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Protestos na Turquia: da causa ambiental ao anti-autoritarismo

Na terça-feira passada (28 de maio) teve início um protesto pacífico no “Parque Gezi” (em Istambul), contra os planos de redesenvolvimento do local, os quais visam não apenas melhorar o tráfego no entorno da “Praça Taksim”, mas também construir um shopping sobre o Parque, destruindo uma das poucas áreas verdes restantes no centro de Istambul[1] [2] [3].

No entanto, na sexta-feira (dia 31), os confrontos se intensificaram entre os manifestantes e a polícia, que usou gás lacrimogênio e canhões de água, sendo criticada pelo uso de força excessiva[4]. Os protestos, iniciados em torno de uma causa específica, transformaram-se em uma agitação de abrangência nacional contra o Governo, com mais de 1.700 pessoas presas (embora muitas já liberadas) em mais de 67 cidades[2].As críticas da população ao que consideram autoritarismo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan perpassam o que é percebido como uma “islamização da Turquia[5]. A esse respeito, alguns autores afirmam que, apesar de suas raízes islâmicas, o “Partido da Justiça e Desenvolvimento” (AKP, em turco), no governo desde 2002[6] e com metade das cadeiras do Parlamento obtidas nas eleições de 2011[7], não busca uma agenda islâmica[8]. Ao contrário, Erdogan teria dado prioridade à integração da Turquia na União Europeia, à estabilização econômica e à reforma do sistema legal, o que contou com um conjunto de reformas que incluiu a abolição da pena de morte e a ratificação de convenções internacionais de direitos humanos[8],além de uma abertura ao diálogo e aos direitos dos curdos na Turquia – apesar da dramaticidade das negociações com o “Partido dos Trabalhadores do Curdistão” (PKK, em turco)[3].

No entanto, como muitos manifestantes apontam, a por eles considerada “islamização” do país seria ilustrada na recente aprovação de nova lei que restringe o consumo e a venda de bebidas alcoólicas a fim de proteger novas gerações de tais hábitos não-islâmicos[1] [5] [9] [10].

Em suas considerações, a rapidez com que a Lei foi elaborada e aprovada (duas semanas) revela um autoritarismo do governo, que consideram também evidente em diversas outras ações política, as quais interpretam como arbitrárias. Os especialistas destacam que, desde 2007, jornalistas são frequentemente presos sob acusações questionáveis, afirmam que a máquina do Estado vem sendo usada contra empresários que se opõem ao governo, além disso, que a liberdade de expressão encontra-se sob pressão[6] [11].

Ainda, no início do mês passado, o Governo proibiu celebrações no primeiro de maio na Praça Taksim”, sob a justificativa de que aqueles que iam para a Praça não pretendiam festejar, mas sim protestar – algo que, ao que parece, não deveria ser permitido[3] [12].

Nesse contexto, o projeto de redesenvolvimento da Praça Taksim” aparece como um ponto crítico, uma vez que Erdogan pressionou pessoalmente por sua admissão apesar da desaprovação das próprias agências regulatórias governamentais, que questionaram sua legalidade, e de investidores potenciais, devido à oposição da população[9].

Quando um dos conselheiros do Primeiro-Ministro perguntou “Como um governo que recebeu quase 50% dos votos pode ser autoritário[9], ele, indiretamente, revelou o que está sendo considerado como prática recente de Erdogan que utiliza as crescentes margens de vitórias eleitorais como justificativa para ações e decisões políticas que recebem forte oposição popular[9].

Além disso, como defendem estudiosos, também deixa claro que a chave para o entendimento da democracia turca está no significado que esse termo assume no país[13], o qual, com os protestos iniciados na última terça-feira parecem querer adquirir novo significado.

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Imagem (Fonte):

http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-22740038

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-22732139

[2] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-22749750

[3] DEMIR, Firat. “Here’s What You Need to Know about the Clashes in Turkey”. Em:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/06/01/here_s_what_you_need_to_know_about_the_clashes_in_turkey, p. 2.

[4] Ver:

http://www.amnesty.org/en/news/turkey-must-halt-brutal-police-repression-and-investigate-abuses-istanbul-protest-2013-05-31

[5] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-22740282

[6] COOK, Steven A.; KOPLOW, Michael. “How Democratic Is Turkey?”. Em:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/06/02/how_democratic_is_turkey, p. 1.

[7] PUPCENOKS,Juris. “Democratic Islamization in Pakistan and Turkey: Lessons for the Post-Arab Spring Muslim World”. The Middle East Journal, v. 66, n. 2, Spring 2012, pp. 273-289. Em:

http://muse.jhu.edu/journals/the_middle_east_journal/v066/66.2.pupcenoks.pdf, p. 281.

[8] RABASA, Angel; LARRABEE, F. Stephen. “Rise of Political Islam in Turkey”. National Defense Research Institute, 2008. Em:

http://www.rand.org/content/dam/rand/pubs/monographs/2008/RAND_MG726.pdf, p. 2.

[9] Ver: DEMIR, op. cit., p. 3.

[10] Ver: COOK; KOPLOW, op. cit., p. 2.

[11] Ver:

http://www.aljazeera.com/indepth/opinion/2012/07/201272011283765829.html

[12] Ver:

http://www.bbc.co.uk/news/world-europe-22365915

[13] Ver:

http://www.foreignaffairs.com/articles/137754/michael-j-koplow-and-steven-a-cook/the-turkish-paradox

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About author

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.
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