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Os quatro motores da União Europeia

Atualmente, existe um consenso que estabelece a Alemanha como líder quase individual da União Europeia, embora a Presidência do Conselho Europeu seja rotativa e atualmente esteja ocupada pela Letônia[1]. O peso da maior economia do Bloco, e consequentemente da maior credora, acabou isolando a mesma na esfera das decisões e nem mesmo a França ou a Itália, conseguiram manter sua influência.

Poucos, contudo, se perguntam como realmente funciona a divisão de poder e o processo decisório dentro da União Europeia, generalizando e fazendo eco de expressões como PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), Países do Leste, países do mediterrâneo etc., gerando divisões ou grupos conceituais carregados de preconceitos e pessimismo, que muitas vezes proporcionam uma visão distorcida da realidade europeia ou até mesmo tergiversada. Exemplo disso é o fato de que, mesmo com a crise, a Espanha ter se mantido como uma das 5 maiores economias do Bloco formado por 28 países e ser claro que sua estrutura econômica difere muito da grega. Já alguns países da Europa do Leste, como a Polônia, mantiveram taxas expressivas de crescimento e estabilidade, superiores a outros membros mais antigos da União. Essa realidade levanta a questão de se saber quais são, dentro desse panorama heterogêneo, os principais motores da União Europeia.

Certo é que desde a criação do Bloco existe um forte movimento de padronização na Europa que com o tempo se transformou em seu Calcanhar de Aquiles. Estabelecer políticas comuns para países tão divergentes acabou debilitando a Europa em lugar de fortalecer a mesma, já que até mesmo dentro dos países da União existem fortes contrastes, e não se pode comparar a região metropolitana de Paris com a Bretanha por exemplo.

Por outro lado, a crescente padronização sempre teve como objetivo ir aos poucos diluindo a figura dos Estados e formando uma supranação, a qual funcionaria de forma harmonizada, apesar das diferenças internas.

Por esse motivo, desde 1998 existe um grupo denominado Four Motors For Europe[2], ou Quatro Motores para Europa, formado pelas regiões com alto potencial industrial e diversidade econômica, representando as maiores economias da União: BadenWuttemberg (Alemanha); Rhône Alps (França); Lombardia (Itália) e Catalunha (Espanha).

A grande diferença desse grupo é que o mesmo atua na área da Paradiplomacia e não na diplomacia centralizada de seus respectivos países, o que agiliza grande parte das negociações e aumenta a flexibilidade dos processos. Desse modo, quem quer que seja dos integrantes pode negociar com outras entidades regionais, como por exemplo, o Governo de Estado de São Paulo (Brasil), fomentando a internacionalização de empresas, transferência tecnológica, cooperação técnica e outros, sem passar pela morosidade e burocracia da diplomacia estatal, já que toda ela está fortemente atrelada às normativas da União Europeia, a outros interesses internacionais e dos demais integrantes do Bloco.

O grupo possui Presidência Rotativa e está formado pelos governos regionais de cada um dos participantes e todas as regiões possuem deputados no Parlamento Europeu, representando os interesses de sua região e não necessariamente do seu Estado[3].

O fato dos Quatro Motores representarem regiões econômicas com perfis diferenciados ajuda também nas negociações internacionais, já que podem se aproximar de regiões com as quais mantém sinergia em lugar de realizar uma aproximação por via diplomática com todo um país, o que pode ser demorado e até mesmo bloqueado pela União Europeia ou por grupos de interesses locais.

Os Quatro Motores são um exemplo de como é importante defender os interesses regionais frente à competitividade do panorama internacional e a crescente padronização da política, sendo talvez uma solução para outras regiões que representam os interesses de outros grupos, tais como poderiam ser os dos produtores das regiões agrícolas da Europa.

Dessa forma, observa-se que as decisões políticas na Europa podem enfrentar problemas devido à heterogeneidade do território e que uma forma plausível de harmonizar o panorama é mediante o estímulo às organizações paradiplomáticas, as quais permeiam o processo decisório da própria União por participar da Câmara à medida que aumentam seu poder de influência.

A Paradiplomacia se transformou em uma importante ferramenta de inserção internacional de âmbito regional, fora da padronização criada pelos blocos econômicos. Certo é que alguns países podem fazer uso da paradiplomacia como uma fase anterior a diplomacia em seus objetivos de obter reconhecimento internacional. Mas seria um erro julgar todas as entidades que atuam nessa área como organizações movidas por fins nacionalistas. Ao final, o principal intuito dessas organizações é proteger os interesses regionais frente até mesmo aos projetos econômicos nacionais, motivo que explica o fato de grandes economias como a Americana possuírem uma infinidade de organizações que atuam na paradiplomacia, representando os interesses de regiões como o Vale do Silício, que podem algumas vezes contrariar os interesses internos de outras regiões e emperrar a diplomacia comercial  estatal de um país inteiro.

No caso do Brasil, o Rio de Janeiro foi o primeiro Estado a ter uma estrutura pensada para a paradiplomacia, sendo este um movimento crescente no país, seja mediante as prefeituras, ou mediante a criação de secretarias estaduais de relações internacionais, justamente pela necessidade de defender os interesses diversos de cada Estado sem comprometer o planejamento nacional.

A situação atual da União Europeia serve como exemplo mundial sobre as pressões internas e externas exercidas em um panorama heterogêneo onde a paradiplomacia consegue flexibilizar a forte padronização e até mesmo oferecer uma alternativa às decisões tomadas, modificando o processo aos poucos e aumentando a capilaridade do poder dentro da União. Sendo essa, talvez, a alternativa para equilibrar o panorama europeu e quem saber garantir a sobrevivência de economias regionais.

Os Quatro Motores são a representação de algumas regiões com determinadas características. Talvez esse seja o momento de ampliar o escopo e não ter apenas os Quatro Motores, mas sim todas as partes do veículo e, dessa forma, em eventuais crises, será muito mais simples detectar o problema, assim como a possibilidade de resolver o mesmo. 

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Imagem Os quatro motores da União Europeia e suas capitais” (Fonte):

http://www.4motors.eu/IMG/pdf/4moteurs-12.pdf

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.consilium.europa.eu/es/european-council/ 

[2] Ver:

http://www.4motors.eu/

[3] Ver:

http://www.europarl.europa.eu/meps/es/search.html

About author

Pesquisador de Paradiplomacia do IGADI - Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e do OGALUS - Observatório Galego da Lusofonia. Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha (ACCIÓ). Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e Mestrando em Políticas Sociais com especialidade em Migrações na Universidad de La Coruña (España), Mestrado em Gestão e Desenvolvimento de Cidades Inteligentes (Smartcities) da Universitat Carlemany do Principado de Andorra e doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Global. Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Membro da Associação Internacional IAPSS para Estudantes de Ciências Políticas, do Smartcity Council, da aliança Eurolatina para Cooperação de Cidades, ECPR Consório Europeo de Pesquisa Política e da rede Bee Smartcities. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça e atualmente reside na região da Galícia (Espanha).
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