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ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Oliveiras Israelenses e Palestinas: Tradição, Apuro e Resistência

A origem das oliveiras remonta a tempos imemoriais. Há contradição quanto ao local onde surgiram, acreditando os pesquisadores que elas apareceram entre os povos do Mediterrâneo. A sua fase mais primitiva data do período Terciário, anterior ao surgimento do homem, na Ásia Menor, o que leva os estudiosos a acreditarem que esta árvore é originária da Síria ou da Palestina, pois foi nestes territórios que se encontraram vestígios de produção de azeite e de fragmentos de vasos datados da Era do Bronze. Porém, independentemente das dúvidas acerca do local de origem das oliveiras, o fato é que esta árvore faz parte da tradição cultural de Israel e da Palestina, simbolizando a paz, a sabedoria e a Eternidade. Tais significados são, contudo, mais fortes do que os benefícios econômicos que ela pode oferecer aos dois povos.

Numa região repleta de significações diversificadas, a oliveira é, para Israel e a Palestina, a detentora de entendimentos mitológicos e bíblicos que acompanham a sua História. O enraizamento de israelenses e palestinos às suas culturas dá-se através de elementos singelos, mas fantásticos. Estamos ante símbolos que têm atravessado gerações sem perder o sentido de enraizamento entre o passado remoto e o presente, com projeção para o futuro, definindo, desse modo, a identidade de cada um destes povos. Assim, é a oliveira para os judeus e para os palestinos.

A oliveira, devendo ser considerada como um elemento cultural simples das tradições culturais judaica e palestina, une os dois povos desde a sua origem e cria o sentido de pertença a partir dos tempos imemoriais. Mais do que uma questão alimentar e econômica, as oliveiras são, para, para judeus e palestinos, parte da sua História. Na tradição cultural judaica, segundo os relatos da Torá, o fim do Dilúvio foi anunciado a Noé por através de um ramo de oliveira que uma pomba levou no bico[1]. Para o povo judeu, a oliveira é o símbolo da longevidade e da “continuidade do povo”. As cascas retorcidas dessa árvore representam a sabedoria acumulada através de séculos da história da Humanidade[2]. Na Antiguidade, o azeite extraído das oliveiras foi utilizado pelos judeus para cozinhar, fornecer luz, como moeda de troca, como medicamento, como artigo e presente religioso e serviu, também, para ungir reis e sacerdotes[3].

Para Israel, o ramo de oliveira é o símbolo de paz, constituindo uma tradição que tem sido mantida ao longo dos tempos. Porém, esse símbolo é, no presente, motivo de desentendimentos e de resistência entre os judeus e os palestinos, ocorrendo impactos por motivos diversos quanto à preservação de suas tradições culturais, algo que poderia ser trabalhado por ambos os povos. Mas, levando-se em consideração o que vem sendo divulgado, Israel tem destruído as plantações de oliveiras dos palestinos.

A oliveira liga o palestino à terra e está inserida na sua cultura, devendo sublinhar-se que o azeite é onipresente em suas mesas. Praticamente a metade do território palestino é ocupado pelo cultivo de oliveiras, que garantem o sustento de muitas famílias. Como a oliveira é uma árvore longeva, durando em média 400 anos[4], permite que, por várias gerações, determinada família possa garantir o sustento de seus membros, destacando-se que as oliveiras correspondem entre 15% e 19% da produção agrícola da Palestina[5].

Além disso, a relação entre o trabalho e o agricultor palestino acabou por criar, também, um vínculo “afetivo” entre o ser humano e a sua plantação que, geralmente, não é iniciada por ele, mas herdada de seus antepassados em comunhão com narrativas que se completam através de relatos e técnicas de manuseio da terra, de cultivos e de colheitas passadas de geração em geração. Há um aspecto da tradição tão forte quanto há entre os judeus em relação a sua cultura, mostrando similitudes dos dois povos em relação ao respeito que ambos tem por suas respectivas raízes. Porém, o apego à tradição e à cultura da qual a oliveira faz parte na vida do palestino tem sofrido fortes reveses nos últimos tempos. Afirma-se que isso ocorre devido aos confrontos com o Exército e, principalmente, com os colonos israelenses, que têm substituído os olivais palestinos, ato que já levou à condenação pela ONU[6].

De acordo com depoimentos de palestinos, o momento da colheita, hoje, deixou de ser um momento feliz para eles. Com os longos anos de conflito, a questão da segurança por parte de Israel culminou na construção do muro de contenção, o que tem contribuído para sacrificar os cuidados com as plantações das oliveiras por parte dos palestinos, pois necessitam de permissão israelense para entrarem nas suas terras e executarem as tarefas rurais, o que nem sempre é possível. Essas dificuldades também se refletem no comércio do azeite, devido ao fato de terem que superar os vários postos israelenses de controle para chegar à Cisjordânia, o que acarreta perdas econômicas significativas para a Palestina[7], sendo este um problema que poderia ser resolvido de forma conjunta, uma vez que envolve as necessidades de sobrevivência dos palestinos e as necessidades de segurança de Israel. 

Segundo o “Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários” (OCHA), os colonos israelenses já destruíram cerca de sete mil e quinhentas oliveiras e, no total, e Israel já arrancou um milhão e duzentas oliveiras palestinas desde 1967[8]. Tal situação é problemática, pois se dá no momento em que Israel tem plantado olivais no seu território e desenvolve um projeto para a produção de oliveiras no deserto sem a necessidade de irrigação, utilizando somente as águas pluviais.

Há, portanto, duas culturas, cujas raízes estão presentes no mesmo território e têm pontos comuns. No entanto, hoje, a coexistência pacífica torna-se difícil, o que se reflete no confronto físico e psicológico por razões de segurança, que acaba por afetar alguns dos elementos culturais do povo oponente. Isto reforça o embate entre os dois povos e coloca em risco a continuidade, para as futuras gerações, de culturas fundamentais, definidoras da identidade de cada um deles e, mais importante, dos elementos que os unem e podem levar à busca de um caminho para a paz.

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Imagem (Fonte):

http://claire-d-aude.over-blog.com/article-l-olivier-l-arbre-qui-traverse-les-temps-66828256.html

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.aabgu.org/specialty/olivetrees/israel-and-the-olive-tree.html

[2] Ver:

http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/Judaism/species.html

[3] Ver:

http://www.bibleplaces.com/olive-trees.htm

[4] Ver:

http://humanappeal.org.uk/appeal-detail.html?appealid=74

[5] Ver:

http://humanappeal.org.uk/appeal-detail.html?appealid=74

[6] Ver:

http://www.aljazeera.com/indepth/features/2012/10/2012102712652415500.html

[7] Ver:

http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/israel-transforma-colheita-da-azeitona-palestina-em-sofrimento

[8] Ver:

http://www.aljazeera.com/indepth/features/2012/10/2012102712652415500.html

About author

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).
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