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Podemos e a nova esquerda europeia

A Espanha, assim como diversos países da Europa, foi durante muito tempo caracterizada pelo bipartidarismo, havendo uma divisão entre um Partido conservador, de direita, e outro socialdemocrata, de esquerda, sendo comum a alternância desses partidos no poder, produzindo ciclos econômicos e sociais, ora mais liberais e focados na economia, ora mais voltados à esfera social e ao desenvolvimento humano.

Com os efeitos da Crise Financeira Internacional e sua prolongação com a Crise do Mediterrâneo, a Europa começou um ciclo de reformulação política nos países mais afetados. A sociedade não se reconhece nos partidos tradicionais, principalmente em países com elevado grau de corrupção, tais como Espanha, Itália e Grécia, o que gerou novas forças políticas, tanto de direita como de esquerda, para disputar o poder nesses países.

As medidas implementadas para a contenção da crise na Europa promoveram o contínuo desgaste dos serviços públicos e a redução dos benefícios sociais, gerando a insatisfação da população devido à redução da qualidade de vida, que chegou a um patamar próximo dos anos 70.

A Espanha, junto à Grécia, são os países que tiveram maiores mudanças no cenário político com o surgimento de Partidos, tais como o Podemos na Espanha e o Syriza na Grécia. Esses apareceram como resposta da sociedade ao aumento da desigualdade e aos efeitos da crise.

Na Espanha, mais de 2,3 milhões de crianças estão ameaçadas pela fome e dependem do colégio para poder ter acesso à alimentação básica. O país também sofreu uma onda de desapropriações e mais de 400 mil famílias perderam suas casas para os Bancos e instituições financeiras. Houve também mudanças radicais no sistema previdenciário, leis laborais e contratuais, assim como redução de gastos nas áreas da saúde, segurança e educação.

Nesse cenário de retração social surgiu o partido socialista Podemos, liderado pelo professor universitário Pablo Iglesias, que denuncia não somente as medidas tomadas pelo Governo, mas também busca reformular o sistema econômico espanhol, através de profundas mudanças, tanto na sociedade como no sistema financeiro, dando maior autonomia ao país frente às decisões tomadas pelas potências europeias, caracterizando uma nova esquerda diferente da existente, que é mais alinhada aos interesses da União.

O Partido já governa importantes cidades, tais como Barcelona, segunda maior da Espanha, e, nas eleições gerais realizadas no dia 20 de dezembro de 2015, conquistou o lugar de terceira maior força política, sendo uma peça fundamental para a composição de uma maioria parlamentar necessária para constituir Governo, embora as negociações dos dois partidos vencedores não tenham obtido resultados e o Rei Felipe VI tivesse de dissolver o Parlamento, convocando novas eleições para o dia 26 de junho de 2016.

Frente a essa nova eleição, o Podemos se aliou ao partido IU (Esquerda Unida), formando a coalizão “Unidos Podemos”, que já se posiciona como segunda maior força política da Espanha, substituindo ao PSOE (Partido Socialista Obreiro Espanhol), que representa a esquerda tradicional na Espanha, disputando as eleições com o PP (Partido Popular), que representa a direita no país.

A campanha política do Podemos tem sido constantemente criticada pelos setores tradicionais da Espanha, sejam eles de direita ou de esquerda. Pablo Iglesias é considerado por muitos um líder populista parecido aos existentes na América Latina e sua relação no passado com o Governo de Hugo Chávez gerou diversas opiniões.

A situação política da Venezuela se transformou, desde então, em um fator importante nas eleições espanholas, por atuar como parâmetro de qual será a política espanhola na América Latina e para o alinhamento da política externa espanhola, que é o maior investidor nos países latinos, tanto que, citando a Venezuela, esta já foi visitada tanto por novas forças de direita, como o partido Cidadãos, como por líderes de esquerda.

O clima político espanhol reflete as mudanças que sofre o continente e os desafios sociais da União Europeia. A Espanha é a quarta economia do Bloco e possui uma das populações mais idosas, além do desafio contínuo do desemprego e os efeitos da globalização e da ampliação da União Europeia no sistema produtivo, sendo, sem dúvida, o espelho dos problemas que enfrentarão outros países da União.

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Imagem (Fonte):

http://0www.ecestaticos.com/imagestatic/clipping/c0e/7c6/1c7/c0e7c61c7ea05294a529cdd43e776964/podemos-capitaliza-el-cambio-municipal-y-se-dispara-alli-donde-gobierna.jpg?mtime=1450691395

About author

Pesquisador de Paradiplomacia do IGADI - Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional e do OGALUS - Observatório Galego da Lusofonia. Atuou como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha (ACCIÓ). Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latino-americano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e Mestrando em Políticas Sociais com especialidade em Migrações na Universidad de La Coruña (España), Mestrado em Gestão e Desenvolvimento de Cidades Inteligentes (Smartcities) da Universitat Carlemany do Principado de Andorra e doutorando em Sociologia e Mudanças da Sociedade Global. Fundador do thinktank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais. Membro da Associação Internacional IAPSS para Estudantes de Ciências Políticas, do Smartcity Council, da aliança Eurolatina para Cooperação de Cidades, ECPR Consório Europeo de Pesquisa Política e da rede Bee Smartcities. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça e atualmente reside na região da Galícia (Espanha).
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