ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Questionamentos sobre a acusação de responsabilidade da China pela pandemia Covid-19

A população mundial está passando por uma fase jamais imaginável, uma quarentena em nível global, por temer um vírus que em poucos meses já se manifestou em todos os continentes. Fábricas tiveram atividades modificadas, eventos sociais, comerciais e esportivos cancelados, o estilo de vida, rotinas de autoridades e cidadãos foram alterados, muitos ficaram completamente parados e a crise hoje instaurada que afeta a saúde pública, bem-estar e economia global fica carente de um culpado, e a China, onde ocorreu o surto inicial, se torna o grande candidato para receber essa responsabilidade.

No noticiário internacional é comum ver personalidades apontando os chineses pela proliferação do vírus. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entre outras autoridades, assim como diversas figuras públicas em altos cargos do governo brasileiro, fazem comentários culpando o governo chinês e o povo chinês pelo Covid-19. Alguns concordam e outros discordam dessas acusações, assim como o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas e Conselheiro Científico da Casa Branca, Anthony Fauci, porém tais afirmações fizeram crescer o sentimento anti-China, e em algumas regiões o sentimento anti-asiático, trazendo problemas em curto, médio e a longo prazos.

Embora o mundo esteja globalizado e grande parte da população mundial esteja conectada aos meios de comunicação, os seres humanos ainda carecem de informações objetivas e verídicas e de outros meios para criar elos, obter respostas e entender sobre as diversidades culturais, econômicas e os riscos existentes ainda não explorados que envolvam a saúde global. A história prova que apenas em poucos casos ou em casos com extremo grau de periculosidade houve a cooperação.

No ano de 1333, a Europa e Ásia sofreu com a Peste Negra; em 1817 tivemos a Cólera; a Tuberculose manifestou-se com grau de emergência em 1850; a Varíola em 1896; a Gripe Espanhola em 1918; a Febre Amarela e o Sarampo na década de 1960; a Malária e a AIDS mostraram-se de forma emergencial nos anos 1980. Essas foram consideradas grandes epidemias ao longo da história  que mataram vários milhões de pessoas em suas respectivas épocas, e boa parte delas estavam ligadas ao estilo de vida humano, sua higiene e alguma espécie de animal envolvida na sua origem ou propagação.

Desde e década de 1960 o coronavírus esteve presente nos livros de medicina: HcoV-229E (1960), SARS-CoV (2002), HcoV-OC43 (2004), HcoV-NL63 (2004), HcoV-HKU1 (2005), MERS-CoV (2012) e o causador da COVID-19, SARS-CoV-2 (2019). Todos eles afetaram os seres humanos, diferenciando de algum animal, Alpaca, Morcego, Cobras e carne bovina, como ponte para o contágio humano, que são fontes de alimento para certas populações no mundo.

No livro: Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic (2012-2013), o autor David Quammen viajou o mundo entrevistando dezenas de cientistas sobre zoonoses que viraram doenças humanas e, não apenas ele, mas muitos chegam à conclusão de que a intervenção humana nos habitats mais antigos de certas espécies resulta no surgimento de algum tipo de doença causada por vírus e bactérias, entre outros agentes causadores.

Os morcegos são tidos como os principais reservatórios para vírus potencialmente prejudiciais aos humanos, e a interação de humanos e animais propicia o salto desses agentes, indo dos animais para as pessoas, facilitando, assim, a gama de novos hospedeiros para ele. Segundo o virologista Paulo Brandão, expert em coronavírus entrevistado pela coluna de saúde da Editora Abril, estuda-se a hipótese de o vírus ir adentrando em contato com os humanos e criando estratégias para fazer o salto; e também outra hipótese baseada no salto através de um morcego que já estava contaminado com diversos tipos de coronavírus.

Teste NAT realizada por especialistas em Shanghai

Foi comprovado por estudos de cientistas estadunidenses, ingleses e australianos que o SARS-CoV-2 foi originado naturalmente por seleção natural e não foi criado em laboratório, porém, mesmo com todos os registros históricos existentes e estudos sobre a origem, ainda há especulações de que os chineses manipularam o COVID-19 objetivando vantagens econômicas.

A partir do momento em que se tem informações concretas sobre vírus e bactérias prejudiciais à espécie humana, teorias da conspiração, especulações e acusações sobre culpados por doenças como o novo coronavírus confirmam apenas a interpretação de que o mundo ainda não está preparado para cooperação por um bem comum e agentes e líderes mundiais continuam como em séculos anteriores, agindo de forma pragmática, voltados para seus próprios interesses e passando a responsabilidade de males comuns ao próximo.

Analistas têm apontado que com tantos registros sobre a família do coronavírus, pouco tem sido informado sobre estudos conjuntos para prevenção e medidas de urgência no caso de ele se tornar um risco universal. Alguns especialistas culpam governos por investirem em tecnologias bélicas se preparando para uma possível guerra futura e pouco investido na cooperação para melhoria da vida humana e da economia como um todo.

