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Onda de protestos no Iraque: causas e consequências

Uma série de protestos vêm ocorrendo no Iraque desde princípios do mês de outubro. Em manifestações marcadas por intensos confrontos com as forças de segurança iraquianas, a população tem exigido do governo o cumprimento de uma série de promessas de campanha.

O estopim para os atos ocorreu no dia primeiro de outubro, quando pessoas tomaram as ruas para exigir a renúncia do governo de Bagdá e do primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi. Ainda que algumas fontes tenham reportado que o episódio estaria ligado à demissão do general Abdul-Wahab al-Saadi, figura popular do combate ao terrorismo no país, uma série de pautas tem sido agregadas com o passar dos dias.

No poder desde 2018, a atual gestão do Parlamento havia prometido implementar medidas para diminuir o abismo entre pobres e ricos, bem como implementar uma série de medidas para combater a corrupção no país.

Rapidamente os protestos ganharam adesão por todo o país, sobretudo entre jovens. Em meio ao processo de recuperação dos impactos produzidos pelo combate com o Estado Islâmico (EI), o Iraque enfrenta uma série de novos desafios.

Após a invasão pela coalizão liderada pelos Estados Unidos em 2003 e a subsequente queda do regime do partido Ba’ath, então liderado por Saddam Hussein, o Iraque atravessou distintos modelos de governos. Com o passar dos anos, as alternativas democráticas apresentadas falharam em resolver problemas estruturais e melhorar as condições sociais no país.

A população vem sofrendo com uma recorrente crise econômica e, sobretudo a juventude do país, vem enfrentando uma série de mazelas relativas à falta de perspectiva e ao desemprego. Segundo o Banco Mundial, em 2018 o Iraque apresentava uma taxa geral de desemprego de 7,9%, esta taxa sobe para 16,6% entre jovens.

Campanha desenvolvida pelo Observatório Iraquiano de Direitos Humanos contra a violência policial, expondo o slogan Não Atire em Mim (#DontShootMe/#لاترميني) – Página do Observatório de Direitos Humanos do Iraque no Twitter

Aliada às dificuldades econômicas, a falta de perspectiva no país e a decepção com a classe política se converteram em combustível para a insatisfação popular. A reação das autoridades locais repercutiu no mundo. A organização NetBlocks, que monitora as liberdades da internet, registrou que o governo local realizou cortes rotineiros de internet por pelo menos 3 dias seguidos. A movimentação foi considerada uma possível manobra para evitar a articulação da população para os protestos.

As Forças Armadas do Iraque reconheceram o uso excessivo da força durante o decorrer dos distúrbios no país. Ao longo do mês de outubro, registrou-se a morte de 157 pessoas nos protestos, sendo 149 civis e 8 membros das forças de segurança. Mais de quatro mil pessoas resultaram feridas durante os eventos.

Apesar da violência, os protestos demoraram a arrefecer, era comum identificar as pessoas que dissessem que “não havia mais nada a perder”. A renúncia do governador de Bagdá, Falah al-Gazairy, também não desmotivou as mobilizações. As marcas da violência geraram reações de distintos grupos da oposição que acusam o governo de promover ataques à população e podem gerar feridas difíceis de sanar em um futuro próximo.

Um grupo de trabalho organizado pelo Primeiro-Ministro realizou um levantamento do impacto dos protestos e o papel das Forças Armadas. Se levado adiante, será o maior julgamento de militares e responsabilização do governo no país.

Estes protestos são representativos do caminho que trilha o Iraque em seu processo de reconstrução. Para além dos conflitos e ameaças de grupos infra-estatais, a reestruturação e o diálogo com a sociedade representam o real desafio a ser enfrentado pelo governo no país.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Multidão reunida durante os protestos em Bagdá” (Fonte: Twitter oficial da Anistia Internacional no Iraque@AmnestyIraq): https://twitter.com/AmnestyIraq/status/1182263022485753856

Imagem 2 Campanha desenvolvida pelo Observatório Iraquiano de Direitos Humanos contra a violência policial, expondo o slogan Não Atire em Mim (#DontShootMe/#لاترميني) – Página do Observatório de Direitos Humanos do Iraque no Twitter” (Fonte): https://twitter.com/IraqHumanRights/status/1186336075624652800

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
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