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Protestos na Geórgia e tensões diplomáticas com a Rússia

Nos últimos dias, está ocorrendo uma onda de protestos em Tbilisi, capital da Geórgia. Os motivos do movimento são vários e referem-se principalmente ao descontentamento da população em relação às questões de política interna. Porém, o estopim do início das manifestações está ligado às tensões diplomáticas com a Rússia que existem desde 2008*.

Em 20 de junho (2019), quando os protestos se iniciaram, estava marcado para ocorrer no Parlamento georgiano a Assembleia Interparlamentar sobre a Ortodoxia (IAO, sigla em inglês), uma instituição transnacional que visa a discussão entre parlamentares de países que seguem o cristianismo ortodoxo.

O legislador russo, Sergei Gavrilov, abriu o evento com um discurso em russo, idioma estrangeiro na Geórgia, e sentado na cadeira do Porta-Voz do Parlamento, Irakli Kobakhidze. Sua atitude gerou descontentamento de parte dos legisladores georgianos, com depoimentos declarando que a conduta de Gavrilov foi “um tapa na cara na recente história da Geórgia”.

Emblema da Assembleia Interparlamentar sobre a Ortodoxia

Assim, os protestantes acusam membros do governo de estarem cooperando com a Rússia e exigiram a renúncia de Kobakhidze, por ter convidado a delegação russa e permitido que Gavrilov presidisse a sessão, e do Ministro do Interior, Georgy Gakhariya. Apesar da tensão diplomática com a Federação Russa ter impulsionado a crise política, considera-se que ela não é de fato a causa. De acordo com Thomas de Waal, especialista na região do Cáucaso, “a causa foi a política doméstica bastante polarizada em que a oposição utiliza a Rússia como uma forma de desacreditar o governo”.

A análise de Waal condiz com o posicionamento do Primeiro-Ministro da Federação Russa. Dmitry Medvedev declarou que “a tentativa de colocar a culpa na Rússia parece apenas distorcer a situação real. Ela [a Rússia] foi usada para unir essas duas forças, para usá-la como um instrumento de pressão sobre o Parlamento e, em última análise, para enfraquecer o atual sistema político na Geórgia”.

Em meio ao acirramento da crise diplomática, o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, assinou um Decreto que bane temporariamente voos para a Geórgia a partir do dia 8 de julho. Segundo o Documento, a razão é garantir a segurança nacional do país e proteger seus cidadãos de ações criminosas perante a insurgência de um movimento anti-Rússia no Estado vizinho. O Decreto permanecerá em vigência até que a situação se normalize e não haja nenhuma ameaça para a segurança dos turistas russos. Nos últimos anos, um grande volume de turistas da Rússia viajou à Geórgia, de forma que o banimento dos voos pode vir a ser um grande problema para a economia georgiana.

Enquanto questões de política externa se complicam, protestos pela Geórgia continuam. Até agora, foram 5 dias consecutivos de manifestações. O resultado foi a renúncia do Porta-Voz do Parlamento e a divulgação de que um pacote de reformas eleitorais seria colocado em prática já em 2020. Todavia, não há como prever se essas medidas serão suficientes para frear os protestos pelo país. Ao passo que a situação política se mantém instável, as relações com a Rússia também estarão incertas.

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Notas:

* Em 2008, Rússia e Geórgia entraram em conflito direto e tal acontecimento ficou conhecido como a Guerra dos Cinco Dias. Foi uma guerra de curta duração, em que a Geórgia buscou manter os territórios separatistas Ossétia do Sul e Abecásia, enquanto que a Rússia apoiou a independência dessas regiões ao alegar que lá haveria uma maioria russa que deveria ser defendida. A guerra encerrou-se com um acordo de cessar-fogo negociado entre as partes e mediado pela União Europeia. Desde então, a Rússia retirou suas tropas do território da Geórgia, mas ainda as mantêm na Ossétia do Sul e na Abecásia e reconhece a independência das duas regiões. Em resposta a esse posicionamento, a Geórgia cortou as relações diplomáticas com a Federação Russa, algo que se mantém até os dias de hoje, 10 anos após o conflito.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Antigo prédio do Parlamento em Tbilisi, na Geórgia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/b3/Parlamento_de_Georgia%2C_Tiflis%2C_Georgia%2C_2016-09-29%2C_DD_07.jpg/800px-Parlamento_de_Georgia%2C_Tiflis%2C_Georgia%2C_2016-09-29%2C_DD_07.jpg

Imagem 2 Emblema da Assembleia Interparlamentar sobre a Ortodoxia” (Fonte): https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/e/ef/Interparliamentary_Assembly_on_Orthodoxy.svg/800px-Interparliamentary_Assembly_on_Orthodoxy.svg.png

About author

Bacharela em Relações Internacionais e em Ciências Econômicas, ambas pelas Faculdades de Campinas (FACAMP). Participou da Newsletter do Centro de Estudos de Relações Internacionais (CERI) da FACAMP como redatora e corretora de artigos. Fez sua tese de conclusão de curso sobre as relações diplomáticas entre a Rússia e os Estados Unidos no pós Guerra Fria. Tem grande paixão pela escrita e por assuntos relacionados à Segurança Internacional e Diplomacia.
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