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“Quinto Diálogo Estratégico e Econômico EUA-China”: ênfase à “Cooperação Bilateral” e nas “Questões Globais”

Apesar de persistirem diferenças importantes entre si, o encontro bilateral anual entre as duas maiores economias do mundo, realizado na capital dos “Estados Unidos da América” (EUA), Washington, nos dias 10 e 11 de julho, aproximou mais os dois países numa variada gama de assuntos individuais que dizem respeito a ambos, mas também sobre assuntos globais. Este forma de aproximação entre a China e os EUA formalizou-se desde que Barack Obama chegou à “Casa Branca”. As vezes se diz que eles compõem uma espécie de G2 (Grupo dos dois países mais influentes do mundo)[1]

Na realidade, esta prática já vem do tempo de George W. Bush que, em 2004, aceitou a sugestão do seu homólogo chinês, Hu Jintao, sobre a criação de um Fórum para a discussão de temas de interesse comum. É neste âmbito que entre 2005 e 2008 as duas partes haviam se reunido por seis vezes no quadro do “Diálogo dos Seniores[2]. Em 2006, os dois líderes concordaram em institucionalizarem um outro mecanismo bilateral que tratasse semestralmente de assuntos econômicos, o “Diálogo Econômico Estratégico[3], e, neste contexto, surge em 2009 o “Diálogo Estratégico e Econômico EUA-China[4].

No entanto, desentendimentos continuam a minar o relacionamento entre as duas maiores potências econômicas globais. O que cria desconfiança entre as partes inclui, por exemplo, a acusação americana de que a China propositadamente desvaloriza a sua moeda, o yuan (também conhecida por renminbi, denominação chinesa para “moeda do povo” ), para ganhar vantagem na venda de seus produtos no mercado mundial; a violação da propriedade intelectual; os ataques informáticos a instalações militares e empresas americanas; e a violação dos direitos humanos dos grupos étnicos minoritários, como os Uigures (originários da Província de Xinjiang) e os Tibetanos (originários da “Província de Tibet”) e dos opositores políticos do governo chinês, que é liderado pelo “Partido Comunista Chinês” desde a criação da “República Popular da China”, em 1949[5].

Entretanto, no encontro da semana passada os chineses foram criticados pela maneira como lidaram com o “assunto Edward Snowden” quando este se encontrava ainda no território autônomo de “Hong Kong[6].

Por sua vez, Pequim entende que Washington esteja a se imiscuir nos assuntos domésticos principalmente nos temas ligados aos direitos humanos e por adotar políticas de protecionismo às empresas americanas e dificultar a entrada de capitais chineses em áreas estratégicas. Da mesma forma, os chineses acusam os americanos de  fomentarem turbulência na região por frequentemente levarem a cabo manobras militares com os vizinhos, em especial com o Japão, as Filipinas e a “Coreia do Sul”. Também desconfia da intensificação da presença militar dos EUA na região da Ásia-Pacífico, cujo objetivo principal, entende que seja para conter a China que está num crescendo fenomenal, acompanhado de influência em áreas outrora de domínio norte-americano, como indica a recente visita de presidente Xi Jinping a três países da “América Latina” a caminho dos EUA para o primeiro encontro com Obama[7].

Os chineses também igualmente contestam veementemente a venda sistemática de armamento a Taiwan, território que os chineses consideram parte integrante do seu país e encaram a reunificação como uma questão de princípio na “China Continental”. Por esta razão, no encontro de junho passado, Xi Jinping solicitou a Obama que os “Estados Unidos” parassem de vender armas a Taiwan[8]. Em realidade, o apoio norte-americano a este território insular desde 1949 sempre foi fundamental para a sobrevivência do mesmo e é uma das principais causas do anti-americanismo no seio da população chinesa. É importante lembrar que a questão de Taiwan também esteve por detrás do estabelecimento tardio das relações China-EUA que só ocorreu em 1979, além do problema de combate americano ao comunismo no âmbito da Guerra Fria”.

As recentes revelações de Snowden sobre a espionagem estadunidense às instituições públicas chinesas embaraçaram de certa maneira as autoridades americanas que sempre acusaram a China de liderar cyberataques a interesses dos EUA. Na China, há quem sugira que isso significa a falta de sinceridade por parte dos americanos[9].  

Mas, mesmo assim, o conselheiro de Estado Yang Jiechi e o vice-primeiro-ministro Wang Yang, por parte da China, dialogaram com o secretário adjunto de estado William Burns (no lugar do secretário de estado John Kerry, ausente por questões familiares) e com secretário de fazenda Jack Lew (à frente da delegação americana) e estabeleceram oito passos que englobam uma variedade de questões bilaterais e mundiais. Os mesmos são: (1) o fortalecimento da cooperação bilateral; (2) a abordagem dos desafios regionais e globais; (3) a cooperação sub-nacional; (4) a cooperação em matéria de energia; (5) a cooperação em proteção ambiental; (6) a cooperação em ciência, tecnologia e agricultura; (7) a cooperação em saúde; e (8) os diálogos bilaterais sobre energia, meio ambiente, ciência e tecnologia[10].

