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A política externa do Qatar e as tensões com países do Golfo

Como observado em junho do ano passado[1], o atual conflito sírio e as crescentes tensões no Líbano, marcados ambos por uma polarização sunita-xiita, faz com que alguns analistas, como Geneive Abdo[2], tendam a generalizar essa dimensão conflituosa e aplicá-la para todo o “Oriente Médio”.

No entanto, como já apontado[1], essa perspectiva acaba por obliterar outras importantes dinâmicas também responsáveis por complexificar a situação interna de países do “Oriente Médio” e “Norte da África”. Acompanhando a análise de Marc Lynch[3], as tensões internas no Egito, na Líbia e na Tunísia derivam menos da dicotomia sunita-xiita e mais da oposição entre movimentos islamitas e o secularismo.

É nesse contexto que se torna possível entender a recente decisão, no último dia 5, da “Arábia Saudita”, dos “Emirados Árabes Unidos” e do Bahrein de retirar seus embaixadores do Qatar[4]. Oficialmente, essa decisão foi justificada pelo não cumprimento, por parte do Qatar, de um acordo assinado em 23 de novembro  de 2013, segundo o qual o país se comprometia a não intervir direta ou indiretamente nos assuntos internos de países do “Conselho de Cooperação do Golfo” (CCG) e “não apoiar qualquer atividade que possa ameaçar a segurança e a estabilidade de qualquer um dos países do CCG […], incluindo suporte para mídia hostil[4].

Contudo, em uma análise mais ampla, como a de Elizabeth Dickinson para o portal da revista “Foreign Policy[5], a atitude dos países do CCG é o resultado de três anos de acirramento das tensões entre o Qatar e outros países do Golfo no que concerne a forma de lidar com a influência da “Irmandade Muçulmana”.

De acordo com Marc Lobel[6], esses três países vinham tentando evitar tomar uma tal medida drástica, esperando que o novo Emir qatari, Sheikh Tamim bin Hamad al-Thani[7], abandonasse o que eles consideravam políticas impopulares no Egito, na Líbia, na Tunísia e na Síria.

Na linha dicotômica que separa secularismo e islamismo, o Qatar tem pesado sua política externa em favor do segundo. O país tem sido um dos apoiadores da “Irmandade Muçulmana” nas últimas décadas, chegando a utilizar a emissora de televisão jornalística “Al Jazeera” como instrumento de suporte à Irmandade. Por exemplo, no ano passado, o Qatar deu ao líder religioso egípcio Sheikh Yusuf al-Qaradawi espaço na emissora para manifestar seu apoio às revoluções árabes nos quatro países citados[1][8].

Nos termos do acordo mencionado acima, tal apoio afeta a segurança dos países do CCG uma vez que a “Irmandade Muçulmana” é vista como um grupo terrorista[9]. No que diz respeito à Líbia, o governo qatari não apenas proveu amparo a rebeldes islamitas com armas para lutar contra Gaddafi, como continua enviando armamentos mesmo após a queda do ditador[8]. Ao mesmo tempo, a ascensão e queda da influência política qatari na Líbia tem acompanhado o “Partido da Justiça e da Construção”, o partido da “Irmandade Muçulmana na Líbia[6], que deixou o Governo do país (no qual participava com cinco ministros) em janeiro desse ano por falta de apoio a uma moção para censurar o primeiro-ministro líbio Ali Zeidan[10].

De forma similar, a popularidade do Qatar no Egito caiu junto com Morsi (eleito como candidato da Irmandade), em junho do ano passado, o que impactou o então recentemente empossado Emir qatari, dada o suporte financeiro de 8 bilhões de dólares[11] que o país já havia fornecido ao Egito na época em que Morsi governava.

Da mesma forma, na Tunísia, a saída do governo do partido islamita Ennahda[12], inspirado pela “Irmandade Muçulmana” – embora de posição mais moderada – e também alvo de apoio massivo do Qatar (cerca de meio bilhão de dólares)[13], levou à diminuição da influência qatari no neste Estado.

