EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Eleições Municipais na Espanha e o reflexo nos processos separatistas

As eleições municipais na Espanha indicam uma nova rota política e econômica que pode afetar o processo separatista da Catalunha e reforçar o nacionalismo basco, pois, após o início da crise financeira em 2008, a Espanha enfrenta uma das maiores turbulências no panorama político desde sua redemocratização, em 1975, já que o país, como outros na área do Mediterrâneo, foi gravemente afetado pela crise financeira que começou nos Estados Unidos e se alastrou pela Europa, provocando a recessão econômica da região e uma série de implicações à longo prazo.

A Espanha teve que enfrentar as consequências da bolha imobiliária e a crise bancária espanhola, o que provocou um efeito dominó na economia, levando o país a alcançar taxas de desemprego superiores aos 20%, uma profunda recessão econômica e tensões sociais causadas principalmente pelas desapropriações e cortes nos serviços públicos.

O surgimento de movimentos sociais, tais como os Indignados do 15M, em 2011, deu origem a um novo partido alternativo de esquerda denominada Podemos, que cresceu alimentado pela frustração decorrente do bipartidarismo, quase perene, existente no país ibérico e representado pelos partidos PP (Partido Popular) e PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol)[1].

Em 2011, o atual partido da Presidência, o PP, ganhou as eleições com a promessa de recuperar a economia, seguindo o receituário recomendado pela União Europeia e instituições internacionais, dando início a uma árdua tarefa de reestruturação.

Atualmente, mesmo com uma previsão de crescimento superior a 2% do PIB para 2015[2], o preço de implementar ditas medidas de austeridade foi maior do que o esperado para o presidente do governo espanhol  e líder do PP, o Sr. Mariano Rajoy.

A Espanha teve que sacrificar o estado de bem estar com o qual seus cidadãos estavam acostumados, produzindo uma redução perceptível na qualidade de vida e nos indicadores socioeconômicos.

Os escândalos de corrupção por outro lado permearam praticamente todos os Partidos existentes aumentando o abismo entre a sociedade e seus representantes e promovendo a necessidade de mudanças e correções de rumo.

A crise espanhola produziu também o acirramento da competição entre as comunidades autônomas e o fortalecimento do nacionalismo em regiões como a Catalunha, que, graças ao expressivo apoio da sua população, começou a estabelecer uma agenda visando à cisão do território espanhol e a independência da região.

O novo partido político Podemos surgiu como movimento social liderado por professores universitários e lideres comunitários. Fonte: ReutersO novo partido político Podemos surgiu como movimento social liderado por professores universitários e lideres comunitários. Fonte: Reuters

O novo partido político Podemos surgiu como movimento social liderado por professores universitários e lideres comunitários. Fonte: Reuters

No domingo retrasado, dia 24 de maio, as eleições municipais evidenciaram a complexa situação da política interna do país. Houve um avanço perceptível dos novos partidos políticos entre eles Podemos* e Ciudadanos, assim como uma crescente onda pró-esquerda.

O que mais chamou a atenção foi o fato de que nas duas principais cidades, Madrid e Barcelona, a hegemonia dos Partidos tradicionais sucumbiu aos novos Partidos e ao clamor da população por mudanças, sendo necessárias, em ambas as cidades, a realização de uma série de pactos e acordos para garantir a governabilidade.

O Governo da Catalunha estuda o impacto que essa nova formatação irá produzir no processo separatista e nas eleições marcadas para o dia 27 de setembro de 2015. A presença de um novo ator pode afetar a agenda política que foi determinada previamente mediante um acordo realizado entre os principais Partidos da região em 2014, após os resultados da consulta popular realizada no dia 9 de novembro[3], não reconhecida pelo Governo Central de Madrid, sobre a possível separação da Catalunha.