Na área de fortalecimento da cooperação bilateral o destaque vai para as visitas de alto nível e, no caso das relações militares, explorarão um mecanismo de notificação sobre as principais atividades militares, privilegiando a discussão das regras de comportamento das atividades militares aéreas e navais. Igualmente, decidiu-se estabelecer uma linha direta entre os representantes especiais dos dois Presidentes com o objetivo de facilitar a comunicação, além de fazer consultas na área dos direitos humanos, contra-terrorismo e segurança marítima. Concordou-se ainda em se realizar encontros sobre a “Política de Planejamento”, a África, a “América Latina”, a “Ásia do Sul e Centralpara melhorar a coordenação e a cooperação bilateral em questões regionais e internacionais[10].

Alguns dos desafios regionais e globais incluem o dossiê “Península Coreana”. Os dois países estão de acordo que esta Península deve ser desnuclearizada de forma pacífica, como sempre defendeu o Grupo dos 6” (“Coreia do Norte”, “Coreia do Sul”, China, EUA, Rússia e Japão), para se alcançar a paz e a estabilidade. O Irã foi também discutido entre as partes. Reafirmaram a necessidade de procurar uma solução completa e de longa-duração para restaurar a confiança da comunidade internacional sobre a natureza pacífica do “Programa Nuclear do Irã”, como defende o “Tratado de Não Proliferação[10].   

A Síria também constou do debate anual. As duas delegações dão importância à “Conferência de Genebra sobre a Síria” e ambas tentarão naquela Conferência, através de meios políticos, resolver a crise apoiando uma transição política pacífica, liderada pelo povo sírio, que estabelecerá um organismo de governo de transição com poderes executivos. Washington e Pequim não deixaram de expressar preocupação sobre a atual situação humanitária e clamaram por medidas para aliviar o sofrimento dos sírios[10].     

A estabilização política e a revitalização econômica do Afeganistão têm apoio das duas potências, em especial num momento que se está na fase decrescente da retirada militar naquele país, em 2014. Por isso, os dois grandes, desde 2012, providenciam apoio conjunto na formação de funcionários do “Ministério das Relações Externas do Afeganistão” e decidiram fazer esforços conjuntos para ajudar na área de saúde[10].

A situação da tensão entre os vizinhos Sudão e “Sudão do Sul” foi debatida. Houve a reafirmação do apelo à paz ao nível doméstico e entre ambos países, bem como um diálogo produtivo entre os dois Estados em todas as questões bilaterais, incluindo a implementação das Resoluções do “Conselho de Segurança das Nações Unidas” (CSNU) e Acordos entre as partes[10].  

Outros temas de domínio regional e mundial que colhem consenso entre a China e os “Estados Unidos” incluem a manutenção da Paz, a cooperação para o desenvolvimento, o diálogo sobre o desenvolvimento global, o diálogo sobre o “Oriente Médio”, sobre a Ásia-Pacífico e a “Cooperação Anti-Malária[10].

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Imagem (Fonte):

http://english.cntv.cn/20130712/104365.shtml

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Group_of_Two

[2] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Senior_Dialogue

[3] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/Strategic_Economic_Dialogue

[4] Ver:

http://en.wikipedia.org/wiki/U.S.%E2%80%93China_Strategic_and_Economic_Dialogue 

[5] Ver:

http://news.yahoo.com/factbox-key-issues-annual-u-china-strategic-economic-003319832.html

[6] Ver:

http://www.scmp.com/news/world/article/1280772/william-burns-says-us-disappointed-chinas-handling-edward-snowden

[7] Ver:

http://freebeacon.com/counter-pivot/

[8] Ver:

http://www.taipeitimes.com/News/front/archives/2013/06/10/2003564416

[9] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/795319.shtml#.UeVw-40wcqN

[10] Ver:

http://www.fmcoprc.gov.hk/eng/xwdt/wsyw/t1058543.htm 

 

About author

De Nacionalidade Moçambicana, é mestrando em História do Mundo no Instituto de Estudos Africanos da Universidade Normal de Zhejiang, na China. Graduado em História pela Universidade Eduardo Mondlane em Maputo (2007). Possui experiência na docência de disciplinas de História Geral e da África Austral. Interesses: História de Moçambique, relações China-Moçambique, política externa chinesa no nordeste e sudeste da Ásia, relações China-África, cultura cibernética popular na China. Fala Português, Inglês, Francês e conhecimento razoável de chinês.
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