AMÉRICA LATINAANÁLISES DE CONJUNTURA

Pesquisa indica que Morales ainda tem apoio da maioria do povo boliviano

Segundo resultados divulgados pela empresa de consultoria IPSOS, em sondagem feita na quinta-feira, dia 21 de fevereiro, 54% da população boliviana apóia a candidatura de Evo Morales para as eleições presidenciais que se realizarão em 2014. A pesquisa foi realizada em 70 cidades, nos 9 Departamentos bolivianos, percorrendo tanto a área rural quanto a urbana e apresenta margem de erro de 2,07%, com estimativa de confiabilidade de 95%, de acordo com o portal online “Vermelho[1], que disseminou  a notícia tendo como fonte a Adital. Ainda conforme divulgado, este percentual corresponde exatamente aquele que elegeu o Presidente em 2005 e a região que mais apóia a indicação de Morales para concorrer novamente ao cargo pelo seu Partido, o “Movimiento al Socialismo” (MAS), é Pando, ao norte da Bolívia.

Observadores analisam as razões deste apoio apresentado ao Presidente (assumindo-se que a pesquisa apresenta confiabilidade), diante de um cenário muito recente em que parte significativa da população voltou-se contra o Governo e o governante Morales perdeu vários apoiadores nos sindicatos, nos movimentos sociais e nos grupos indígenas que se manifestaram, inclusive de forma violenta, contra os projetos de infra-estrutura, mais recentemente contra a construção da estrada de rodagem que passará pelo “Territorio Indígena y Parque Nacional Isiboro-Secure” (TIPNIS).

Os analistas vem destacando que há dois aspectos comportamentais que têm sido ressaltados pelo Presidente ao longo de 2012: (1) a aceleração do processo de estatização das empresas privadas no país, em especial das estrangeiras (nas nacionalizações), e (2) o embate constante com o Chile acerca da recuperação do “Mar Territorial” boliviano.

Em relação as estatizações, neste mês de fevereiro, no dia 18, Morales “nacionalizou” a “Servicios de Aeropuertos Bolivianos Sociedad Anônima” (Sabsa), subsidiária de operação de aeroportos que estava sob propriedade do grupo espanhol Abertis-Aiports, o qual assumiu a Sabsa em 2005, atuando nos aeroportos de “La Paz”, “Santa Cruz” e Cochabamba.

Naquele momento, o Governo espanhol declarou que pretende “redefinir o conjunto das relações bilaterais” com a Bolívia [2] e, em comunicado do seu “Ministério das Relações Exteriores”, afirmou que “O Governo espanhol considera esta expropriação como um ato não-amistoso que se soma a medidas similares empreendidas nos meses recentes contra outras empresas espanholas na Bolívia[2], referindo-se ao fato de que esta é a sexta empresa de origem espanhola a ser nacionalizada nos últimos 12 meses.

No dia da nacionalização (dia 18), Morales justificou as incorporações alegando falta de investimentos das empresas, que descumpriram, por isso, os Acordos firmados. Na sexta-feira passada, dia 22, ele repetiu o discurso, mas foi mais rígido, incorporando um  conteúdo nacionalista, provavelmente voltado ao consumo doméstico em seu país, aproveitando o momento de sua presença como um dos poucos chefes de Estado da “América do Sul” em Malabo, na “Guiné Equatorial”, onde participa da “Terceira Cúpula America do Sul – África (ASA)”

O Presidente defendeu a postura adotada acusando novamente as empresas estrangeiras de apenas terem explorado a Bolívia. Declarou: “só colheram prata e prata. (…). …sob pretexto do mal chamado capitalização… (de) 1997 a 2005, zero investimento. (…). Quando se diz capitalizar, é preciso investir e melhorar o aeroporto, o terminal. Mas no registro do Ministério de Transportes, não há nenhum investimento[3].

Acrescentou que os recursos foram destinados apenas para manutenção e “Investir em manutenção não significa investimento[3]. Além disso, ressaltou o rendimento do diretor da empresa que, segundo declarou, ganha 18 mil dólares mensais, para usar este fato como uma constatação do alto lucro empresarial e para justificar o questionamento acerca da falta de mais investimento no país, tanto que, para destacar ainda mais o problema, comparou o salário do executivo da empresa com o seu de Presidente da Bolívia e exortou o povo e o Governo espanhóis a apoiarem sua política de nacionalizações por uma exigência de “honra”.

Afirmou: “É o que eu ganho em 9 meses, mas sem ele fazer nenhum investimento… (…). …algumas empresas só se apossam das outras para ganhar prata sem investir nada… (…). Quero dizer ao governo, povo e aos partidos políticos espanhóis que defender as empresas que se dedicam a roubar e a saquear sem investir desprestigia ao governo e o povo… (…). …o governo espanhol se equivoca ao defender essa empresa[3]. Ainda assim, a Bolívia “vai manter relações diplomáticas com todo o mundo[3] .

Conforme os especialistas vem apontando, esta política faz parte de um planejamento para seu grupo controlar os pontos estratégicos (recursos naturais – como gás e minérios – e os serviços públicos) e conseguir realizar uma planificação geral, sem ter de dialogar com a iniciativa privada [[4], especialmente com as grandes empresas estrangeiras que investem na Bolívia e com os Bancos.

