AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Panorama da mobilidade urbana na América Latina

O aumento da população mundial e os movimentos migratórios geram a conurbação e o surgimento das megalópoles, os quais provocam impactos no trânsito e sistemas de transportes, dentre outros. Assim como no resto do mundo, na América Latina a eclosão da pandemia e as perspectivas do chamado “novo normal” trazem novas reflexões sobre a mobilidade urbana.

Em 2010, a Corporación Andina de Fomento (CAF),  que se autointitula como Banco de Desenvolvimento da América Latina, deu início ao Projeto Observatório de Mobilidade Urbana (OMU). O primeiro relatório divulgado teve como base uma análise feita em 15 regiões metropolitanas de 9 países: Buenos Aires (Argentina); Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo (Brasil); Santiago (Chile); São José (Costa Rica); Bogotá (Colômbia); Cidade do México, Guadalajara, León (México); Lima (Peru); Montevidéu (Uruguai); Caracas (Venezuela).

Segundo o Relatório, a América Latina já tinha, em 2010, quase 80% da população vivendo em centros urbanos e uma previsão de alcançar os 90% nas décadas seguintes. Os sistemas de transporte e a mobilidade urbana já eram vistos como fatores determinantes para a economia e para a qualidade de vida dos cidadãos. O documento destaca a variedade de serviços de transporte coletivo existente e menciona o Transmilênio (Bogotá) e o Metrobús (Cidade do México) como bons exemplos, inspirados no RIT (Curitiba), de corredores expressos de ônibus (Bus Rapid Transit, ou BRT, em inglês).

Apesar do destaque para o transporte coletivo, os efeitos nocivos do aumento do transporte individual, desde décadas anteriores, e a insuficiência de vias para ciclistas e para pedestres já era observada na análise da CAF. Nas conclusões, novamente se faz um alerta para o aumento do número de automóveis e motocicletas, refletindo em congestionamentos e poluição ambiental. E sugerem a melhoria da qualidade do transporte de massas e o controle dos meios individuais, inclusive para reduzir a contaminação do ar.

Já em 2017, a Associação Internacional do Transporte Público (UITP, em francês) divulgou o Informe do  Programa  “Mejores Prácticas de Promoción y Comunicación de Movilidad Urbana, onde estão descritos 46 projetos da Argentina, Brasil, Chile, México e Peru. Lima, capital do Peru, que aparece na publicação com um projeto relacionado ao metrô, era em 2010 a cidade com mais problemas de transporte urbano no relatório da CAF. Ao passo em que Bogotá, cujo BRT Transmilênio foi exemplo citado no documento CAF, de 2010, figura como a cidade onde se perde mais horas no congestionamento, de acordo com o ranking  Global Traffic Scorecard 2019 da  Consultoria INRIX.

Conferência Infraestrutura para o Desenvolvimento da América Latina 2018, da CAF, em Buenos Aires

A CAF publicou, em 2018, o manual “Medidas de gestión de la demanda de transporte en ciudades de América Latina”, no qual analisa os casos de São Paulo, Medellín e Cidade do México, incluindo avaliação de modelos de 3 cidades desenvolvidas: Copenhague, Londres e Singapura. No mesmo ano publicam também o “Desafíos para la integración de sistemas de transporte masivo: Manual de Buenas Prácticas”, com orientações baseadas em experiências exitosas de diversas cidades do mundo.

No final de 2018, em artigo publicado na Folha de SP, o Presidente da Cabify, Richard Weder, aponta que as políticas ainda estão centradas em veículos e não em pessoas. Weder afirma que as novas gerações já não demonstram interesse em possuir bens (veículos) e sim em ter acesso a serviços (transporte). Algumas soluções em curso já foram objeto de artigos no CEIRI NEWS, a exemplo de: O futuro do automóvel na América Latina; As patinetes elétricas invadem a América Latina e Desafios dos aplicativos de transporte de passageiros na América Latina.

As patinetes chegaram na região pelo México em 2018 e em 2020 já estão espalhadas em diversos países. Os carros elétricos de aluguel, mencionados no mesmo artigo como novidade em Singapura, estrearam no Brasil por meio do Projeto Vem DF, em Brasília, em 2019, ainda que com uso limitado. Os dados das pesquisas sobre o futuro do automóvel, realizadas em 2018, pela KPMG e pela Nissan América Latina, coincidem, em parte, com os da recente pesquisa “O Futuro da mobilidade”, realizada em 2020 pela Route Automotive. O desejo de ter um carro ainda persiste nos jovens, mas não como prioridade, o que é normal em tendências que se consolidam com o decorrer do tempo. 

Após percorrido todo esse caminho, eis que a pandemia agrega novas questões a serem consideradas para o futuro da mobilidade em novo cenário. O transporte de massas, precisará ser repensado em razão das aglomerações que provoca: reduzir o número de passageiros por viagem implicará aumento nas passagens ou subsídios oriundos de cofres públicos; o teletrabalho e o reescalonamento de horários, diluindo os horários de pico, surgem como alternativas.

No webinar “Como fica a mobilidade urbana face à pandemia?” (11/5/2020), outras ideias foram apresentadas: bloqueio de ruas; infraestrutura e incentivo ao deslocamento a pé e por meio de bicicletas; acomodar os entregadores de serviços de delivery. Repensar a matriz de mobilidade e a matriz energética são recomendações visando atender à demanda com eficiência, segurança e sustentabilidade econômica, social e ambiental.

O bônus da América Latina é que, como foi uma das últimas regiões afetadas pela Covid-19, a trajetória de países que estão voltando ao “normal” servirá como mais um elemento na elaboração de um modelo próprio que considere as peculiaridades da região, as necessidades e capacidades específicas, para se alcançar um novo patamar de mobilidade ao menos satisfatória.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mobilidade urbana sustentável” (Fonte):

https://www.gob.mx/cms/uploads/article/main_image/62429/movilidad_urbana_sustentable_2.jpg

Imagem 2 Conferência Infraestrutura para o Desenvolvimento da América Latina 2018, da CAF, em Buenos Aires” (Fonte):

https://www.fiafoundation.org/media/461354/latin-america-conference-apr2018-1.jpg

About author

Mestre e especialista em relações internacionais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), especialista em Política e Estratégia pelo programa da ESG (UNEB, ADESG/BA), bacharel em Administração pela Universidade Católica do Salvador (UCSal). Consultor e palestrante de Comércio Exterior.
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