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Os desafios da Nova Rota da Seda no Oriente Médio

O Oriente Médio tem localização estratégica para o projeto da Nova Rota da Seda*. A ligação entre a Ásia e a Europa passa necessariamente pela região, de modo que sua estabilidade é fundamental para o êxito da iniciativa chinesa. Ocorre que existem muitos conflitos internos em países árabes e disputas por áreas de influência entre Irã e Arábia Saudita. A China, portanto, busca atuar como promotora de maior equilíbrio regional, de modo que seu projeto de integração intercontinental não seja prejudicado.

A questão dos investimentos é, segundo analistas, uma das principais dificuldades enfrentadas pelos chineses. Isso ocorre porque muitos países receiam não conseguirem quitar as dívidas decorrentes dos empréstimos, o que os tornaria economicamente vulneráveis e dependentes do governo chinês. O periódico The Jordan Times publicou um texto que expôs o medo de que a Jordânia ficasse tão vulnerável quanto o Sri Lanka, que supostamente teria sido “forçado a entregar o controle majoritário de seu porto de Hambantota para a China após tornar-se incapaz de pagar seus empréstimos”.

Embaixada da Arábia Saudita em Teerã sob proteção policial

Em documento publicado pelo Center for Global Development, um think tank de Washington, concluiu-se que alguns países do Oriente Médio que não têm grau de investimento** estão com risco de insustentabilidade da dívida. São eles: Iraque, Jordânia e Líbano. O caso iraquiano é menos sério, já que, em 2010, a China perdoou 80% da dívida do país. A Síria e o Yemen não foram analisados, devido às guerras civis que vivem e à pouca probabilidade de serem inseridos no escopo da iniciativa no curto prazo.

Outro desafio da integração do Oriente Médio à Nova Rota da Seda consiste no alto nível de corrupção nos países da região. O presidente Xi Jinping realizou expurgos de políticos e funcionários corruptos no âmbito doméstico, de modo que a luta contra a corrupção é uma das marcas de seu governo. Para muitos especialistas, não seria interessante que o mandatário estivesse associado a países corruptos. Segundo dados de 2017 da Transparência Internacional***, quase todos os países da região têm nível de corrupção muito elevado. Isso gera suspeitas sobre se os recursos chineses realmente irão ser empregados em obras de infraestrutura ou se poderão ser indevidamente apropriados.

O maior desafio à Nova Rota da Seda no Oriente Médio, entretanto, não é econômico, mas político. A rivalidade regional entre Irã e Arábia Saudita divide os Estados médio-orientais e dificulta maior integração entre eles. Em 2016, a China estabeleceu parcerias estratégicas com ambos, prometendo elevar o comércio bilateral com o Irã para U$ 600 bilhões e assinando acordos de U$70 bilhões com a Arábia Saudita. Essa dupla aproximação, contudo, será cada vez mais difícil de se manter, dado que a iniciativa chinesa busca integrar países que estão na esfera de influência de uma potência ou de outra.

Segundo o especialista Ivan Lidarev, é possível que a China fique mais próxima do Irã, que tem mais a oferecer devido a sua localização estratégica e ao fornecimento privilegiado de hidrocarbonetos a companhias chinesas, no contexto das sanções econômicas aplicadas pelos EUA, que serão recolocadas em vigor devido à saída do Acordo Nuclear****. A maior aproximação poderia causar sérios atritos com a Arábia Saudita, dificultando a estabilização regional.

O Oriente Médio é fundamental para a Nova Rota da Seda, por ser uma área rica em hidrocarbonetos e uma passagem importante para a Europa. A China, contudo, enfrenta sérios desafios para colocar a região no âmbito da iniciativa. A capacidade de mediar o conflito entre sauditas e iranianos, bem como a busca de maior transparência na concessão de investimentos são importantes para garantir o êxito da integração médio-oriental ao principal projeto de Pequim.

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Notas:

* Projeto que busca integrar os mercados asiáticos e prover conexão física até a Europa. É, segundo analistas, a principal iniciativa da política externa do presidente Xi Jinping e expande a área de influência da China.

** Classificação das agências de risco que indica a segurança de investir em determinado país. Os Estados com classificação inferior necessitam aumentar os juros caso queiram ter certa atratividade.

*** Organização não governamental que busca o combate à corrupção e elabora relatórios sobre a percepção do problema ao redor do mundo, de forma a gerar conscientização e buscar mudanças.

**** Acordo assinado entre os 5 membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, a Alemanha e o Irã, para garantir o caráter pacífico do programa nuclear iraniano.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa do Oriente Médio” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Middle_East

Imagem 2 Embaixada da Arábia Saudita em Teerã sob proteção policial” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Iran–Saudi_Arabia_proxy_conflict

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Demais Fontes Consultadas

[1] Ver:

https://thediplomat.com/2018/07/chinas-bri-bet-in-the-middle-east/

[2] Ver:

https://www.cgdev.org/sites/default/files/examining-debt-implications-belt-and-road-initiative-policy-perspective.pdf

[3] Ver:

https://www.transparency.org/news/feature/corruption_perceptions_index_2017#regional

[4] Ver:

https://www.orfonline.org/expert-speak/china-and-saudi-iran-conflict/

About author

Especialista em Direito e Relações Internacionais pela Universidade de Fortaleza. Especialista em Desafios das relações internacionais, especialização oferecida pela Universidade de Leiden & pela Universidade de Genebra em parceria com o Coursera. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Ceará.
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