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Presidente do Mali é deposto e preocupa comunidade internacional

Durante a manhã do dia 18 de agosto de 2020, alguns soldados das Forças Armadas do Mali atiraram ao ar na base militar de Kati, a cerca de 15 km da capital do país, Bamako. Após o fato em Kati, seguiram para Bamako e prenderam o Ministro das Finanças, Abdoulaye Daffe; o Chefe da Guarda Nacional, Mahamane Touré; e o Porta-voz da Assembleia Nacional, Moussa Timbiné. O primeiro-ministro Boubou Cissé validou as reivindicações do grupo autointitulado Comitê Nacional para a Salvação do Povo e tentou promover o diálogo entre as partes. Entretanto, acabou sendo preso, assim como o Presidente, Ibrahim Boubacar Keïta, que renunciou e dissolveu a Assembleia Nacional no dia 19 de agosto, em programa transmitido pela televisão.

O golpe de estado teve apoio de parte da população, que se reuniu na Praça da Independência, em Bamako, para demonstrar seu apoio. Os membros do Comitê Nacional para a Salvação do Povo afirmaram no dia 20 de agosto que irão, eventualmente, transferir o poder para um novo Presidente durante a transição, civil ou militar, mas sem data prevista. Membros do partido CMAS disseram que vão apoiar os líderes que realizaram o golpe para desenvolver um caminho para novas eleições, e convocaram a população no dia 21 de agosto de 2020 para comemorar a “vitória do povo”. O líder do Movimento M5, de oposição ao governo e importante figura nos protestos contra o antigo governo, Imam Mahmoud Dicko, anunciou que não atuará mais na política por enquanto.

O líder do Comitê Nacional para a Salvação do Povo (CNSP) é o Coronel Assimi Goita. Ele já foi o Chefe das Forças Especiais do Mali e participou das operações contra os ataques jihadistas de 2015, em Bamako. Em sua carreira, participou da Missão das Nações Unidas em Darfur e recebeu treinamentos militares da França, Alemanha e Estados Unidos. Ao seu lado estão o Coronel Malick Diaw, vice-presidente do CNSP, e o Coronel Ismael Wagué, subcomandante do Estado-Maior da Força Aérea e agora porta-voz do novo governo. Soma-se também o ex-comandante da Academia Militar, Coronel Sadio Camara, e o Coronel Modibo Koné, participantes nos combates contra os jihadistas.

Os protestos no Mali iniciaram no dia 5 de junho de 2020. Além de demandarem a renúncia do presidente Ibrahim Boubacar Keïta, os manifestantes denunciavam a corrupção governamental, a má gestão no combate ao extremismo islâmico e problemas econômicos. Desde a eleição, em agosto de 2018, há uma tensão política devido às alegações da Oposição de irregularidades no processo eleitoral. Além disso, apesar da situação de pandemia atual, o governo promoveu a eleição legislativa em março. O Tribunal Constitucional também anulou 31 dos resultados, configurando a liderança de assentos e, consequentemente, o maior bloco no Parlamento para o partido de Ibrahim Boubacar Keïta.

Nos últimos meses também houve um aumento de ataques, principalmente na área central do país, por tensões étnicas. Em um desses eventos, Soumaila Cisse, líder da oposição foi sequestrado perto de Timbuktu em março de 2020. Depois de meses sem notícias, Cisse conseguiu enviar cartas à sua família, de acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Desde 2012, com o golpe de estado no Mali, há problemas de instabilidade. Vale relembrar que, durante esse período, rebeldes da etnia Tuareg e grupos alinhados com jihadistas tomaram conta de cerca de dois terços do país, necessitando da intervenção francesa para fazer frente às forças rebeldes.

A oposição acusa o Presidente de favoritismo pela influência de seu filho. Karim Keïta deixou o cargo de Presidência do Comitê de Defesa e Segurança do Parlamento em julho de 2020. O governo, por sua vez, nega as acusações da Oposição. Além disso, a economia do país, dependente do algodão e do ouro, tem sofrido devido à pandemia e à instabilidade política. Mais um efeito da crise ocorreu em junho de 2020, quando professores promoveram protestos devido à falta de comprometimento do governo em pagar o aumento de salário prometido previamente.

