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Redes sociais transformam conflitos cibernéticos em guerras de likes

Tradicionalmente, os conflitos cibernéticos estão associados a “ações protagonizadas por um Estado ou por uma organização internacional que objetivam danificar computadores ou redes de informação de outra nação por meio da utilização de vírus ou de ataques de negação de serviço”.

Peter Singer, autor de LikeWar

Nos últimos anos, no entanto, devido à influência das redes sociais no cotidiano dos usuários da internet, uma forma diferenciada de conflitos no âmbito do ciberespaço tem alcançado crescente relevância. Esse novo domínio, cujo foco não consiste em atingir as redes virtuais em si, mas em corromper as ideias, as informações e as pessoas que fazem parte dessas redes, foi denominado, em publicação recente, de “guerra de likes” (LikeWar).

Conforme Peter Singer e Emerson Brooking, autores do estudo, o conceito de “LikeWar” abrange a forma como as redes sociais têm alterado as notícias, a política e a guerra, e como, por sua vez, a internet tem reformulado a percepção dos usuários da rede no que tange à realidade.

A ideia de “LikeWar” remete à noção de “Netwar”, concebida por John Arquilla e David Ronfeldt em pesquisa seminal, publicada ainda em 1993, sobre as guerras cibernéticas, e que se referia, naquele contexto, aos conflitos futuros que manipulariam “a informação no mais alto nível e que se dariam entre nações ou sociedades, objetivando atrapalhar, danificar ou modificar o que uma população-alvo conhece – ou pensa que conhece – sobre si mesmo e sobre o mundo ao seu redor”.   

Emerson Brooking, autor de LikeWar

De acordo com Singer e Brookings (2018), parafraseando o estrategista militar Carl Von Clausewitz, os principais elementos dessa “guerra por outros memes” estão na constatação de que, atualmente, os atores internacionais mais poderosos são aqueles que conseguem monopolizar, de forma mais eficaz, a atenção dos usuários da rede, modificando o foco da veracidade para a “viralidade”, ou seja, consoante os autores, a autenticidade daquilo que é compartilhado ou curtido nas redes é menos relevante do que o seu potencial de propagação no ciberespaço.

Para ser bem-sucedido nessa forma diferenciada de guerra, os pesquisadores afirmam que os atores envolvidos devem aperfeiçoar a capacidade de lidar com a construção de narrativas, com a manipulação das emoções dos usuários – principalmente a raiva –, com a preocupação de parecer autêntico e sincero para o público em geral, com o senso de pertencimento a um grupo e com a “inundação”, ou seja, com a repetição deliberada desses compartilhamentos, deturpando, desse modo, a percepção que os usuários possuem sobre a veracidade dos fatos.   

Humvee destruída após ataque do Estado Islâmico em Mossul, no Iraque, em 2014

As estratégias adotadas pelo autoproclamado Estado Islâmico seriam, conforme Singer e Brooking, exemplos de sucesso nessa nova forma de enfrentamento, uma vez que utilizariam o meio virtual para a consecução de objetivos específicos no mundo real. No contexto da invasão da cidade de Mossul, no Iraque, em 2014, por exemplo, os combatentes do Estado Islâmico compartilharam, em tempo real, sob a hashtag #AllEyesOnISIS, vídeos, fotos e notícias – verdadeiras e falsas – a partir do campo de batalha. Esses compartilhamentos teriam aumentado o pavor dos soldados iraquianos, alguns dos quais, cientes das atrocidades supostamente ou verdadeiramente cometidas, preferiram abandonar os seus postos, facilitando a tomada da cidade pelo grupo terrorista.

Singer e Brookings afirmam, ainda, que a capacidade de manipular a atenção dos eleitores protagonizada por Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016 e a estratégia midiática de celebridades como Taylor Swift, provocando, por meio de uma autenticidade planejada, uma maior integração com os seus fãs na internet, seriam exemplos de táticas bem-sucedidas nessa nova forma de embate.

A guerra de likes significaria, assim, a última reviravolta na natureza constantemente mutável dos conflitos. De acordo com os pesquisadores, todos nós fazemos parte desse novo tipo de batalha, uma vez que estamos online e que, portanto, a nossa atenção é como uma porção de território contestado por Estados, empresas, políticos, celebridades e atores subnacionais. Nesse sentido, os autores advertem que tudo o que assistimos, gostamos ou compartilhamos “produz uma pequena ondulação no campo de batalha da informação, oferecendo uma vantagem infinitesimal para um lado ou outro”.

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Referência:

SINGER, Peter; BROOKING, Emerson. LikeWar: the weaponization of Social Media. Kindle Edition, 2018.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Página do Facebook em um smartphone” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/e0/A_serviceman_accesses_social_media_channels_using_a_smart_phone%2C_outside_MOD_Main_Building_in_London_MOD_45156045.jpg

Imagem 2 Peter Singer, autor de LikeWar” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/P._W._Singer#/media/File:PeterWSinger-highres.jpg

Imagem 3 Emerson Brooking, autor de LikeWar” (Fonte):

https://www.linkedin.com/in/etbrooking/detail/photo/

Imagem 4 Humvee destruída após ataque do Estado Islâmico em Mossul, no Iraque, em 2014” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Fall_of_Mosul#/media/File:Humvee_down_after_isis_attack.jpg

About author

Mestre em Relações Internacionais (UEPB), especialista em Direito Internacional e Comércio Exterior (UnP) e bacharel em Relações Internacionais (UnP). É professor universitário e coordenador acadêmico, interessa-se por temas como: Cooperação Internacional em Ciência, Teconolgia e Inovação; Diplomacia Científica; Technopolitics e Peace Innovation.
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