ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Posição japonesa no relatório The Soft Power 30

O Japão foi classificado na quinta posição de soft power pelo relatório The Soft Power 30 Report, atrás somente do Reino Unido, França, Alemanha e Estados Unidos. O país asiático vem subindo paulatinamente de posição a cada ano, avançando do 8ª lugar em 2015 para o atual 5º, o único a realizar tal feito. É também o único país asiático no top 10, e destaca-se pela alta posição apesar da barreira linguística. Em 2017, a 5ª posição era ocupada pelo Canadá.

A publicação, de criação e autoria de Jonathan McClory, em conjunto com o Centro de Diplomacia Pública da University of Southern California, com a consultoria Portland e demais colaboradores, realiza um ranking referente à eficácia do soft power mundial. Soft power, termo consagrado por Joseph Nye nos anos 1980, designa o poder de atração de Estados, uma forma não coercitiva de exercer o poder. Portanto, é uma estratégia de influenciar os demais atores indiretamente, de modo conciliador, adquirindo a capacidade de assumir o controle sobre outros países, moldando suas preferências, recorrendo ao fator ideológico por meio da persuasão e sedução, ou até mesmo o oposto, induzindo seus aliados a desprezarem algo que, na verdade, é a vontade do país que se utiliza desse recurso*, ou seja, ele objetiva exatamente que o outro dê pouca atenção a algo. Dessa forma, “um país é capaz de alcançar seus resultados desejados no mundo da política porque outros países querem imitá-lo ou concordam com um sistema que produza tais efeitos”**. Nye categoriza este “poder brando” em três categorias: valores políticos, cultura e política externa, nos quais o relatório se baseia, subcategorizando-os em 6 índices e utilizando 75 métodos de medições.

Os índices são: digital, que são os aspectos da infraestrutura e diplomacia digital; enterprise,  referente à atração do modelo econômico do país e capacidade de inovação; education, abrangendo atração de estudantes estrangeiros, nível do capital humano e oferta de bolsas de estudo; culture, medindo o alcance e atratividade cultural, incluindo tanto o aspecto pop quanto alta-cultura; engagement, que avalia o poder da rede diplomática pelo mundo e sua contribuição para o desenvolvimento e engajamento global; e, finalmente, government, que abrange questões como direitos humanos, democracia e qualidade das instituições governamentais.

Culinária japonesa

Esse bloco corresponde a 70% da pontuação, os 30% restantes são referentes a pesquisas de opinião, englobando tópicos como culinária, produtos tecnológicos, cortesia, política externa, qualidade de vida e produtos de luxo. A pontuação total do Japão é de 76,22, sendo as subcategorias relacionadas à educação, cultura e governo as melhores pontuadas.

Fatores que podem ser atribuídos ao sucesso japonês são a estabilidade política e econômica, além da alta qualidade e eficiência da infraestrutura, de produtos e inovações do país. Sua participação na política internacional é igualmente um ponto a não ser desconsiderado, uma vez que o Japão tem investido mais na promoção cultural e diplomática, tendo a 5ª maior rede diplomática do mundo.

O governo de Shinzo Abe, o Primeiro-Ministro japonês há mais tempo no cargo, tem aproveitado sua posição para se colocar mais atuante nos fóruns internacionais, assumindo liderança a favor do multilateralismo com a saída dos Estados Unidos do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica, e dedicando-se a um papel relevante e maior na articulação na Parceria Econômica Regional Abrangente.

Ademais, o Japão é um grande contribuidor de recursos, sendo o 2º maior contribuinte das Nações Unidas. A Agência de Cooperação Internacional do Japão, a JICA, está presente atuando em 546 projetos de cooperação técnica em 88 países/regiões, concedendo empréstimos e assistência financeira a mais de 50 países, além de trabalhar em 16 assistências em situações de desastres.