No País Vasco, região também conhecida por suas aspirações nacionalistas, o fortalecimento do Partido Nacionalista Vasco (PNV) indica uma maior articulação entre as forças locais e uma tendência à cooperação na busca de um Governo cada dia mais afastado das influências de Madri. Embora a região não possua um projeto separatista oficial, existe um aumento dos atores que advogam por uma Espanha federal e uma maior articulação dentro da região.

Em outras comunidades onde havia uma hegemonia histórica, fosse ela do PP ou do PSOE, novos partidos conseguiram aumentar consideravelmente sua participação diversificando o panorama político espanhol e o processo decisório[4].

Sem dúvidas, o enfraquecimento do atual partido da Presidência, assim como de outros partidos consolidados, como o PSOE e o CIU, e o crescimento dos novos partidos, principalmente o Podemos, mostra uma vontade de mudança da população e um desafio para a governabilidade do país, seja ela em âmbito nacional ou no âmbito regional, e serve como alerta tanto para os interesses da União Europeia, como da Espanha ou das regiões nacionalistas.

O bipartidarismo deu lugar a uma maior diversidade partidária, sendo necessário articular os interesses dos diversos grupos que compõe a realidade espanhola e de suas regiões. O povo espanhol seja ele pró-europeu, pró-espanhol ou nacionalistas, expressou nas urnas sua insatisfação com a situação atual e sua vontade de mudanças, havendo um alinhamento com outras mudanças ocorridas em países igualmente afetados pela crise como a Grécia.

—————————————————————————————–

Imagem 1 Manifestações a favor da independência da Catalunha vêm se repetindo e se intensificando desde 2012” (Fonte Afp / Lluis Gene):

http://www.lavanguardia.com/fotos/20120911/54349943129/la-manifestacion-independentista-de-barcelona-copa-las-calles-de-la-capital-catalana.html

Imagem 2O novo partido político Podemos surgiu como movimento social liderado por professores universitários e lideres comunitários” (FonteREUTERS):

http://cdn.larepublica.pe/sites/default/files/imagecache/img_noticia_640x384/imagen/2015/01/31/imagen-podemos.jpg

—————————————————————————————–

Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://podemos.info/ 

[2] Ver:

http://www.datosmacro.com/pib/espana

[3] Ver:

http://www.cataloniavotes.eu/independence-referendum/

[4] Ver:

http://resultadoslocales2015.interior.es/ini99v.htm

EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Veneza cogita independência depois do Referendo na Criméia

A população da Veneza e de sua região votaram nesta semana sobre uma eventual independência do resto do país para formar sua própria nação. Esta votação on-line, organizada por partidos locais defensores da independência, não é legalmente vinculante e não tem peso jurídico, mas objetiva obter apoio para um “Projeto de Lei” que convocaria um plebiscito sobre se a “Região do Veneto deve se separar da Itália. As votações estão marcadas para o mês de março[1]. Segundo a lógica dos organizadores da Consulta Popular”, como a região integrou a Itália por Referendo, é igualmente por Referendo que ela pode se separar do país.

A região paga 71 bilhões de euros em impostos a Roma, 21 bilhões de euros a mais do que recebe em investimentos e serviços. As últimas pesquisas mostram que, das 3,8 milhões de pessoas habilitadas a votar na região, aproximadamente 60% são favoráveis à independência. Apesar dos protestos de que qualquer tentativa de secessão da Itália seria inconstitucional, o governador da região do Veneto, Luca Zaia[2], declarou aos meios de comunicação italianos que a secessão é uma opção em conformidade com a legislação internacional.

Tal como acontece na Espanha, a declaração de independência de qualquer região seria inconstitucional. Mas há precedentes, como a independência de Kosovo, ou os Referendos de Quebeque, e o Governador garante que uma eventual secessão respeitaria o “Direito Internacional”. Luca Zaia quer esperar pela Consulta marcada para a Escócia, em setembro, e acompanhar ainda o que ocorrerá com a iniciativa da Catalunha, que quer votar a independência da Espanha em 9 de novembro, sendo esta uma consulta que “Madrid considera ilegal” e tenciona impedir. “Se Barcelona obtiver a independência, a região do Veneto poderá adotar o mesmo método[3], defende Zaia.

