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Paradiplomacia em tempos de crise

Com o agravamento da crise institucional no Brasil e o aumento dos reflexos da crise econômica que enfrenta o país, as atividades diplomáticas foram reduzidas de forma drástica, promovendo um parêntesis na política externa brasileira – que cresceu consideravelmente durante a gestão do ex-presidente Lula – e, aos poucos, foi sendo reduzida durante o primeiro mandato da atual presidente Dilma Rousseff.

A instabilidade existente no Brasil se reflete em suas atividades no âmbito internacional, da mesma forma que o cientista político americano Robert Putnam descreveu em sua teoria denominada “jogo de dois níveis, onde as ações do cenário interno e do cenário externo se vinculam e se retroalimentam de forma constante.

O Brasil foi afetado por fatores externos no decorrer dos últimos anos, desde a crise financeira internacional à redução histórica do preço das commodities e do petróleo, assim como as oscilações dos juros e da moeda americana.  Por outro lado, a falta de reformas estruturais internas e da formulação de novas políticas para reduzir o impacto das mudanças internacionais, acabou engessando o país em uma difícil situação, algo que ficou refletido nas últimas avaliações realizadas pelas principais agências de risco.

Durante este ano de 2015, a instabilidade regional também pressionou o Brasil devido a sua participação no Mercosul e as mudanças anunciadas em seus membros, de modo que a atividade diplomática regional permaneceu praticamente paralisada.

Diante desse panorama, a cidade de São Paulo – paradoxalmente governada pelo mesmo partido da Presidência – foi classificada como boa pagadora pelas agências de classificação, colocando em evidencia a crescente fragmentação da atividade internacional dentro do Brasil e sinalizando um caminho que pode vir a ser seguido por outros municípios.

As atividades internacionais realizadas por qualquer Município ou Estado formam parte da Paradiplomacia, sendo a mesma uma importante ferramenta na obtenção de competitividade e maior articulação internacional.

Em tempos de crise, Municípios e Estados com experiência em Paradiplomacia possuem uma importante ferramenta para evadir a redução da atividade diplomática, e conseguir manter seus interesses negociando no cenário internacional e minimizando o impacto da paralisação dos órgãos federais ou do ritmo reduzido das negociações de novos Tratados e Acordos (como o que está sendo avaliado entre o Mercosul e a União Europeia).

Entre os benefícios que a Paradiplomacia pode oferecer aos Municípios e Estados em meio a uma crise nacional estão: a possibilidade de atrair investimentos estrangeiros, elaborar acordos de cooperação e transferência tecnológica, promover eventos, organizar missões comerciais, gerar políticas de atração de investimentos e, até mesmo, obter recursos de instituições financeiras internacionais.

A Paradiplomacia permite que não exista uma completa paralização da atividade internacional de um Município ou Estado, reduzindo sua dependência do Governo Central e viabilizando a adoção de medidas mais coerentes com a realidade de cada região e de forma mais dinâmica. Cabe lembrar que a área surgiu logo após a II Guerra Mundial, justamente com o objetivo de aumentar a sinergia entre diferentes cidades em reconstrução na Europa, evitando o lento processo diplomático oficial.

Os Estados e Municípios brasileiros devem ampliar suas atividades na esfera internacional e, dessa forma, manter ou aumentar os níveis de investimento estrangeiro e a venda de seus produtos. Promovendo, por outro lado, uma menor carga para as instituições responsáveis pela diplomacia oficial do país e permitindo que a mesma possa lidar com a redução orçamentaria decorrente da crise econômica.

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Imagem (Fonte):

http://virtualmarketingpro.com/blog/luizneto/wp-content/uploads/sites/510/2014/12/RECESS%C3%83O.jpg

About author

Pesquisador de Paradiplomacia do IGADI - Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e do OGALUS - Observatório Galego da Lusofonia. Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha (ACCIÓ). Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e Mestrando em Políticas Sociais com especialidade em Migrações na Universidad de La Coruña (España), Mestrado em Gestão e Desenvolvimento de Cidades Inteligentes (Smartcities) da Universitat Carlemany do Principado de Andorra e doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Global. Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Membro da Associação Internacional IAPSS para Estudantes de Ciências Políticas, do Smartcity Council, da aliança Eurolatina para Cooperação de Cidades, ECPR Consório Europeo de Pesquisa Política e da rede Bee Smartcities. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça e atualmente reside na região da Galícia (Espanha).
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