Ou seja, a aceleração das estatizações coloca-se como necessária para poder dar andamento ao seu projeto político, que se configura na planificação geral do país, mas, em termos de ascensão e permanência no poder, precisa de algo mais palpável como o cumprimento das metas do programa eleitoral que o elevaram à Presidência da República e depois se configuraram como programa de governo.

Tal postura estratégica de se apresentar como cumpridor do programa apresentado tem sido reforçada pelos constantes atritos com o Chile reivindicando a saída para o mar, já que esta é outra promessa de campanha. A situação de diálogo ríspido, adequada à tática mobilizadora da população para garantir solidariedade ao Governo, foi robustecida, por exemplo, pelo recente contencioso envolvendo a prisão no dia 25 de janeiro de três militares bolivianos, quando foram encontrados em território chileno, em Colchane (Tarapacá), a 1987 quilômetros ao norte de Santiago, carregando um fuzil.

No dia 14 de fevereiro, aniversário da “Guerra do Pacífico”, Morales discursou lembrando da perda do território para o Chile e elevou estes soldados à categoria de heróis da pátria, “defensores do mar”, independente da real dimensão do problema que está envolvendo os militares. Afirmou: “Nossos três soldados agora são grandes defensores do mar. Como reivindicamos o tema do mar, (Chile) quer se vingar com três soldados e nossos soldados são grandes heróis do mar e nunca vamos abandoná-los[5].

Para alguns analistas, em face desse cenário e da estratégia que vem sendo seguida pelo governante, o suposto apoio a Morales identificado pela pesquisa certamente decorre das mudanças que ele realizou, viabilizadas pelas constantes estatizações que geraram imediatamente recursos ao país, mas também emana do fato de ele ter criado um segmento dependente do Estado boliviano que sabe não poder permitir o abandono das políticas assistencialistas de inclusão social realizadas ao longo dos últimos anos, pois não teria condições de sobreviver sem elas, já que o Estado não vem permitindo o surgimento de alternativas a ele. 

Destacam ainda os observadores que o apoio também decorre da manutenção do projeto eleitoral original, apesar dos obstáculos que surgiram e dos desvios de conduta (tais como o aparelhamento do Estado pelo Partido, o índice de corrupção, o suposto envolvimento com o narcotráfico e os erros administrativos dos quais o Governo é acusado), e da permanência dos debates pela retomada do mar territorial, fator que geraria mais divisas ao país, além do “elemento honra” que percorre a população boliviana quando se trata do assunto.

Tal postura produziu resultados e pode estar se refletindo nos índices apresentados neste momento pela empresa IPSOS, mas não há certeza de que ela também signifique a repetição do índice que elegeu Morales em 2005, nem que os 54% que desejam que o mandatário seja indicado pelo MAS, venham se reproduzir numa eleição presidencial em 2014, pois as críticas e desgastes que ele também sofreu ainda se mostram presentes, tal qual ocorreu em manifestação na cidade de Oruro, onde se deu uma greve de 24 horas contra a proposta de o novo aeroporto da cidade receber o nome de Evo Morales, ao invés do nome do herói nacional da aviação, Juan Mendoza.

A greve foi convocada por líderes regionais e sindicais, tendo permanecido fechados o comércio e os Bancos no dia 19 passado, terça-feira. Sonia Saavedra, “Presidente do Comitê Cívico”, declarou: “É a cidadania a que saiu às ruas para dizer basta a este atropelo que sofremos por parte da assembleia e do governador Santos Tito[6]. O objetivo, segundo consta, é levar o Legislativo e o executivo de Oruro, partidário do Governo, a anular a Lei e fazer com que o Aeroporto volte a ter o nome original.

Acontecimentos como este trazem dúvidas sobre uma provável manutenção de apoio da população para Morales até 2014, tal qual foi noticiado. No entanto, há um fator que pende a favor do Presidente e talvez seja o mais importante deles, sendo esta percepção compartilhada por muitos observadores: a falta de um nome forte capaz de se contrapor a Evo Morales, tanto por parte da oposição ideológica, quanto por parte dos demais opositores que venham dos movimentos sociais, dos movimentos indígenas e dos demais partidos de esquerda.

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* Imagem Evo  Morales (Fonte Wikipédia):

http://pt.wikipedia.org/wiki/Evo_Morales

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=7&id_noticia=206634

[2] Ver:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/02/bolivia-nacionaliza-subsidiaria-aeroportuaria-da-espanhola-abertis.html

[3] Ver:

http://br.noticias.yahoo.com/morales-acusa-abertis-aena-colher-prata-bol%C3%ADvia-investir-234610361.html

[4] Ver:

http://www.sul21.com.br/jornal/2013/02/evo-morales-nacionaliza-rede-de-aeroportos-da-bolivia/

[5] Ver:

http://www.infolatam.com.br/2013/02/15/em-aniversario-da-guerra-do-pacifico-morales-condena-invasao-chilena/

[6] Ver:

http://noticias.r7.com/economia/noticias/cidade-da-bolivia-protesta-contra-aeroporto-batizado-com-nome-de-evo-morales-20130219.html

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Ver também:

http://veja.abril.com.br/noticia/economia/morales-expropria-filial-espanhola-sabsa-que-administra-aeroportos-no-pais–2

Ver também:

http://www.agazeta.net/manchetes/mpolitica/17606-asterio-diz-que-evo-morales-transforma-bolivia-num-narcoestado.html

 

 

About author

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.
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