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Os ideais de Mandela ainda ecoam na África do Sul

Marcada pela acentuação da desigualdade econômica e social, a África do Sul se distancia gradativamente dos ideais de Nelson Mandela. Sua imagem foi lembrada nesta última semana, data que marca um ano de sua morte[1]. A recordação pode ser vista como uma renovação do espírito de busca pela igualdade em uma nação ainda marcada por profundas diferenças sociais. Se outrora as segregações raciais eram institucionalizadas, atualmente estas ainda se mantêm devido à distribuição desigual de oportunidades.

Não seria exagero afirmar que é a imagem de Nelson Mandela, juntamente com sua associação política ao Congresso Nacional Africano (CNA) no período em que foi Presidente, que servem como suporte para o atual partido governista. A popularidade deste Partido vem decrescendo nos últimos anos, principalmente após denúncias de corrupção de alguns de seus membros[2].

Se por um lado o legado de Mandela é marcado por um verdadeiro anseio moderno – igualdade, respeito e fraternidade –, a atual conjuntura sul-africana difere totalmente do projeto que ele traçou ao seu país. O CNA enfrenta enormes desafios para a manutenção de sua taxa de aprovação nos próximos anos, como a redução da expectativa de vida e a queda na taxa de crescimento econômico, juntamente com as altas taxas de desemprego[2]. Tais fatores criam anseios por mudança entre os cidadãos sul-africanos, principalmente entre os jovens e a elite. Em uma das províncias mais ricas, o Cabo Ocidental – onde a oposição comumente recebe mais votos que o CNA – a margem superior de votos da oposição cresceu de meros 7,4% para expressivos 34,3%, aos compararmos as eleições de 2004 com a de 2014.

Tendo estas dificuldades conjunturais em vista, a imagem de Mandela e o que ele representa(ou) para a África do Sul foi recordada na última sexta em uma série de celebrações e discursos na cidade de Pretória. Cada autoridade, à sua maneira, buscou retificar o compromisso com tais ideais e reiterar a sua importância para a construção de uma sociedade mais justa para os próximos anos. Ou seja, como um verdadeiro líder, Mandela ainda é um porto seguro à sociedade sul-africana. Como disse F. W. de Klerk, “embora Nelson Mandela não esteja presente fisicamente entre nós, seu legado mantêm-se como um guia para nós continuarmos nossa jornada rumo à terceira década de nossa sociedade[4].

Contudo, indaga-se até que ponto, caso a conjuntura econômica e social sul-africana não evolua, a imagem de Nelson Mandela será capaz de suportar o CNA no poder. Conforme afirmou George Bizos, advogado e amigo próximo do líder sul-africano, “se Mandela estivesse vivo, estaria decepcionado com algumas coisas que ocorrem na África do Sul[4]. Na verdade, o recente crescimento no número de votos da oposição e a emergência de partidos políticos extremistas apontam que talvez este suporte não resista por muito tempo.

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Imagem (FonteNY Daily News):

http://www.nydailynews.com/news/world/mandela-mourned-traditional-service-south-african-birthplace-article-1.1546621

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Fontes Consultadas:

[1] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2014/12/06/world/africa/south-africans-mark-first-anniversary-of-nelson-mandelas-death.html?ref=africa

[2] VerCEIRI Newspaper”:

https://ceiri.news/em-meio-protestos-contra-conjuntura-economica-e-politica-sul-africanos-vao-urnas/

[3] VerNews24”:

http://www.news24.com/Elections/Results#map=compare&election=national&year=2009

[4] VerThe Telegraph”:

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/nelson-mandela/11275548/Nelson-Mandela-widow-pays-moving-tribute-a-year-after-his-death-but-Jacob-Zuma-absent.html

About author

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique
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