Alguns meios de comunicação russos compararam a votação no “Norte de Itália” com o que aconteceu na Criméia, a região de maioria russófona da Ucrânia que votou para integrar a Rússia.

————————

Imagem (Fonte):

http://www.ansa.it/web/notizie/collection/regioni_veneto/02/12/Veneti-pro-referendum-no-Italia_10063601.html?idPhoto=1

————————

[1] Ver:
http://www.ansa.it/web/notizie/collection/rubriche_english/03/18/Veneto-voting-independence-on-line-referendum_10250528.html

[2] Ver:
http://corrieredelveneto.corriere.it/veneto/notizie/politica/2014/19-marzo-2014/saldatura-lega-indipendentisti-ma-pd-le-elezioni-unico-test-2224232965890.shtml

[3] Ver:
http://corrieredelveneto.corriere.it/veneto/notizie/politica/2014/19-marzo-2014/saldatura-lega-indipendentisti-ma-pd-le-elezioni-unico-test-2224232965890.shtml

MEIO AMBIENTENOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICAS

O mês de fevereiro: extremos climáticos no mundo e início das discussões políticas para a próxima COP

Como os especialistas vem demonstrando, os dias de calor cada vez mais frequentes que temos sentido não são apenas aparentes, mas reais.  E, destaca-se, 2013 foi um ano especialmente quente, mais precisamente o sexto mais quente na Terra desde 1850, segundo dados da “Organização Meteorológica Mundial” (OMM).

De acordo com o Estudo elaborado, a superfície da terra e dos oceanos superou em 0,50o C a média calculada no período de 1961 a 1990 e em 0,03o C a medida na última década. Segundo o “Secretário Geral da OMM”, Michel Jarrad, a propensão da elevação das temperaturas é uma tendência, considerando o aumento do volume de gases do efeito estufa na atmosfera.  Também se observa que, desde 1850, quando as questões climáticas começaram a ser observadas de forma sistemática, 13 dos 14 anos mais quentes registrados ocorreram a partir de 2001, sendo os recordes históricos pertencentes a 2010 e 2005 (+0,55oC).

Deve-se destacar que o fenômeno “El Niño”, em 1998, foi responsável por significativa elevação da temperatura global naquele ano, porém, o ano de 2013 não teve influência de nenhum fenômeno climático, mas do aumento histórico da concentração de dióxido de carbono na atmosfera: 400 partes por milhão.  Esse nível é, para os cientistas climáticos, o nível limite para evitar os piores cenários ambientais. 

Conforme o “United Nations Framework Convention on Climate Change” (UNFCCC), a temperatura média do planeta pode aumentar entre 2 e 6 graus centígrados até o final deste século. Entre as muitas consequências, estima-se o degelo, tempestades mais violentas (como as ocorridas recentemente na Espanha), a ampliação dos períodos cíclicos de chuvas e secas (como vemos no Brasil), impactos sobre a biodiversidade e outros.

É importante observar os esforços dos Governos federal e estaduais brasileiros na implementação de políticas públicas para mitigar as mudanças climáticas.  Destaca-se a reunião prevista para o dia 26 de fevereiro, entre o “Governo Federal” e a “Sociedade Civil”, para a avaliação da COP-19/CMP-9 e início dos preparativos para a COP-20/CMP-10.

Em relação aos Estados brasileiros, é importante mencionar o Relatório recém-lançado contendo as “Contribuições dos Estados do GCF Brasil para a Estratégia Nacional de REDD+”, disponível no site do “Governors’ Climate and Forest Task Force” (GCF)*.

