ANÁLISES DE CONJUNTURAORIENTE MÉDIO

Protestos antigoverno no Iraque completam 5 meses

Desde 1º de Outubro de 2019, o Iraque vem sendo palco de protestos contra o governo. Os manifestantes contestam os altos índices de desemprego, o fornecimento insuficiente de serviços públicos e acusam a existência de corrupção desenfreada. Os protestantes também pedem pelo fim do sistema político sectário imposto após a invasão dos Estados Unidos em 2003, que derrubou o então presidente iraquiano Saddam Hussein. Os confrontos entre manifestantes e as forças de segurança e milícias pró-governo são responsáveis pela pior onda de violência no Iraque desde a derrota do Estado Islâmico no país, em 2017. O número de mortos já passa de 600, segundo a Anistia Internacional.

Protestos vêm sendo registrados na capital Bagdá e em grande parte do sul do território iraquiano, região majoritariamente xiita. O país já tinha sido palco de manifestações em anos anteriores, inclusive no verão de 2015, após uma grave crise na prestação de serviços públicos. Os manifestantes, que segundo a BBC bloquearam estradas, instalações de petróleo, pontes e portos, demandam também novas leis eleitorais, antecipação das eleições e nomeação de um Primeiro-Ministro independente.

Os protestos forçaram a renúncia do ex-primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi em 1º de dezembro de 2019, que permaneceu no cargo de forma provisória até que Mohammed Allawi fosse nomeado Primeiro-Ministro no início de fevereiro de 2020. Conforme reporta Linah Alsaafin para a Al Jazeera, os protestos nas ruas, contudo, não aceitam a nova nomeação, já que Allawi é visto como parte da antiga elite sectária do país. Segundo fontes de notícia, as manifestações têm sido alvo de forte repressão policial, com registro de milhares de iraquianos mortos, feridos ou detidos arbitrariamente nos últimos cinco meses.

Como publicou o Financial Times, críticos e manifestantes condenam o sistema político de forma generalizada, alegando que ele teria permitido às elites políticas sectárias dividir os recursos do Estado, institucionalizando a corrupção. Adicionalmente, conforme escreve Maha Yahya ao Carnegie Middle East Center, o arranjo fomentaria má governança, a consolidação de práticas antidemocráticas, redes políticas de patronagem e clientelismo, além de frequente paralisia decisória e ineficiência do Estado.

O sistema político iraquiano é fundamentado no compartilhamento de poder em bases sectárias, na tentativa de promover participação inclusiva de diferentes segmentos etno-religiosos – sobretudo sunitas e curdos – em um país de maioria xiita. Por convenção, escreve o Financial Times, o cargo de Primeiro-Ministro é reservado para um xiita, o de Vice-Presidente para um curdo, e o de Porta-Voz do Parlamento para um sunita. Cada representante também deve possuir dois vices dos outros dois grupos etno-sectários, esclarece Yahya. Conforme reporta a Al Jazeera, no Parlamento de 329 assentos 83 deles são reservados para mulheres e outros 9 assentos são reservados para minorias, como cristãos (5), mandaeans (1), yazidis (1), shabaks (1) e curdos xiitas failis (1). Além dos altos cargos serem alocados de acordo com o secto, o padrão é repetido em todo o governo em vários níveis administrativos, inclusive penetrando ministérios e burocracias estatais.

Manifestantes libaneses protestam na Praça dos Mártires, em Beirute, em 22 de novembro de 2019

Manifestações com queixas anti-sectárias semelhantes – embora amplamente pacíficas – também vêm sendo registradas no Líbano desde outubro de 2019. Atualmente, a dívida do país excede 150% do produto interno bruto, sofrendo de semelhante incapacidade na prestação de serviços públicos básicos. O Líbano enfrenta problemas crônicos no fornecimento de água, eletricidade e gerenciamento de resíduos, além de altos níveis de desemprego – sobretudo entre a população mais jovem.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Manifestantes iraquianos protestam em Bagdá em 1o de outubro de 2019 (Fonte): https://en.m.wikipedia.org/wiki/File:Baghdadprotests.jpg

Imagem 2 Manifestantes libaneses protestam na Praça dos Mártires, em Beirute, em 22 de novembro de 2019 (Fonte): https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lebanon_IdependenceDay_2019.jpg

About author

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).
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