Rebeldes separatistas de etnia Tuareg, em janeiro de 2012

De acordo com a notícia do dia 21 de agosto de 2020, o antigo Presidente, Ibrahim Boubacar Keïta, está preso em um acampamento militar em Kati, tal qual o seu filho. Assim, recebeu a visita da equipe de direitos humanos da Missão das Nações Unidas no Mali. Outros 17 políticos que foram presos também se encontram nesse local. Os militares afirmaram que o Ministro das Finanças e o antigo secretário do Presidente foram soltos.

Os Estados Unidos da América (EUA) suspenderam no dia 21 de agosto a cooperação militar no Mali até que a situação seja esclarecida, de acordo com o porta-voz, J. Peter Pham. Além do apoio e treinamento para as Forças Armadas do Mali, os EUA também proviam suporte à Inteligência para as Forças Francesas no Sahel no combate a grupos terroristas, como al-Qaeda e ISIS.

A Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS) condenou o golpe no Mali e o suspendeu do órgão de tomada de decisão da comunidade. A aliança regional afirmou que países vizinhos da África Ocidental estão fechando suas fronteiras com o Mali e que irão parar todas transações econômicas, financeiras e comerciais de seus membros com o país. O Presidente da França, Emmanuel Macron, assim como o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, também condenaram o golpe. Outras instituições como a União Europeia, o Conselho de Segurança da ONU e a União Africana se posicionaram da mesma forma.

Coronel Assimi Goita, líder do CNSP, em agosto de 2020

Além disso, António Guterres pediu que o presidente Ibrahim Boubacar fosse solto, assim como os outros políticos. A Missão de Peacekeeping no Mali tem o custo de cerca 1,2 bilhão de dólares anualmente (ou aproximadamente 6,75 bilhões de reais, conforme cotação em 23 de agosto de 2020) e, segundo Jean Pierre Lacroix, Secretário Adjunto de Operações de Paz, no dia 19 de agosto a Operação continua comprometida com o seu mandato, mas é necessário que a estabilidade institucional e a ordem constitucional sejam retomadas.

No dia 22 de agosto de 2020, membros do CNSP e da ECOWAS se reuniram para conversar sobre um novo governo de transição. No entanto, a reunião terminou em apenas 20 minutos. Alguns diplomatas apontaram que dificilmente o antigo Presidente retornará à liderança, mas que a ECOWAS deve auxiliar na transição de um novo governo antes que a crise se generalize. Países como Costa do Marfim e Guiné prezam por um posicionamento mais contundente do bloco para que saibam que golpes não serão tolerados. Além do medo de atitudes similares em outros Estados da região, líderes europeus temem uma nova onda de migrantes e que esforços internacionais contra grupos terroristas sejam minados pela situação atual do Mali.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Capital do Mali” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Portal:Mali#/media/Ficheiro:Bamakolooking_north_from_the_old_bridge.jpg

Imagem 2Rebeldes separatistas de etnia Tuareg, em janeiro de 2012” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mali#/media/File:Le_Mali_confronté_aux_sanctions_et_à_lavancée_des_rebelles_islamistes_(6904946068).jpg

Imagem 3Coronel Assimi Goita, líder do CNSP, em agosto de 2020” (Fonte):

https://fr.wikipedia.org/wiki/Assimi_Goita#/media/Fichier:OPD742K77NFB7ITPGBHNL6LKDQ.jpg

About author

Bacharela em Relações Internacionais pelo Centro Universitário IBMR - Laureate International Universities. Pesquisadora na mesma instituição pelo Núcleo de Pesquisa Maria Rabello Mendes (NUPREM) e coordenadora da Rede Brasileira de Pesquisa sobre Operações de Paz (REBRAPAZ). Realizou cursos em instituições notáveis como Curso de Estudos de Política e Estratégia (CEPE) da Associação de Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG), Curso de Coordenação Civil-Militar do Centro Conjunto de Operações de Paz do Brasil (CCOPAB), Curso de Geopolítica na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), entre outros. Realizou artigo para a conclusão da graduação sobre a relação entre a liderança e legitimidade da atuação brasileira em Operações de Paz e seus efeitos diplomáticos no Conselho de Segurança da ONU. Ressalta-se também o artigo realizado sobre o Relatório Santos Cruz apresentado na Escola Superior de Guerra - 2018 e o artigo sobre as Operações de Paz da ONU e OTAN através da visão Comparativa do Direito Internacional aceito pela Academia Brasileira de Direito Internacional - 2019 e apresentado durante seu evento anual.
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