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Panorama para o futuro das relações entre a China e a América Latina

A presença da China na América Latina cresceu significativamente na última década. O país é o principal parceiro comercial da América do Sul e o segundo maior parceiro comercial da América Latina, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Segundo dados divulgados pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a China representa 11% das exportações regionais e 18% das importações. A próxima década será decisiva para as relações entre os chineses e os países latino-americanos. Nesse sentido, é importante compreender o panorama histórico e as perspectivas para o futuro.

O movimento de estabelecimento de relações com a China iniciou no governo de Mao Zedong (1949-1976), logo no princípio da década de 1970. Inicialmente, estabeleceram-se relações com 11 países: Chile, Peru, México, Argentina, Guiana, Jamaica, Trinidad e Tobago, Venezuela, Brasil, Suriname e Barbados. O sucessor de Mao Zedong, Deng Xiaoping (1978-1989), aprofundou esta tendência na década de 1980 executando uma política externa pragmática, e buscando parcerias político-diplomáticas e econômicas que pudessem auxiliar e legitimar a participação chinesa no sistema internacional*.

Mapa demonstrando a divisão entre o Sul Global e o Norte desenvolvido

Começando os anos 1990 houve uma expansão da política externa chinesa para a região, visando à obtenção de recursos naturais para fomentar o seu processo de desenvolvimento econômico. A partir de 1993 a China deixa de ser autossuficiente em matéria de energia e a busca por recursos naturais e alimentos torna-se necessária por questões econômicas e de segurança. Ressalta-se que as relações com a região são enquadradas no âmbito Sul-Sul** e crescem igualmente iniciativas de cooperação científica e tecnológica com diversos países.

Este processo se amplia a partir de 2001, quando a China ingressa oficialmente na Organização Mundial do Comércio (OMC) e lança a sua estratégia Going Global, que visava à expansão das empresas chinesas com o objetivo de garantir o acesso a recursos naturais. O século XXI marca o início de uma estratégia diplomática chinesa que enfatiza três elementos: 1) a ascensão pacífica da China como poder regional e global; 2) o conceito de um mundo multipolar; 3) a visão das Organizações Internacionais como principais instrumentos de política externa da China, sobretudo fora da Ásia.

Corroborando as afirmações anteriores, o país se torna Observador Permanente junto à Organização dos Estados Americanos (OEA) em maio de 2004. Da mesma forma, a China obteve o status de Observador Permanente na Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), na Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e no Parlamento Latino-Americano (PARLATINO).

Mandatários chinês Xi Jinping participando de uma reunião de Cúpula acerca dos meios de comunicação na América Latina

Em 2015, a China e a Comunidade dos Países Latino-Americanos e Caribenhos criaram o Fórum China-CELAC, um canal de diálogo para promover a cooperação chinesa com a região. Durante a segunda reunião ministerial do Fórum, o país convidou oficialmente a América Latina para juntar-se à Belt and Road Initiative (BRI), também conhecida como a Nova Rota da Seda, a principal iniciativa de política externa do mandatário Xi Jinping.

Adicionalmente, a América Latina vem crescendo como destino para os investimentos estrangeiros diretos (IED) da China. O estoque de IED chinês na região entre 2005-2019 está estimado em US$ 175,52 bilhões (em torno de 913,13 bilhões de reais, conforme cotação do dia 16 de abril de 2020), sendo que os principais setores de destino são: energia (57%); mineração (20%) e transporte e logística (11%), seguidos de diversos segmentos com valores menos expressivos. Com relação à modalidade de entrada do IED, estima-se que 62% seja realizado através de fusões e aquisições. Isto quer dizer objetivamente que a maior parte dos investimentos consistiu na compra de empresas locais e estrangeiras atuando na região.

Analistas apontam que a importância da China para o Sistema internacional continuará a crescer nas próximas décadas. O país emitiu dois White Papers delineando sua política externa para a América Latina, em 2008 e 2016. Isto mostra que o Governo chinês tem uma visão para a cooperação com a região, por outro lado, o contrário não ocorreu. Ou seja, a América Latina não articulou uma visão estratégica conjunta em relação ao aumento da presença chinesa. A conjuntura atual, na qual diversos países da região estão sofrendo crises econômicas, dificulta que tal iniciativa seja realizada.

Imagem demonstrando a composição das exportações chinesas, extraída do Atlas da Complexidade Econômica

Embora a China ainda se considere uma nação em desenvolvimento, o país é hoje a segunda maior economia mundial e já lidera em diversos segmentos da indústria, tendo passado por intenso processo de catching up em sua estrutura produtiva. A América Latina, por outro lado, não passou por um processo tão intenso de industrialização e desenvolvimento. A região é composta por países com economias muito heterogêneas, portanto é difícil falar da região como um todo. Não obstante, ao observar a estrutura produtiva e de exportações da maior economia local, o Brasil, a dicotomia fica clara: percebe-se uma estrutura produtiva menos diversificada e menos sofisticada/industrializada.