—————————–

* Sobre o GCF: Criado em 2008, o “Governors’ Climate and Forest Task Force” (GCF) foi estabelecido entre Governos subnacionais do Brasil, “Estados Unidos” e Indonésia.  Atualmente é composto por 19 Governos subnacionais, incluindo “Madre de Dios” (Peru), “Cross River” (Nigéria), Campeche e Chiapas (México) e Catalunha (Espanha).  O objetivo do GCF é trocar experiências quanto à implementação de políticas públicas ambientais, tais como as relacionadas a REDD, ao mercado de carbono e outrosDetalhes: www.gcftaskfore.org

—————————–

Fontes consultadas:

Ver:

http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2014/02/1407846-2013-foi-o-sexto-ano-mais-quente-desde-1850-diz-agencia-da-onu.shtml

Ver:

http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/02/fantastico-explica-calor-extremo-deste-verao-no-brasil.html

Ver:

http://www.gcftaskforce.org/documents/contributions_national_REDD+_strategy_proposal_allocation-state_union_EN.pdf

Ver:

http://politica.elpais.com/politica/2014/02/07/actualidad/1391806770_014138.html

Ver:

http://ccaa.elpais.com/ccaa/2014/02/15/paisvasco/1392462469_609864.html

Ver:

http://politica.elpais.com/politica/2014/02/06/album-01/1391707186_226392.html

Ver:

http://www.rtve.es/alacarta/videos/espana-directo/espana-directo-mariscadoras-advierten-del-desastre-mar/2402699/

Ver:

http://www.rtve.es/v/2402699

Ver:

http://www.coepbrasil.org.br/portal/Publico/apresentarArquivo.aspx?TP=1&ID=8fc52b23-e5bb-4039-96dd-2cacdee9e008&NOME=Relatorio+Final+da+Pesquisa

Ver:

http://www.mma.gov.br/redd/index.php/o-que-e-redd

Ver:

http://www.mma.gov.br/clima/convencao-das-nacoes-unidas

AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIAEUROPA

FUTEBOL: ESPELHO E REFLEXO DO SISTEMA INTERNACIONAL

No último sábado, dia 26 de Outubro de 2013, celebrou-se uma das mais relevantes datas para a história do esporte: o aniversário de 150 anos do surgimento do Futebol no mundo. Posto que inúmeros historiadores acreditem que as raízes do futebol datam de mais de três mil anos e considerem o cuju chinês, o kemari japonês e o epyskiros grego como os precursores do futebol, nenhum destes, na visão de especialistas no assunto, apresenta significativas semelhanças com o esporte que conhecemos como Futebol. Assim, na noite de 26 de Outubro de 1863, na taberna “Freemason’s Arms”, em Great Queen Street”, em Londres, um grupo de homens, que representavam os doze clubes londrinos existentes àquela época, reuniram-se e assinaram a que pode ser considerada a certidão de nascimento do futebol moderno: a criação da “Football Association” (FA) e a aprovação de um conjunto de 13 (treze) regras que constituíram o alicerce inicial do Futebol, padronizando a prática de um esporte que vinha sendo jogado de diversas formas e regras diferentes no cenário britânico da época.

Durante boa parte destes 150 anos de idade, muitos estudiosos têm buscado analisar as causas do excepcional sucesso e disseminação deste esporte no mundo, suas inúmeras implicações no cenário mundial e como o futebol se tornou um dos mais fortes elementos de coesão nacional no cenário internacional, impulsionado pela universalização das competições esportivas que passa a ocorrer a partir do início do século XX. É importante ressaltar, segundo o entender de alguns analistas, tais como Hilário Franco, a concepção de que o futebol pode ser encarado como uma metáfora da existência humana. Mais especificamente, este seria um mosaico que constrói com peças quantitativa e qualitativamente diferentes (jogadores, técnicos, torcedores etc.) a imagem síntese do mundo em que vivemos, a qual mostra tanto a realidade interna (anseios, medos, esperanças, alegrias) quanto a externa (social, econômica e política)[1].

