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Organizações sindicais reivindicam melhores salários na Etiópia

Uma das principais características da globalização é a gradativa mobilidade do capital internacional. Grandes corporações gozam de uma crescente facilidade em alocar investimentos em regiões que ofereçam algum tipo de vantagem comparativa. Estas vantagens são inúmeras e podem se resumir em abundância de recursos naturais, benefícios fiscais ou facilidades logísticas.

A Etiópia, por exemplo, constitui-se atualmente como importante polo de Investimento Estrangeiro Direto (IED) no continente africano, vindo majoritariamente da China. Segundo especialistas, o principal fator explicativo para o crescente volume de investimentos tem sido o baixo custo da mão de obra local, fato que tem impulsionado grandes corporações a transferirem parte do processo de produção para este país.

Mulheres representam cerca de 90% do total de funcionários empregados na indústria têxtil

O Governo etíope tem exercido papel crucial em estimular o IED, adotando uma postura claramente desenvolvimentista com a construção de grandes empreendimentos, tais como rodovias e usinas de energia elétrica. Neste sentido, a implementação de parques industriais por parte do Estado obedece à mesma lógica, buscando estimular a emergência do segundo setor em uma economia em que o setor primário ainda configura como a realidade da maioria dos etíopes.

Ao todo, cerca de 12 parques industriais estão previstos para serem construídos em todo o país, com maior concentração na capital Addis Abeba. Esta constitui-se atualmente como importante centro de produção têxtil, com fábricas de grandes redes globais de vestimenta, tais como a H&M, a Tommy Hilfiger e a Calvin Klein.

Entretanto, na semana passada, organizações sindicais questionaram os atuais níveis salarias na Etiópia. De acordo com os dados trazidos por estes grupos, trabalhadores da indústria têxtil local possuem um dos piores salários se comparados aos seus pares de outros países. Por exemplo: enquanto o salário médio nesta indústria é de 40 dólares mensais, o salário para a mesma ocupação em Bangladesh é de 68 dólares por mês; na China, o salário médio é de 500 dólares mensais.

Nós damos boas-vindas à política do Governo etíope de promover a industrialização, porém ela não deve ser às custas dos trabalhadores”, declarou Fabian Nkomo, secretário regional para a África Subsaariana da organização sindical IndustriALL. “A industrialização deveria trazer melhores salários para os trabalhadores e tirá-los da pobreza: isto não pode acontecer quando os salários são menores do que 40 dólares por mês”, complementou.

De acordo com analistas, a estratégia de impulsionar o segundo setor a partir da redução dos salários pode ser uma política com uma série de impactos negativos. Em primeiro lugar, reduz o poder de compra de trabalhadores e trabalhadoras, impondo iminentes desafios para a subsistência. Em segundo lugar, consolida uma economia essencialmente exportadora, com um mercado interno minguado pelos reduzidos salários e com pouca capacidade de investimento em empreendimentos exclusivamente nacionais. Por fim, acentua as desigualdades econômicas, o que pode causar conflitos sociais no médio e longo prazo.

Neste sentido, pode-se entender que a estratégia adotada pelo Estado etíope de atrair IED por meio de reduzidos salários constitui-se como escolha permeada de contradições. Muito provavelmente, deverá ser observado nos próximos anos uma crescente luta entre organizações sindicais e o Governo para a institucionalização de medidas que garantem os direitos trabalhistas, bem como um nível salarial capaz de garantir a subsistência mínima de trabalhadores e trabalhadoras.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Com salários reduzidos, organizações sindicais reivindicam melhores condições de trabalho” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Salt_workers_Dallol_Ethiopia.jpg

Imagem 2Mulheres representam cerca de 90% do total de funcionários empregados na indústria têxtil” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Women_Construction_Workers_-_Bahir_Dar_-_Ethiopia_(8677095347).jpg

About author

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique
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