Olimpíada de Tóquio

Eventos globais como a Cúpula do G20 e a Copa do Mundo de Rugby – primeira vez realizada na Ásia, com previsão de incrementar a economia com aproximadamente U$3,5 bilhões –, ambos em 2019, e os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, fazem parte do calendário do país como anfitrião. A aposta nesses eventos pode impulsionar ainda mais o turismo, que, em 2018, bateu o recorde de 31 milhões de turistas estrangeiros, um aumento de 8,7% em relação ao ano de 2017. Esse resultado vem de um crescimento consecutivo há sete anos, e a expectativa para a Olimpíada de Tóquio é de receber 44 milhões de visitantes. Entretanto, a situação de locais famosos como Quioto, que recebe 50 milhões de turistas anualmente, tanto estrangeiros quanto japoneses, já mostra o embate entre interesses econômicos e manutenção da qualidade de vida dos habitantes, já existem reclamações de excesso de pessoas e “poluição turística”.

Os centros culturais promovem o ensino da língua japonesa e de costumes e tradições, como ikebana (arranjos florais), origami (dobradura de papel), taiko (dança com tambores), shamisen (instrumento de cordas), oficinas gastronômicas, divulgam a cultura pop como animes e mangás, e estão presentes em cerca de 30 países. Programas de treinamento de professores estrangeiros de japonês chegam a abranger cerca de 100 nacionalidades. J-pop, músicas pop japonesas, e ícones como Hello Kitty e Pokemón, e empresas como Toyota, Nintendo e Sony, também são grandes símbolos que fortalecem a imagem e marca do país.

Kumamon na divulgação do trem-bala

A criação de símbolos e marcas japoneses é tão importante que o personagem Kumamon, mascote da província de Kumamoto, criado para a divulgação de um trem-bala em 2011, alcançou o primeiro lugar de conhecimento e favoritismo entre 90 personagens japoneses, virando produtos alimentícios, brinquedos, entre outros.

Por outro lado, a imagem japonesa tem suas imperfeições: quanto aos aspectos mais reprovados estão a desigualdade de gênero, a baixa liberdade de imprensa e as tensões com a China e Coréia do Sul. Segundo o Relatório, a melhora das relações com esses dois países favoreceria ainda mais a reputação japonesa.

O alto investimento em soft power pode estar relacionado às limitações concernentes ao hard power, como o militarismo. Entretanto, Shinzo Abe tem dedicado esforços para alterar a visão dessa área, buscando a modificação da Constituição quanto ao emprego das Forças de Autodefesa do Japão e adquirindo mais equipamentos de Defesa. Tal foco pode reduzir o fortalecimento do poder brando em um momento em que o Japão estará mais atraindo os olhos globais. Ainda assim, a avaliação de soft power da Monocle*** o classifica na 3ª posição, mostrando que a permanência no Top 5 é pertinente.

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Fontes das Imagens:

* NYE, J. S. Soft Power: the means to success in world politics.1ª edição. Nova Iorque: Public Affairs, 2004.P. 01; -5-07.

** NYE, J. S. Cooperação e conflito nas relações internacionais. São Paulo: Gente, 2009. P. 76.

*** Vídeo“Monocle Soft Power Survey 2018/2019”: https://monocle.com/film/affairs/soft-power-survey-2018-19/

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Templo Fushimi Inaritaisha” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Fushimi_Inari-taisha

Imagem 2 Culinária japonesa” (Fonte): https://ja.wikipedia.org/wiki/%E5%AF%BF%E5%8F%B8#/media/File:Hamachi_(Yellowtail),Jalapeno,_Cilantro,_Garlic_Powder_Hon_Maguro(Bluefin_Tuna-Sake(Salmon)Ebi(Tiger_Shrimp)Masago(Smelt_Roe)_(26094247038).jpg

Imagem 3Olimpíada de Tóquio” (Fonte): https://thinkmarketingmagazine.com/japanese-prime-minister-shinzo-abe-leads-tokyo-2020-first-promo/

Imagem 4 Kumamon na divulgação do trembala” (Fonte): https://ko.wikipedia.org/wiki/%EA%B5%AC%EB%A7%88%EB%AA%AC

About author

Bacharela em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Santos (UNISANTOS) e integrante do grupo de pesquisa sobre Governança Global da mesma instituição. Teve duas experiências internacionais no Japão: Okinawa, para estudos culturais (bolsa cultural em 2016) e Hiroshima, participando do curso de verão sobre Hiroshima e Paz na Hiroshima City University (bolsa pela Mayors for Peace como representante da cidade de Santos, em 2018).
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