Se em seus primórdios o futebol era visto como um esporte das elites, praticado apenas em círculos fechados, paulatinamente este foi se expandindo e se tornando o esporte mais praticado e popular em todo o mundo, o que, segundo Hobsbawm, se deveu pelo fato de, por ser este um jogo simples e elegante, não perturbado por regras e/ou equipamentos complexos e que podia ser praticado em qualquer espaço aberto, o futebol se tornou um esporte universal, o que se consolidou com a realização da primeira “Copa do Mundo de Futebol”, disputada em 1930, no Uruguai, país escolhido para ser sede da “Copa do Mundo” como forma de celebrar o centenário da independência uruguaia, denotando, desde já, o caráter político presente nas competições futebolísticas[2].

No tocante à disseminação do futebol pelo mundo, esta pode ser analisada como fruto da expansão do capitalismo na arena mundial, tendo seguido a lógica da influência cultural inglesa. A própria padronização das regras e a criação da FA, em 1863, se verifica no contexto histórico da “Segunda Revolução Industrial” e em plena expansão econômica vivenciada, à época, pela Inglaterra. Posteriormente, em fins do século XIX, época em que a delimitação das fronteiras nacionais era a preocupação primordial vigente, a FA passa a discutir a demarcação do campo de jogo. Outrossim, a própria expansão do capitalismo, levada a cabo pela Inglaterra, então uma potência econômica e comercial, propiciou a universalização do esporte na medida em que os costumes e práticas inglesas foram disseminados pelo mundo.

No Brasil, onde o futebol foi introduzido por intermédio de Charles Miller – estudante brasileiro, de pai escocês, que retornava de seus estudos na Inglaterra –, assim como na Inglaterra, o esporte se expandiu graças ao processo de industrialização e seu desenvolvimento se deve ao afluxo das companhias inglesas no país, principalmente as dos setores ferroviário e energético, que emergiram com o advento da “Revolução Industrial” e criaram uma classe operária que via neste outrora esporte das elites, fácil de ser praticado e de regras bastante simples, um esporte perfeito para seus anseios. É desta forma que o futebol acaba se tornando, com o decorrer dos anos, um esporte das massas.

Período importante a ser considerado é o que compreende os anos 1930, caracterizados por tensões e conflitos que vêm comprovar a derrocada do sistema de equilíbrio de poder europeu. As regras do futebol também são redefinidas e a FIFA, criada em 1904 segundo o modelo de um Estado-Nação soberano, é transferida para um país à época neutro no cenário europeu, a Suíça, como forma de atenuar a influência de questões políticas internacionais na organização do futebol mundial, a cargo da FIFA. Contudo, a mesma tensão política que marcava o relacionamento entre a Europa e a “América Latina” neste período se manifestou no universo futebolístico, fazendo com que a “Copa do Mundo de 1938” – realizada na França e sem que fosse respeitado o então existente rodízio de continentes na escolha dos países-sede da “Copa do Mundo” – tivesse apenas Brasil e Cuba como representantes do futebol do continente americano, tendo a Argentina liderado o boicote dos demais países desse continente à “Copa do Mundo de 1938[3].

Com o advento dos nacionalismos no cenário internacional, o futebol acaba adquirindo uma faceta política bastante acentuada, sendo representativo e portador dos interesses de governos e regimes, no que o exemplo descrito no periódico “Deutsche Welle” (DW) é bastante ilustrativo. Este ocorre em 1953, em plena “Guerra Fria”, na partida disputada entre a seleção da Hungria, país, à época, membro do bloco socialista, e a seleção da Inglaterra, membro do bloco capitalista, partida que terminou com o triunfo da seleção húngara, motivando intensa propaganda sobre a suposta superioridade do regime socialista face ao capitalista, prática que se intensificaria de forma acentuada no auge da “Guerra Fria”.

