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ANÁLISES DE CONJUNTURAEUROPA

Partido de Gales quer um referendo para sair do Reino Unido

Durante os meses de setembro e outubro, os partidos britânicos tendem a fazer suas conferências nacionais, onde alinham suas políticas e debatem o futuro do Reino Unido. Neste ano (2018), assim como tem ocorrido ultimamente, o principal debate gira em torno da questão do Brexit, sendo que os maiores partidos do país – Conservadores, atualmente no Governo; e Trabalhistas, de oposição – abordam,  sobretudo, a negociação com a União Europeia (UE), a respeito de como será a relação entre a ilha e o continente a partir de março do próximo ano (2019).

Protesto contra a fronteira rígida entre as Irlandas

Uma das conferências que chamou a atenção foi a do partido Plaid Cymru, do País de Gales. O seu novo líder, Adam Price, defendeu que os galeses deveriam ter o direito de decidir se permanecem no Reino Unido após o Brexit, aparentemente nos mesmos moldes adotados pelos escoceses em 2014, quando houve um referendo sobre a saída da Escócia, tendo resultado negativo.

A votação na Escócia de quatro anos atrás inspirou movimentos não apenas dentro do Reino Unido, mas também em outras regiões. O principal exemplo é a Catalunha que, motivada pelo referendo, reanimou manifestações para sua independência e solicitou ao Governo Espanhol um sufrágio nos mesmos moldes, mas isto foi vetado. Voltando à Coroa britânica, o caso escocês ainda é recorrente, a partir da vontade do Partido Nacional Escocês (SNP, na sigla inglesa) em fazer um novo escrutínio, uma vez que o país se encontrava inserido na política europeia e houve uma mudança de cenário inesperada que pode mudar a vontade do seu povo. Vale lembrar que os escoceses votaram pela permanência na UE, assim como a Irlanda do Norte.

A Irlanda do Norte, por sua vez, também tem aventado um debate mais caloroso, a partir da indefinição quanto ao Backstop, ou seja, o plano a ser adotado para evitar um controle de fronteira mais rígido entre os irlandeses e norte-irlandeses. Esta é a principal dificuldade nas negociações entre o Reino Unido e a UE. Isso porque não há um consenso sobre como será feito o controle de bens e mercadorias que transitarão entre as Irlandas, a partir do momento em que os britânicos não farão mais parte da organização europeia.

Apesar disso, o debate da reunificação do Norte com o Sul ainda está distante de ser reavivado, o que não parece ser o caso de Gales, pelo menos no discurso do novo líder do partido galês. Entretanto, por mais que a retórica remonte a outros momentos separatistas recentes no país, a atuação do Plaid Cymru está longe de ser contundente. Em Westminster, onde fica o Parlamento Britânico, o partido nunca conseguiu chegar a cinco cadeiras, sendo que o País de Gales tem direito 40 assentos. Já na Assembleia de Gales, este partido nunca teve a maioria da Casa, demonstrando o quão difícil seria para passar uma lei também dentro da região galesa.

Alex Salmond, Ex-Primeiro-Ministro da Escócia e Nicola Sturgeon, atual Primeira-Ministra da Escócia

A inspiração vem mesmo da Escócia. O SNP ganhou mais notoriedade dentro da região após o referendo de 2014. Nas eleições gerais do ano seguinte, o partido passou de 6 para 56 assentos, sendo que a Escócia detém 59 assentos no Parlamento. Portanto, caso o Plaid Cymru conseguisse, de fato, que um referendo fosse realizado em Gales, poderia alavancar o seu próprio poder nesta região.

O cenário que vem se estabelecendo ao longo dos últimos anos é o de fragmentação da Coroa britânica. Em primeiro lugar, o Brexit demonstra a divisão clara que existe, pois, as regiões centrais como Londres e as periféricas como Irlanda do Norte e Escócia queriam a permanência do Reino Unido na UE; enquanto que o interior inglês e o País de Gales votaram maciçamente pela saída da organização europeia.

Em segundo lugar, há um receio de que o Reino Unido passe por outra crise econômica, gerada pela perda de investimentos e queda da moeda, pior ainda do que ocorreu em 2008 em toda Europa. As ameaças de empresas e Bancos de tirarem seus negócios do país coloca empregos em risco, podendo gerar uma crise sem precedentes. Por fim, ainda há um debate sobre a manutenção da Monarquia como forma de Governo. Isso porque a figura do Príncipe de Gales, Charles, não é querida para assumir o lugar de sua mãe, a atual Rainha Elizabeth II, sugerindo que se decline do sistema monárquico e passe a ser uma República.

Todos esses elementos somados indicam que o país deva passar por momentos turbulentos e demonstrar força perante o sistema internacional. O histórico político do Reino Unido é composto por inúmeras mudanças radicais, sendo algumas pioneiras, demonstrando quão politizada é a Coroa. Resta saber, agora, como estes movimentos vão se desencadear e como irão apontar para as políticas a serem adotadas. O Brexit não é somente um movimento inesperado, mas um divisor de águas na sua própria história.

 

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Protesto anti-Brexit em Manchester” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:IMG_2808_Manchester_anti-Brexit_protest_for_Conservative_conference,_October_1,_2017.jpg

Imagem 2Protesto contra a fronteira rígida entre as Irlandas” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Republic_of_Ireland%E2%80%93United_Kingdom_border#/media/File:No_Border_No_Barrier.jpg

Imagem 3Alex Salmond, Ex-Primeiro-Ministro da Escócia e Nicola Sturgeon, atual Primeira-Ministra da Escócia” (Fonte):

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:A_National_Conversation_launch.jpg

                                                                                             

About author

Bacharel em Defesa e Gestão Estratégica Internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval (PPGEM/EGN). É pesquisador do Núcleo de Avaliação da Conjuntura, participando da produção do Boletim Geocorrente, ambos da mesma instituição. Suas principais áreas de interesse envolvem as políticas de Defesa do Reino Unido, com enfoque na Marinha; Brexit e movimentos separatistas europeus; questões marítimas globais; e Geopolítica.
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