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Possíveis sanções norte-americanas ao Egito por compra de caças russos

Entre os dias 17 e 21 de novembro ocorreu o evento em Dubai para demonstração de tecnologias aeroespaciais, com presença de especialistas na área. Durante o encontro, René Clarke Cooper, Secretário de Estado Adjunto para Assuntos Político-Militares dos Estados Unidos, comentou sobre o risco de possíveis sanções ao Egito e o impedimento de futuras aquisições de produtos militares pelo país. No início do ano (2019), o Egito realizou um acordo de 2 bilhões de dólares (aproximadamente, 8,39 bilhões de reais, conforme cotação e 22 de novembro de 2019) com a Rússia para a compra de mais de 20 aeronaves Sukhoi Su-35, com previsão de entrega para 2020-2021. O Secretário também afirmou que a compra de aeronaves e sistemas de armas russas afeta a capacidade de operar conjuntamente com as Forças Armadas dos EUA e países da OTAN.

O Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, e o Secretário de Defesa, Mark Esper, alertaram o Ministro da Defesa egípcio, Mohamed Ahmed Zaki Mohamed, sobre a possível resposta dos Estados Unidos. A ação norte-americana estaria amparada na Countering America’s Adversaries Through Sanctions Act (CAATSA) (Lei de Combate aos Adversários da América por Sanções). Aprovada no dia 27 de julho de 2017, impôs sanções ao Irã, Coréia do Norte e Rússia. Dessa forma, os países que realizam transações com esses Estados podem receber sanções secundárias. No caso russo, relaciona-se aos setores de Defesa e Inteligência e teve sua justificativa pela sua contínua participação nos conflitos com a Ucrânia e Síria, e acusações de interferência na eleição de 2016.

O Egito é tradicionalmente um aliado dos EUA, sendo beneficiado pelo auxílio militar e econômico norte-americano de cerca de 1,3 bilhão de dólares anualmente e consumidor de seus produtos, como blindados Abrams, helicópteros Apache e aeronaves F-16. Pela falta de resposta dos EUA sobre a compra de por volta de 24 aeronaves F-35, o acordo do Egito com a Rússia seria uma maneira de diversificar sua rede de fornecedores de bens militares. Durante o governo de Abdel Fattah al-Sissi, Presidente do Egito, a partir de 2014 foram realizados acordos com França e Alemanha para compra de ativos como fragatas, aeronaves, submarinos e helicópteros, além de nutrir relações econômicas e políticas com China, Rússia, Europa Ocidental e África Subsaariana, numa tentativa de obter uma política externa mais balanceada.

Sukhoi Su-35

Nos últimos anos também ocorreu interrupção da assistência militar ao Egito pelas preocupações dos EUA sobre violações de direitos humanos no país. Assim, há uma maior aproximação entre Egito e Rússia. Em 2017 foi autorizada a utilização de bases aéreas por aeronaves militares russas e, no decorrer dos dias 1 a 8 de novembro, ocorreu exercício militar entre os países. O Ministro da Defesa da Federação Russa, Sergei Shoigu, em visita a Cairo, no dia 12 de novembro, para a sexta sessão da Comissão de Cooperação em Defesa, concentrou-se em debates sobre segurança regional e maior cooperação em Defesa. Também comentou sobre a disposição para auxiliar no fortalecimento das Forças Armadas egípcias, assim como em sua capacidade defensiva.

Mas, apesar dessa aproximação, segundo Eugene Rumer, especialista da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, a Rússia não tem os recursos que o Egito necessita e o segundo não tem o orçamento para arcar as propostas russas. Assim, a dependência egípcia com os EUA previne que o mesmo ofereça o acesso estratégico e influência geopolítica à Rússia na região. De acordo com Michael Hanna, pesquisador da Fundação Century, em Nova Iorque, é provável que haja sanções, pois, a compra de Su-35 pode ser um grande problema na relação entre Egito e EUA. No entanto, não é claro o que acontecerá e se a lei CAATSA será utilizada como no caso da Turquia*.

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Nota:

* A Turquia realizou a compra do sistema de mísseis de defesa anti-aérea S-400 da Rússia no início do ano (2019), levando a uma resposta dos EUA. O presidente norte-americano Donald Trump parou de impor sanções à Turquia, mas declarou ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan que, para manter a relação entre os países, seria necessário que o sistema fosse destruído, compartimentado ou devolvido a Rússia.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente dos EUA, Donald Trump, e Presidente do Egito, Abd ElFattah ElSisi” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Egypt–United_States_relations#/media/File:Donald_Trump_greets_the_President_of_Egypt,_Abdel_Fattah_Al_Sisi,_May_2017.jpg

Imagem 2Sukhoi Su35” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Sukhoi_Su-35#/media/Ficheiro:MAKS_Airshow_2015_(20615630784).jpg

About author

Bacharela em Relações Internacionais pelo Centro Universitário IBMR - Laureate International Universities. Pesquisadora na mesma instituição pelo Núcleo de Pesquisa Maria Rabello Mendes (NUPREM) e coordenadora da Rede Brasileira de Pesquisa sobre Operações de Paz (REBRAPAZ). Realizou cursos em instituições notáveis como Curso de Estudos de Política e Estratégia (CEPE) da Associação de Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), Curso de Coordenação Civil-Militar do Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), Curso de Geopolítica na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), entre outros. Realizou artigo para a conclusão da graduação sobre a relação entre a liderança e legitimidade da atuação brasileira em Operações de Paz e seus efeitos diplomáticos no Conselho de Segurança da ONU. Ressalta-se também o artigo realizado sobre o Relatório Santos Cruz apresentado na Escola Superior de Guerra - 2018 e o artigo sobre as Operações de Paz da ONU e OTAN através da visão Comparativa do Direito Internacional aceito pela Academia Brasileira de Direito Internacional - 2019 e apresentado durante seu evento anual.
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