fbpx
NOTAS ANALÍTICAS

Polêmica sobre o apoio da China à África

Deborah BrautigamAs relações China-África vão se tornando mais complexas e têm dado origensa relatos noticiosos reais e fictícios”, tanto na Mídia Ocidental como Africana. Devido ao caráter secreto dos acordos feitos com os diferentes países africanos, também graças a não divulgação de estatísticas oficiais pelos países aos quais a China fornece apoio e a falta de clareza sobre a natureza do financiamento, muitas vezes os jornalistas são levados especular sobre a quantidade dos recursos, bem como chegam a confundir a moeda chinesa (Yuan) com o dólar americano ao fazer a avaliação dos valores, além de não entender os moldes da assistência dada pela China à África.

De igual forma, não raras vezes se tem reportado realidades, mas também mitos sobre a presença chinesa no continente. Como exemplo ilustrativo, em muitas análises postadas na mídia internacional por especialistas, se alude queos chineses estão lá só para levar a riqueza ou ocupar a terra da população local, levar o emprego dos africanos, sustentar regimes corruptos e ditatoriais etc.” e informações de dados como estas constituem a fonte principal de estudiosos e analistas. Comprovando o problema gerado, um estudo publicado há dias concluiu que em 10 anos “a China forneceu à África um apoio global de 75 bilhões de dólares[1], mas logo foi criticado por alguns investigadores  e observadores.

O relatório sobre o apoio da China à África entre 2001 e 2011conjuntamente produzido e tornado público pela “AidData e pelo “Center for Global Development” (sediadas em “Washington D.C.”) causou polêmica entre os especialistas da área. Criticou-se a falta de rigor na coleta de dados (provenientes da Mídia) alegando-se que terá contribuído para conclusões não corretas. Por exemplo, atribuem-se valores muito superiores aos reais por quantificar o que na verdade ainda não se financiou, ou reportar que são os chineses que financiam certos projetos quando muitos observadores apontam que são outros parceiros, embora a construção seja feita por empresas chinesas, como é o caso de uma barragem que esta sendo construída no Sudão[2].

A respeitada investigadora americana Deborah Brautigam, no seu Blog, vem chamando atenção a jornalistas e pesquisadores sobre o uso exagerado de dados estatísticos não corretos e sobre possíveis criações de estórias a respeito da presença chinesa na África. O exemplo mais claro é o que emergiu em 2007, o qual dizia que “colonos chineses” pretendiam ocupar as margens do “Rio Zambeze”, em Moçambique, para fazer campos agrícolas com o intuito de alimentar a China.

De igual forma, neste novo Relatório ela detectou uma discrepância significativa sobre o valor do financiamento da construção de um centro de pesquisa agrícola em Moçambique: 700 milhões de dólares contra os verdadeiros entre 8 e 9 milhões[3]

A autora reconhece que há também certos exageros na Mídia chinesa. Mas ela afirma que o apoio da China ao continente “é menor do que se pensa[4], de igual modo, “os investimentos chineses na África não passam dos 5% do que se investe no estrangeiro[4]. Mais ainda, duvida que “os empréstimos[4] para a construção de infra-estruturas públicas, bonificados ou as vezes ao preço do mercado, que os africanos recebem sejam “uma moeda de troca pelos recursos naturais[4] de que tanto interessam a indústria chinesa.

No entanto, para além de considerações políticas, ela reconhece que o que move a China à África são os recursos naturais (o que é o mesmo para outros países que têm corrido para o continente), oportunidades de negócio e a expansão das empresas chinesas para ganharem experiência antes de deslocarem para outros mercados mais atrativos, no contexto da política do governo chinês que incentiva empresas nacionais para investirem no exterior (zou chuqu zhanlue, em chinês)[4]. 

———————–

Imagem (Fonte):

http://china.usc.edu/ShowArticle.aspx?articleID=1979

—————————–

Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://international.cgdev.org/publication/chinas-development-finance-africa-media-based-approach-data-collection

[2] Ver:

http://www.chinaafricarealstory.com/2013/04/rubbery-numbers-on-chinese-aid.html

[3] Ver:

http://www.chinaafricarealstory.com/2013/04/rubbery-numbers-on-chinese-aid.html

[4] Ver:

http://www.chinaafricarealstory.com/2013/05/aiddata-why-it-is-not-wikipedia.html

——————————

Ver também:

http://www.lowyinterpreter.org/post/2013/05/02/Chinese-aid-to-Africa-A-detective-story.aspx

Ver também:

https://ceiri.news/wp-content/uploads/2013/05/Brautigam_NYU_Chinese.pdf

Ver também:

http://storify.com/witschinaafrica/the-aiddata-database-debate-heats-up.html

Ver também:

http://www.developmentgateway.org/news/open-china-data-disruptive-gateway-drug 

About author

De Nacionalidade Moçambicana, é mestrando em História do Mundo no Instituto de Estudos Africanos da Universidade Normal de Zhejiang, na China. Graduado em História pela Universidade Eduardo Mondlane em Maputo (2007). Possui experiência na docência de disciplinas de História Geral e da África Austral. Interesses: História de Moçambique, relações China-Moçambique, política externa chinesa no nordeste e sudeste da Ásia, relações China-África, cultura cibernética popular na China. Fala Português, Inglês, Francês e conhecimento razoável de chinês.
Related posts
ÁSIAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Fundo Monetário Internacional estima crescimento da economia chinesa em quase 2%, contrariando tendência mundial

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Conselho Europeu se reúne para tratar de ação conjunta europeia para combater a COVID-19

NOTAS ANALÍTICASPARADIPLOMACIA

As cidades mais caras da América Latina

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Resposta à COVID-19 nas Américas pode sofrer transformação a partir de novos testes rápidos

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!