ÁFRICAANÁLISES DE CONJUNTURA

Primeiro-Ministro chinês visita África

Desde domingo passado (4 de maio) até o próximo domingo (11 de maio), Li Keqiang, o Primeiro-Ministro da China, realiza uma visita oficial a quatro países africanos: Etiópia (4-6), Nigéria (6-8), Angola (8-9) e Quênia (9-11). A viagem simboliza a celebração do 50º aniversário da primeira visita do ex-primeiro-ministro chinês Zhou Enlai a 10 países africanos entre dezembro de 1963 e fevereiro de 1964. Por isso, Li afirmou que o seu périplo pela África é “pela cooperação e solidariedade baseadas em tradições históricas[1].

A ida de Li ao continente africano, que é a primeira desde que se tornou Chefe do Conselho de Ministros Chinês, em março de 2013, testemunhará a assinatura de algumas dezenas de Acordos, que abrangem a cooperação em áreas como: comércio, saúde, cultura, agricultura, telecomunicações, treinamento de pessoal e meio-ambiente[2].

O Primeiro-Ministro declarou a jornalistas africanos em Pequim, antes de partir para África, que espera que se fortaleça a cooperação industrial e comercial para ajudar a industrialização e manufaturação da África. Ele ainda deseja que o incremento da assistência à formação profissional e ao meio-ambiente possa manter o ritmo de desenvolvimento a longo prazo do continente[3].

Nesta primeira viagem ao estrangeiro em 2014, além de se encontrar com os governantes dos países visitados, Li Keqiang também reunir-se-á com outras personalidades e discursará em alguns Fóruns com políticos e homens de negócios africanos e chineses.

É neste contexto que, na Etiópia, discutirá sobre as Relações China-África com a Presidente da Comissão da União Africana (UA), Nkosazana Dlamini-Zuma, e participará de um seminário com empresários chineses e africanos. Ainda em Adis Abeba, o Primeiro-Ministro chinês visitará o Centro de Convenções da UA, construído com fundos chineses, onde ainda fará um discurso sobre a cooperação China-África[2].

Em Abuja, Nigéria, o ele tomará parte do “24º Fórum Econômico Mundial para a África 2014” e vai discursar sobre o desenvolvimento comum China-África, a promoção da China no desenvolvimento inclusivo da continente e na cooperação internacional com a África[2].

Durante a sua estadia em Angola, Li liderará um encontro com empresários chineses. No último país da visita africana, Quênia, o Primeiro-Ministro também se reunirá com oficiais do Programa de Meio-Ambiente das Nações Unidas e do Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas e discutirá com eles a cooperação da China com os dois órgãos das Nações Unidas[2].

Seguindo o estilo do presidente Xi Jinping, Li está na África com a sua esposa, Cheng Hong, uma professora universitária de inglês. É pela primeira vez que Li Keqiang faz uma visita oficial com ela desde que foi apontado Primeiro-Ministro, em 2013. Pode ser o começo de uma aparição pública regular, não só no estrangeiro, como também na China, onde é pouco conhecida. Aliás, o breve CurriculumVitae dela só foi publicado neste domingo (4 de maio)[4]

As principais atividades públicas de Cheng Hong incluirão apoio e campanhas de promoção do bem-estar social dos mais desfavorecidos tanto na China como nos países que o seu marido visitar. Isto contribuirá para atrair simpatias pela liderança comunista na China e fora dela, isto é, tornar-se-á um elemento para elevar o soft power chinês.     

