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NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Obstáculos ao fim da Guerra Civil na Síria

Até recentemente, ao chegar ao “Aeroporto Internacional de Damasco”, era possível observar uma placa com os dizeres “Bem-Vindo à Síria de Assad[1]. Esse fato é reflexo da particularidade do processo de construção do Estado sírio, cuja essência é associada ao grupo alawita, mais especificamente a tribo Matawira[2], de onde vem a família Assad, e, mais importante ainda, à figura do líder.

O culto a Assad emergiu em uma clara tentativa do Estado de se distanciar do povo, distinguindo umaelite sagrada” (alawita) doprofano restante da população[3]. De fato, numa percepção compartilhada por amplo número de analistas e observadores, o Estado sírio não serve aos interesses de seus cidadãos, mas aos de uma pequena minoria alawita.

Essa íntima associação entre o Estado e esse grupo religioso coopta todos os alawitas, independente de desejo individual. Tal situação apresenta um problema extremamente relevante ao presente cenário de conflito: mesmo aqueles que não apoiam Assad serão massacrados se ele for deposto.

Essa é uma das dificuldades das negociações de paz: entregar o poder aos rebeldes pode equivaler ao massacre vingativo de alawitas e outras minorias. Ao mesmo tempo, a manutenção do regime representaria a perpetuação de um governo baseado em minoriascom tremendo potencial para contínuo terrorismo[4].

Além disso, considerando-se a multiplicidade de atores que compõem uma oposição ao regime que está longe de ser unificada, um simples apoio aos rebeldes é complicado pelo envolvimento do grupo jihadista “Estado Islâmico do Iraque e da Síria” (ISIS, na sigla em inglês), filiado à al-Qaeda[5].

Aqui, novamente o terrorismo aparece como um fator que, não apenas os “Estados Unidos”, mas a comunidade internacional como um todo, levm cuidadosamente em conta na equação de poderes por trás do conflito sírio. Exemplo dessa preocupação foi a recente suspensão de ajuda não-letal americana aos rebeldes no Norte da Síria, “depois de rebeldes islamistas terem assumido o controle de bases pertencentes ao Exército Livre da Síria [Free Syrian Army – FSA] apoiado pelo ocidente[6].

Nesse cenário, a maioria das propostas internacionais de resolução para a guerra civil síria se apoiam na ideia de um compartilhamento de poder entre as partes em conflito atribuindo-lhes alto postos de direção, ao menos até que eleições possam ocorrer[4].

No entanto, essa solução, por um lado, enfrenta dois grandes obstáculos a sua implementação: (1) elaborar um acordo cujos termos sejam satisfatórios para todos os envolvidos, e (2) conferir a todas as partes a segurança de que tais termos seriam cumpridos[4].

Por outro lado, tal solução de compartilhamento de poder, mesmo se bem sucedida, não é garantia do fim das tensões entre os grupos agora envolvidos na “Guerra Civil”. É bem verdade que tal medida deslocaria a luta política de uma arena de guerra para uma diplomática, ou seja, iria da violência para o diálogo. No entanto, o tênue equilíbrio entre os grupos interessados poderia ser facilmente rompido.

O Líbano, país vizinho à Síria, em que impera um sistema confessional que balanceia o poder dos três maiores grupos sectários do país (católicos maronitas, sunitas e xiitas), é exemplo da fragilidade desse equilíbrio[7]. Em 1975 o grupo sucumbiu à “Guerra Civil” a partir da assimilação de tensões externas – a saber, o conflito árabe-Israelense. No atual cenário, a sociedade libanesa se polariza entre aqueles que apoiam e opõem o Regime de Assad, assim como ao fluxo de refugiados sírios para o país[8].

Em um “Oriente Médio” no qual a tensões evidenciadas pela “Primavera Árabe” parecem estar ainda em movimento, como notadamente vem sendo demonstrado pelos recentes acontecimentos no Egito desde junho desse ano (2013), uma Síria dividida entre os muitos grupos sectários que a compõem poderia se tornar uma arena em menor escala das tensões regionais, complicando qualquer plano internacional de solução para o conflito.

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Imagem (Fonte):

http://mideastafrica.foreignpolicy.com/posts/2013/12/10/obstacles_to_ending_syrias_civil_war#sthash.j6eq9h27.dpbs

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.spiegel.de/international/world/analysis-of-syrian-uprising-and-business-interests-of-assad-clan-a-822189.html

[2] Tibi, Bassam (1990). “The Simultaneity of the Unsimultaneous: Old Tribes and Imposed Nation-States in the Modern Middle East”. In: Khoury, Philip S.; Kostiner, Joseph (eds.). Tribes and State Formation in the Middle East. Berkeley: University of California Press, pp. 127-52, p. 138.

[3] Wedeen, Lisa (1999). Ambiguities of domination: politics, rhetoric, and symbols in contemporary Syria. Chicago: The University of Chicago Press.

[4] Ver:

http://mideastafrica.foreignpolicy.com/posts/2013/12/10/obstacles_to_ending_syrias_civil_war#sthash.j6eq9h27.dpbs

[5] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/siria-fragmentos-da-oposicao/

[6] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-25331241?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMorning%20Brief&utm_campaign=MB%2012.11.13

[7] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/os-desafios-do-novo-primeiro-ministro-libanes/

[8] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/refugiados-sirios-no-libano-pais-dos-cedros/

About author

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.
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