Nesse sentido, acompanhando tais observações, o Covid-19 tem sido visto como um indicativo de que o mundo está despreparado para epidemias globais, mesmo após milhões de pessoas terem morrido em épocas mais remotas, que eram carentes de tecnologia como temos na atualidade.

O vírus surgiu no sul da China, região com concentração enorme de pessoas por metro quadrado e onde muitas se espalham pelo sul e sudeste asiático e, mesmo após ver as medidas de quarentena e construção de centros para tratamento da epidemia em velocidades espantosas, os líderes mundiais demoraram para tomar atitudes e criar plano de ação para o combate da pandemia. Hoje, há uma Europa com números superiores aos dos chineses em novos casos e, conforme tem sido apontado pela mídia e por observadores internacionais, países do continente americano não deram devida atenção ao risco, criando planos emergenciais de forma tardia.

O noticiário mais recente está baseado em discussões de importantes autoridades, como o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com acusações mútuas sobre problema no país e com discordância sobre o vírus fora dos EUA. O discurso do líder estadunidense e dos líderes brasileiros convergem em relação a acusações contra Beijing, trazendo o risco apontado por economistas e analistas políticos de que tais argumentos podem pôr em xeque as relações comerciais e diplomáticas entre as nações e as grandes potências econômicas mundiais, gerando tensões que podem abalar o mundo e não apenas os envolvidos.

Em contrapartida, há notícias, de certa forma positiva na Ásia, de médicos, cientistas e autoridades focadas em combater o problema. O governo chinês elogiou oficialmente médicos japoneses pelo desenvolvimento de medicamento contra gripe, o Faviparavir, que, na prática, acelerou na recuperação de pacientes com o Covid-19, e pode-se ver claramente uma mobilização social de apoio entre os povos asiáticos no combate ao forte surto de preconceito contra orientais pelo mundo.

Empresas chinesas retomam, aos poucos, suas atividades

Com a atual pandemia, observam-se pequenos traços de mobilização para cooperação em combate ao vírus, além de medidas de quarentena e cuidados internos de cada país. Nesse sentido, de forma positiva, ressalta-se que Britânicos e chineses vão apoiar a Organização Mundial da Saúde (OMS) no combate ao Covid-19, bem como líderes da França e da China estão estudando a cooperação multilateral para controle dessa pandemia e prevenção contra possíveis ameaças futuras à saúde global.

Acompanhando as notícias asiáticas, é vista forte mobilização de equipes da China no sul e sudeste asiático, principalmente em regiões mais carentes, como o Camboja, e uma maior comunicação entre profissionais da saúde entre coreanos, chineses e japoneses por um bem comum. Além da atuação forte com seus vizinhos, doações de suprimentos médicos chineses chegam à América Latina para auxiliar os agentes locais no combate a epidemia no continente.

Especialistas têm aconselhado que é necessário avaliar as ações e postura do país onde ocorreu o surto inicial do Covid-19, antes de se especular sobre manipulação de informações gerando teorias da conspiração. De fato, a velocidade de construção de estruturas para combater a pandemia dentro da China foi significativa e é pouco provável que outra nação as criasse na mesma velocidade. Da mesma forma, afirmam esses observadores que foi satisfatória a atenção dada aos países vizinhos, após finalizar as medidas de combate interno do vírus.

Aponta-se que tanto para os principais parceiros quanto para pequenos países regionais, foi tomada uma posição e executada uma ação para ajudar no combate ao coronavírus, não deixando os chineses alertas apenas para o seu território, mas indo além de suas fronteiras. Alguns poderão entender tais medidas como forma de proteger as fontes de seus recursos econômicos, ou uma forma de assumir a responsabilidade pelo surto inicial da doença, mas, conforme tem sido apontado, a história prova que não há como culpar apenas uma nação por um risco que envolve toda a humanidade.

Perante o atual cenário econômico global, e com todo o avanço tecnológico, os intérpretes da história que vem se manifestando na mídia pelo mundo começam a convergir para a conclusão de que os líderes globais ainda não aprenderam o significado da palavra Cooperação Internacional, bem como a utilizar os recursos existentes para o bem-estar global. Em uma era onde a população pensa em obter conforto e sobreviver de forma saudável e sustentável, a economia ainda divide sua importância com a diplomacia pragmática, fixada em possíveis conflitos bélicos entre nações e não contra riscos reais contra o mundo, e o Covid-19 expôs, além do preconceito entre as pessoas e culturas, o quão é difícil cooperar mesmo em meio a crises.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Equipe de Médicos Chineses em Hunam” (Fonte): http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/23/c_138906062_2.htm

Imagem 2 Teste NAT realizada por especialistas em Shanghai” (Fonte): http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/24/c_138910095_4.htm

Imagem 3 Empresas chinesas retomam, aos poucos, suas atividades” (Fonte): http://portuguese.xinhuanet.com/2020-03/21/c_138901588_2.htm

About author

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. É membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence. Atualmente trabalha como repórter fotográfico.
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