Outrossim, na Espanha dos anos 50 e 60, durante o governo de Franco, este apropriou-se do futebol como forma de enaltecer o país. Em oposição à Catalunha – região que até a presente data ainda almeja sua independência política da Espanha –, o governo do general Franco se utilizou do “Real Madrid” como instrumento de propaganda. Sendo o Barcelona o principal clube catalão, ostentando, inclusive a frase em catalão “Més Que Un Club” (“Mais Que Um Clube”, em português) para ilustrar a incorporação de um sentimento nativista catalão em sua história e formação, a rivalidade política transbordou para a esfera futebolística, contrapondo “Real Madrid” e Barcelona, os dois mais famosos times espanhóis.

Sem embargo, a última década do século XX é de grande importância para a “História Mundial”. A “Queda do Muro de Berlim” e a consequente reunificação alemã, o fim da antiga URSS, o término da “Guerra Fria”, o recrudescimento do processo de globalização, a revolução tecnológica nos meios de comunicação e a crise financeira mundial são fatos que provocaram mudanças significativas no sistema internacional, os quais acabaram por levar à emergência de uma nova ordem mundial calcada em novos paradigmas. E, à medida que esta nova ordem mundial emerge, o universo futebolístico, por espelhar e refletir as relações internacionais, também passa por inúmeras mudanças, as quais podem ser elencadas dentre as mais importantes para este esporte no decorrer destes seus 150 anos de existência.

A implosão da antiga URSS e a fragmentação de outros Estados – Iugoslávia e Tchecoslováquia – levou ao surgimento de novos Estados europeus ávidos por se fazerem presentes e reconhecidos no concerto internacional, bem como por buscarem elementos de coesão interna que propiciassem uma forte identidade coletiva. Grande parte desses novos Estados europeus – Montenegro, Bósnia-Herzegovina e Kosovo, por exemplo – buscou galgar prestígio por intermédio do futebol, como forma primordial de se inserir de maneira perspicaz no concerto internacional e de exaltar sua soberania, ou seja, com a constituição de uma equipe nacional de futebol. Para tanto, buscaram aderir, em primeiro lugar, à FIFA e não à ONU, como bem aponta o estudioso francês Pascal Boniface. Ainda segundo este, nesta nova ordem mundial, à definição clássica de Estado, calcada no trinômio território, população e governo, poder-se-ia inserir um quarto elemento essencial: uma equipe nacional de futebol[4]. No tocante a este ponto, a recente classificação da seleção nacional da Bósnia-Herzegovina para disputar sua primeira “Copa do Mundo”, a “Copa de 2014”, no Brasil, foi motivo de intensa comemoração e de grande união no país, que, por intermédio do futebol, obterá prestígio internacional, segundo garantem os próprios cidadãos do país.

Importante ressaltar que a revolução tecnológica nos meios de comunicação, essencial para disseminação da informação e para o crescimento da indústria do entretenimento, se foi fundamental para a expansão do conhecimento e para encurtar as distâncias o foi, sobretudo, para a mercantilização do futebol, atualmente, um dos mais lucrativos mercados mundiais, sendo a FIFA, na visão de Joseph Blatter, seu atual presidente, a maior empresa multinacional do mundo.

Os torneios, agora televisionados para os mais remotos cantos do planeta, rendem milhões de dólares e funcionam como canais de exposição para as mais diversas empresas dos mais diversos setores da economia mundial. Assim é que, no Japão, grande parte dos times que disputam o campeonato nacional não representam suas respectivas localidades, mas sim empresas patrocinadoras. Quanto aos torneios internacionais de grande visibilidade, estes passaram a associar aos seus antigos nomes, os nomes dos principais patrocinadores, vindo a antiga “Taça Libertadores da América” a ser agora conhecida como “Copa Santander Libertadores” e a “UEFA Champions League” a assumir a denominação de “Heineken Champions League”. Cumpre, também, registrar que a maior potência econômica europeia na atualidade, a Alemanha, é a que apresenta a mais proeminente e rentável liga europeia de futebol, a Bundesliga.