Portanto, embora os intercâmbios entre a China e a América Latina ainda sejam conceitualmente relações Sul-Sul, a disparidade de recursos fica evidente. É imperativo que se criem estratégias, planejamentos de longo prazo para a cooperação com a China, que busquem enfatizar a possibilidade de cooperação científica e tecnológica, e o upgrading industrial dos países latino-americanos. Esta é uma tarefa muito complexa, visto que a indústria chinesa compete em vários dos segmentos nos quais a indústria local possui expertise e especialização.

Imagem demonstrando a composição das exportações brasileiras, extraída do Atlas da Complexidade Econômica

Existe espaço e grande potencial para a cooperação com os chineses em áreas como construção de infraestrutura, âmbito no qual a América Latina é notoriamente deficitária e a China possui capital e experiência. A área de energias renováveis é outro exemplo notável para o desenvolvimento da cooperação bilateral nas próximas décadas. É importante salientar a cooperação com Brasil no desenvolvimento aeroespacial, mostrando um exemplo no qual há transferência de tecnologia e ganhos entre ambas as partes.

Entretanto, a conjuntura que está se delineando devido à ameaça global do coronavírus trará imensos desafios para os países latino-americanos, vários do quais já enfrentavam crises econômicas antes da pandemia. Este fator provavelmente prejudicará a capacidade da região de articular estratégias a nível internacional, à medida que as economias locais ficarão mais preocupadas com o seu contexto doméstico. Autoridades projetam uma queda de 2% no PIB global em 2020, evidenciando esta tendência.

A instabilidade econômica poderá acentuar a instabilidade política. Se este cenário se consolidar, deverá aumentar o risco de erosão das instituições em diversas democracias locais. É uma conjuntura que exige extrema cautela e conscientização popular. Uma vez passado o surto epidêmico, é importante que seja reforçada a cooperação internacional como um dos instrumentos capazes de auxiliar no desenvolvimento da América Latina, desde que os países da região saibam articular os seus projetos de desenvolvimento.

É necessário reforçar a promoção de iniciativas que incluam a transferência de conhecimento e tecnologia e o desenvolvimento industrial da América Latina, e não apenas fomentar a venda de empresas e a exportação de bens agrícolas e commodities. Para isto, será necessária a ação de líderes pragmáticos que não realizem alinhamentos automáticos. O futuro da América Latina vai exigir muita diplomacia, políticos competentes e mobilização popular acerca da promoção do desenvolvimento local e a preservação das instituições democráticas.

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Notas:

* Naquele momento o país estava promovendo a sua política de reformas e abertura lançada em 1978, inaugurando uma nova fase na política externa chinesa. Para maiores informações: https://ceiri.news/quarenta-anos-do-processo-de-abertura-e-reformas-na-china/.

** As relações Sul-Sul não dizem respeito necessariamente a países que pertençam ao hemisfério sul do planeta, mas faz referência ao seu estágio de desenvolvimento. O conceito se refere aos países que integram o Sul global e que estão trilhando o seu caminho de desenvolvimento econômico. Por relações Sul-Sul, entende-se que haja uma proximidade entre os recursos de poder das partes, diferentemente do que se estabelece quando um país desenvolvido negocia com um país emergente. Neste caso, refere-se como relação Norte-Sul, onde a disparidade de poder e recursos é maior. 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Mapa demonstrando os países da América Latina” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/63/Latin_America_%28orthographic_projection%29.svg/1024px-Latin_America_%28orthographic_projection%29.svg.png

Imagem 2 Mapa demonstrando a divisão entre o Sul Global e o Norte desenvolvido” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Global_South#/media/File:North_South_divide.svg

Imagem 3 Mandatários chinês Xi Jinping participando de uma reunião de Cúpula acerca dos meios de comunicação na América Latina” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Presidenta_asiste_a_la_inauguraci%C3%B3n_de_la_Cumbre_de_L%C3%ADderes_de_Medios_de_Comunicaci%C3%B3n_China-Am%C3%A9rica_Latina_(31052691622).jpg

Imagem 4 Imagem demonstrando a composição das exportações chinesas, extraída do Atlas da Complexidade Econômica” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ec/2014_China_Products_Export_Treemap.png

Imagem 5 Imagem demonstrando a composição das exportações brasileiras, extraída do Atlas da Complexidade Econômica” (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:2014_Brazil_Products_Export_Treemap.png

About author

Mestrando em Estudos Contemporâneos da China pela Renmin University of China (RUC) e pesquisador afiliado pela Silk Road School. Mestre em Relações Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Possui especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). Agente consular junto ao Consulado Honorário da França em Porto Alegre, atuando paralelamente no escritório RGF Propriedade Intelectual, no período de 2013-2016.
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