relembra um episódio em agosto de 1991, na cidade de Lubyanka, quando jovens moscovitas, eufóricos pelo fim do comunismo, celebraram sua vitória derrubando a estátua do fundador do Serviço Secreto Russo (antiga KGB, atual FSB), Felix Dzerzhinsky, enquanto entoavam “Abaixo a KGB”, como forma de transmitir a mensagem de que os tempos estavam mudando. Cerca de 30 anos depois do ato, Vladimir Putin, ex-agente da KGB, governa a Rússia e um busto de Dzerzhinsky está erigido na parte externa do quartel-general da polícia de Moscou.   

A eficácia de vandalizar ou derrubar estátuas é contestada por intelectuais e liberais russos. Nina Khrushcheva, especialista em Rússia na Nova Escola de Nova Iorque e neta de um líder soviético, acredita que: “Apagar não funciona (…). Uma vez que você destrói o herói de alguém, apenas incita ódio e força sentimentos ao subsolo”. Manifestantes da investida de 1991 contra a estátua de Dzerzhinsky admitem que a atitude, embora cheia de significado e altivez, não provocou o efeito esperado. Maria Lipman, jornalista na época da queda do comunismo na Rússia, diz que “Declarar guerra contra homens de bronze não torna sua vida mais moral ou justa. Não faz nada, na verdade”. Corroborando essa opinião, Mikhail Y. Schneider, ativista pró-democracia e líder dos manifestantes na investida contra a KGB em 1991, justifica que derrubar a estátua apelou para o lado emocional e fez as pessoas acreditarem que estavam vivendo em um país diferente, mas “não mudou nada” de fato.

Águia de duas cabeças no Kremlin

Salienta-se que muitos símbolos foram abatidos no passado em nome de uma nova ordem mais civilizada e progressista, como, por exemplo, um monumento dedicado ao czar Alexander III (pai de Nicolau II), que teve a cabeça decepada pelos bolcheviques em 1917.  Ou então a águia de duas cabeças, que foi removida do Kremlin na mesma época e deu lugar às estrelas vermelhas atuais.

Na Federação Russa contemporânea, estátuas de simbolismo controverso não são destruídas e sim realocadas a sítios de valor histórico, cujo mecenas principal é o próprio governo. O Parque de Artes Muzeon é um museu ao ar livre, administrado pelo Estado Russo, que exibe figuras de heróis caídos da nação, tal como estátuas de Stalin, do líder bolchevique Yakov Sverdlov, e do próprio fundador da KGB, bem como homenageia suas vítimas. A descrição oficial do website chama o museu de “lugar para salvaguardar artefatos históricos”.

Parque de Artes Muzeon – I, Sailko / CC BY-AS

Aparentemente inafetada pela tendência ocidental, e com experiências falhas no tombamento de monumentos, a Rússia concentra-se em levantar novos tributos ao invés de lutar contra antigos ou tentar restaurá-los. Em 2017, uma estátua do Tenente Coronel Mikhail T. Kalashnikov, designer do rifle AK-47, foi erguida numa das vias mais movimentadas de Moscou; mosaicos da nova catedral das Forças Armadas mostram a figura de Joseph Stalin entre santos e heróis de guerra russos. Além disso, a tumba de Lênin e monumentos afins ainda possuem lugar de destaque por várias cidades da Rússia, enquanto gestos simbólicos enaltecendo a oposição do governo atual (como colocar flores no local do assassinato de Boris Nemtsov) são repreendidos.

Na opinião da pesquisadora do Centro de Direitos Humanos Memorial, Alexandra Polivanova, os eventos de 1991 foram incompletos. Polivanova e Higgins concordam que a Rússia nunca engajou num diálogo ativo sobre os crimes cometidos em seu passado e faltou denúncia a nível governamental e social, de maneira que a “descomunização nunca aconteceu”.

A russialização iniciada no pós-guerra parece ainda estar presente nas práticas do Kremlin, e embora agosto de 1991 tenha sido um marco na queda formal da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o fato de existirem bilionários russos dispostos a comprar estátuas que ferem sensibilidades de determinados povos é apenas mais uma prova de que derrubar monumentos não é uma vocalização eficaz das demandas (dentro ou fora da Rússia). A integridade histórica acaba por permanecer e nada garante que, dentro de alguns anos, o eco das vozes que hoje clamam pela remoção de estátuas apologéticas não será o silêncio.     

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Cabeça de Alexandre III” (Fonte):

https://www.rferl.org/a/toppled-and-destroyed-statues-and-monuments-from-history/30667614.html

Imagem 2Águia de duas cabeças no Kremlin” (Fonte):

https://www.rferl.org/a/toppled-and-destroyed-statues-and-monuments-from-history/30667614.html

Imagem 3Parque de Artes MuzeonI, Sailko / CC BY-AS” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Muzeon_Park_02.JPG

About author

Mestranda em Estudos Internacionais no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo. Foi delegada brasileira da Juventude na 16ª Cúpula de Prêmios Nobel da Paz. Morou na Irlanda, certificou-se professora de inglês, e mudou-se para Lisboa, onde estagiou para o Instituto para Promoção da América Latina e Caribe e trabalhou para a Wall Street English. Áreas de interesse são sustentabilidade, policy-making, peacekeeping, intel e pesquisa.
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