Por último, mas não menos importante, a globalização aumentou a porosidade das fronteiras, tornando o mundo bem mais integrado. Por outro lado, também provocou o surgimento (ou mesmo o reaparecimento) de manifestações xenofóbicas e, inclusive, a ascensão de certos comportamentos e atitudes racistas no mundo, as quais, mesmo em pleno século XXI, ainda são bastante visíveis. Um nacionalismo exacerbado diante de um afluxo de estrangeiros e de imigrantes tem se tornado algo recorrente, especialmente no continente europeu. E esta tendência se reflete no futebol, com os crescentes casos de racismo por parte de algumas torcidas para com jogadores negros e/ou estrangeiros, o que tem motivado inúmeras campanhas visando erradicar tais práticas. Por outro lado, a porosidade das fronteiras torna bastante visível o fato de que grande parte das equipes de futebol sejam compostas por jogadores das mais variadas nacionalidades. Mesmo as seleções nacionais vêm apresentando jogadores filhos de imigrantes e de diferentes etnias em seus quadros, a exemplo da França de Zinedine Zidane, da Itália de Mario Balotelli e, principalmente, da Alemanha de Lucas Podolski (de origem polonesa), Mesut Òzil (de origem turca), Gerald Asamoah (de origem ganesa) e Cacau (de origem brasileira). Enfim, este é o retrato do futebol, que em seus 150 anos de existência, celebrados no último dia 26 de outubro, impacta corações e mentes em todo o planeta, espelhando e refletindo o mundo em que vivemos.

—————————

ImagemO Mundo é mesmo uma bola, uma bola de futebol” (Fonte):

http://paulohala.files.wordpress.com/2010/07/bola-mundo.png

—————————

Fontes consultadas:

[1] Ver:

FRANCO, H. A Dança dos Deuses: futebol, sociedade e cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[2] Ver:

HOBSBAWM, E. A Era dos Extremos. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2004.

[3] Ver:

SANTOS, M. A. Esporte e Relações Internacionais: a Diplomacia Futebolística como Ferramenta de Soft Power – o Caso do Brasil. Dissertação de Mestrado apresentada no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PPGRI/UERJ. Rio de Janeiro: Novembro de 2011.

[4] Ver:

BONIFACE, P. Football et Mondialisation. Paris: Armand Colin, 2010.

—————————

Ver também:

http://www.dw.de/fundado-em-taberna-londrina-futebol-completa-150-anos/a-17184347

MEIO AMBIENTENOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICAS

Um “Plano B” nas negociações internacionais: governos da Califórnia (EUA) e Austrália assinam memorando de entendimentos (Perspectiva futura: “Mercado de Carbono”)

No dia 30 de julho o “Estado da Califórnia” (EUA) deu mais um passo no âmbito internacional, quando foi assinado um memorando de entendimentos com a Austrália, visando o “Mercado de Carbono”.  É interessante observar como a Califórnia está ampliando suas ações desde o estabelecimento doGCF Task Forceem novembro de 2008 e em seqüência a assinatura do memorando de entendimentos em novembro de 2010 com os governos do Acre (Brasil) e Chiapas (México). 

O destaque, entretanto, não é apenas a importância do Acordo que visa estreitar os esquemas de comércio de permissões de emissão entre a Califórnia e a Austrália.  O que difere, neste caso, de outros memorandos de entendimentos assinados pela Califórnia é o fato de se tratar de um acordo entre um governo subnacional (Califórnia) e um governo nacional (Austrália).  Principalmente pelo fato do “Governo Australiano” ter anunciado que abandonará a taxa de carbono para a implementação de um Mercado nos padrões do modelo europeu, denominado “Esquema Europeu de Comércio de Emissões” (EU ETS).