Quanto à Síria, e retomando o parágrafo inicial desta nota, a dimensão xiita-sunita do conflito, que polariza os atores envolvidos pondo, de um lado, o Governo de Assad, e, de outro, a Oposição (respectivamente), coexiste com uma dicotomia secularismo-islamismo responsável por fragmentar essa oposição[14].

Nesse cenário, a rivalidade entre “Arábia Saudita” e Qatar se manifesta não entre os dois principais lados do conflito, mas nos múltiplos atores que compõem uma complexa “oposição a Assad”, uma vez que os dois países do Golfo vêm fornecido apoio a diferentes grupos rebeldes[1][3].

Ainda assim, também na Síria o país perdeu influência quando, em janeiro deste ano (2014), o candidato (apoiado pelo Qatar) à liderança da “Coalizão Nacional Síria” (CSN) – o antigo primeiro ministro sírio Riyad Hijab – perdeu por pouco para o candidato apoiado pela “Arábia Saudita”, Ahmad Jarba[15].

Face a essas derrotas no que parece ser uma busca por projeção política e formação de alianças em países do “Oriente Médio” (que constitui parte de uma luta por hegemonia no Golfo cujo principal oponente é a “Arábia Saudita”) e face à retirada dos embaixadores saudita, bareinita e emiratense, o Qatar parece estar sozinho.

Ainda assim, o bloco da CSN apoiado pelo Qatar, que havia deixado a Coalizão antes das conversas de paz de janeiro, em Genebra, decidiu retornar, o que foi entendido como uma tentativa de minar o apoio a Jarba, atual presidente da Coalizão, que enfrentará novas eleições em julho deste ano[15].

Em resposta, uma “Arábia Saudita” irritada ameaçou bloquear o Qatar por terra e mar, a menos que o país corte laços com a “Irmandade Muçulmana”, feche a emissora “Al Jazeera” e expulse duas filiais qataris dos think tanks americanos, o “Brookings Doha Center” e o “Rand Qatar Policy Institute[16].

Em um cenário em que o Qatar parece estar sozinho, curiosamente, é a “Arábia Saudita” que parece estar tomando as medidas mais drásticas diplomaticamente.

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ImagemEgípcios queimam bandeira qatari em frente à embaixada do Qatar, em protesto de dezembro” (Fonte):

http://www.aljazeera.com/news/middleeast/2013/11/protests-at-qatari-embassy-egypt-20131130215617791306.html

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/observando-a-dimensao-sunita-xiita-da-politica-no-oriente-medio/

[2] Ver:

http://edition.cnn.com/2013/06/07/opinion/abdo-shia-sunni-tension/index.html?iref=allsearch

[3] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/05/23/war_for_the_arab_world_sunni_shia_hatred

[4] Ver:

http://edition.cnn.com/2014/03/05/world/meast/gulf-qatar-ambassadors/

[5] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/03/05/how_qatar_lost_the_middle_east

[6] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-26517134

[7] A respeito da transição política no Qatar, em junho do ano passado, ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/transicao-politica-no-qatar/

[8] Khatib, L. (2013). “Qatar’s foreign policy: the limits of pragmatism”. International Affairs, v. 89, n. 2, pp. 417-431; p. 423.

[9] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-26487092

[10] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-africa-25832818

[11] Ver:

http://www.ft.com/cms/s/0/af5d068a-e3ef-11e2-b35b-00144feabdc0.html#axzz2vgQGKYN9

Para mais detalhes do envolvimento financeiro qatari no Egito antes da queda de Morsi, ver também:

http://www.al-monitor.com/pulse/originals/2013/04/qatar-egypt-financial-support-muslim-brotherhood.html

[12] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-africa-25832818http://edition.cnn.com/2014/01/09/world/africa/tunisia-government/

[13] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-africa-25832818http://www.middle-east-online.com/english/?id=62816

[14] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-africa-25832818http://www.jornal.ceiri.com.br/siria-fragmentos-da-oposicao/

[15] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-africa-25832818http://www.reuters.com/article/2014/03/09/us-syria-crisis-opposition-idUSBREA280Q820140309

[16] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-africa-25832818http://www.huffingtonpost.com/david-hearst/saudi-arabia-threatens-to_b_4930518.html

About author

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.
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