Entretanto, é importante lembrar que as relações comerciais entre os chineses e o continente africano registram o momento mais alto e a China continua, desde 2009, como a principal parceira comercial da África. O comércio entre os dois lados rendeu US$ 210,2 bilhões em 2013, uma subida de 5,9% do valor de 2012. As importações africanas no ano passado totalizaram US$ 117,4 bilhões e os chineses despenderam na África US$ 92,8 bilhões[5]. Acredita-se que nos próximos anos a cifra possa crescer ainda mais, uma vez que a África neste momento representa somente 5% do comércio total da China[6]

As principais exportações africanas incluem o petróleo (de Angola, Nigéria, Guiné Equatorial, Gana, Camarões, Congo-Brazaville, Gabão, Uganda, Sudão do Sul e Sudão); o cobre, cobalto, cádmio, ferro-cromo, platina, coltan, diamantes e ouro (do Congo-Kinshasa, da Libéria, da África do Sul, da Zâmbia e do Zimbabué); o algodão de Moçambique, entre outros produtos não transformados[7].

Os africanos importam consumíveis fabricados na China: têxteis, vestuário, cobertores, calçados baratos, chapelaria, brinquedos, equipamentos de telecomunicações e telefones celulares a preços acessíveis, móveis, computadores e televisores. Os governos do continente compram da China caças a jato, equipamento militar e munições, uniformes militares, tecnologia de comunicações, máquinas agrícolas, máquinas rodoviárias, turbinas e geradores, painéis solares[8].

Os investimentos chineses estão também a crescer. Neste momento, a África conta com cerca de 2.500 empresas chinesas que criam mais de cem mil postos de emprego em áreas que incluem a construção civil, o comércio a retalho, a agricultura, a mineração, a banca imobiliária, as telecomunicações, o turismo etc.[8]. Em 2013, o Investimento Direto Estrangeiro (IDE) chinês na África atingiu US$ 25 bilhões[2]. Presentemente, o continente africano cobre só 3% do IDE chinês, outros países asiáticos, europeus e americanos respondem com maior parcela[6].

Observadores apontam que os Governos africanos devem não só melhorar o ambiente de negócios como também garantir uma mão-de-obra qualificada para que os chineses possam incrementar os seus investimentos, uma vez que a grandeza econômica da China assim o permite, destacando-se que a assistência para o desenvolvimento chinês para a África é bastante considerável, principalmente para a área da construção de infra-estruturas públicas, como edifícios governamentais, rodovias, pontes etc., ao ponto de nações africanas como Moçambique terem a China como a principal credora.

Como se pode imaginar, o contributo da China na economia da África é significativo e fica evidente que esta influencia na manutenção dos cerca de 5% anuais do Produto Interno Bruto (PIB) do continente. No entanto, devido a este peso dos chineses na economia africana já se fala de repercussões negativas para a África em caso de uma desaceleração da economia chinesa.   

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Imagem (Fonte):

http://www.chinadaily.com.cn/world/2014livisitafrica/2014-05/04/content_17482993.htm

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/world/2014livisitafrica/2014-05/04/content_17482993.htm

[2] Ver:

http://www.china.org.cn/china/2014-04/30/content_32258629.htm

[3] Ver:

http://english.cntv.cn/2014/05/04/VIDE1399177321160408.shtml

[4] Ver:

http://english.sina.com/china/p/2014/0503/697222.html

[5] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/world/2014livisitafrica/2014-04/25/content_17471697.htm

[6] Ver:

http://www.brookings.edu/~/media/research/files/papers/2014/04/africa%20china%20policy%20sun/africa%20in%20china%20web_cmg7

[7] Ver:

http://www.csmonitor.com/World/Africa/Africa-Monitor/2014/0319/China-s-trade-with-Africa-at-record-high

[8] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/world/2014livisitafrica/2014-05/04/content_17481050.htm

 

About author

De Nacionalidade Moçambicana, é mestrando em História do Mundo no Instituto de Estudos Africanos da Universidade Normal de Zhejiang, na China. Graduado em História pela Universidade Eduardo Mondlane em Maputo (2007). Possui experiência na docência de disciplinas de História Geral e da África Austral. Interesses: História de Moçambique, relações China-Moçambique, política externa chinesa no nordeste e sudeste da Ásia, relações China-África, cultura cibernética popular na China. Fala Português, Inglês, Francês e conhecimento razoável de chinês.
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