É relevante observar neste contexto internacional o trabalho que os 19 governos subnacionais integrantes do “GCF Task Force” tem realizado em termos de implementação de políticas ambientais, havendo um alinhamento técnico e político, além de troca de experiências para a adequação às diferentes características regionais. Ao mesmo tempo, o “GCF Task Force” tem atraído a atenção de novos membros, como é o caso da Catalunha (Espanha) e, anualmente, são discutidas as ações realizadas e previstas para o ano seguinte, havendo espaço para apresentações de cada região membro do “GCF Task Force” para expor seus trabalhos específicos.  A próxima reunião ocorrerá na cidade de “Puerto Maldonado”, região de “Madre de Dios” (Peru) entre os dias 1o e 4 de outubro deste ano, 2013*.

Observa-se neste contexto a importância cada vez maior das ações subnacionais, evidenciado neste momento pelo memorando de entendimentos entre a Califórnia e a Austrália.  Isso é significativo, pois as reuniões anuais da “Conferência Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas” – CQNUAC (em inglês: “United Nations Framework Convention on Climate Change” – UNFCCC) têm como objetivo estabelecer acordos internacionais entre governos nacionais de modo a implementar políticas ambientais, entretanto, as negociações nos últimos anos têm avançado a passos curtos e a alternativa, como se pode observar, é justamente buscar um “Plano B” nas negociações internacionais, que é justamente o enfoque a nível subnacional.

——————————

* Detalhes do evento estão no site:

http://www.gcftaskforce.org/events/2013/annual_meeting/.

——————————

Fontes consultadas:

Ver:

http://www.arb.ca.gov/newsrel/2013/mou_cer_arb_073013.pdf

Ver:

https://ceiri.news/mudancas-climaticas-como-surgiu-como-estamos-no-contexto-internacional-e-tendencias-do-mercado-junto-ao-setor-privado/

Ver:

http://www.gcftaskforce.org/documents/2008_summit_mou/MOU.Amazonas-Brazil_Signed_111808.pdf

Ver:

http://tropicalforestgroup.blogspot.com.br/2010/11/text-of-ca-chiapas-acre-mou-on-redd.html

Ver:

http://www.slideshare.net/bsmid1/mudanas-climticas-na-amaznia-contexto-das-polticas-pblicas-redd-e-a-perspectiva-nacional-e-internacional

Ver:

http://www.ipam.org.br/programas/projeto/GCF-Task-Force/62  

Ver Publicação:

Reframing REDD+, “Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia” (IPAM), (2012) (Autores: D. Nepstad, P. Moutinho, A. Azevedo, T. Bezerra, B. Smid, M. Stabile, C. Stickler, O. Stella). Link: http://www.ipam.org.br/biblioteca/livro/Re-Framing-REDD-/666

Ver Publicação:

Overview of Subnational Programs to Reduce Emissions from Deforestation and Forest Degradation (REDD) as Part of the Governors’ Climate and Forests Task Force. EPRI, Palo Alto, CA. 1023811. (2012) (Autores: D. Nepstad, J. Niles, A. Azevedo, T. Bezerra, K. Schwalbe, B. Smid, C. Stickler, R. Vidal). Link: http://my.epri.com/portal/server.pt?Abstract_id=000000000001023811

ANÁLISES DE CONJUNTURACooperação Internacional

Mudanças climáticas: como surgiu, como estamos no contexto internacional e tendências do mercado junto ao setor privado

O tema “mudanças climáticas” está cada dia mais em voga e muito se discute o papel isolado da população, ONGs, governos e setor privado.  Muitas vezes parece haver uma ruptura de quem é responsável pelo quê, como se vivêssemos em uma sociedade feita de caixas isoladas ao invés de uma sociedade interativa onde existe (ou deveria existir) uma correlação profunda entre diferentes representantes da sociedade.

No contexto internacional, as Nações Unidas têm apresentado um papel importanteao colocar em pauta o tema ambiental e se deve considerar como um caso de sucesso o fato de atualmente existir um quase consenso internacional de que, quaisquer que sejam os fatores, existe uma diferença significativa na variação da temperatura, na frequência e na intensidade (para maior ou menor) das estiagens e das chuvas, dentre vários fenômenos que estão alterando a percepção sobre o meio ambiente e a relação do homem com a natureza.