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Reino Unido: Liberal Democrats ultrapassa o Labour Party em pesquisa de intenção de votos

Em pesquisa recente para a YouGov[1], realizada entre os dias 17 e 18 de setembro, os Liberais Democratas aparecem na segunda posição em intenção de votos do eleitorado, ultrapassando, pela primeira vez, os Trabalhistas (Labour Party). O resultado positivo para o Partido veio logo depois de anunciarem a intenção de “cancelar o Brexit”, durante sua conferência de outono, realizada entre os dias 14 à 17 de setembro de 2019. Com a recente perda de maioria por parte do Governo, devido às indefinições sobre o Brexit, a realização de novas eleições é praticamente certa, em um futuro próximo.

Os Liberais Democratas se comprometeram em revogar o “Artigo 50” (o dispositivo jurídico que trata da saída de um país da União Europeia), o que manteria o Reino Unido efetivamente como membro da UE. Mas, isso acontecerá somente se o Partido conseguir a maioria necessária para formar um governo, sem a necessidade de uma coalizão. Apesar do crescimento nas pesquisas, é improvável que alcançarão a maioria suficiente para levar a cabo essa promessa.

Diferentemente do Brasil, o sistema eleitoral britânico possui duas características distintas. A primeira delas é que, no Reino Unido, cada Deputado representa uma constituency (distrito eleitoral), que se refere à um determinado limite geográfico. A segunda, é que os deputados são eleitos por maioria simples (o chamado first past the post), significando que o candidato é escolhido havendo pelo menos um voto a mais que o segundo colocado. Essas duas características possibilitam casos, como, por exemplo, o ocorrido em 2015[3], em que um Partido como o UKIP (Partido pela Independência do Reino Unido), com 12,6% do eleitorado conseguisse somente uma cadeira no Parlamento. Enquanto isso, o SNP (Partido Nacional Escocês) obteve 4,7% dos votos, mas, acabou conquistando 56 cadeiras. O que se explica pelo fato de ter seus votos concentrados em uma única região (distritos na Escócia). Desta forma, os atuais 23% nas pesquisas poderão não se traduzir, necessariamente, em mais cadeiras para os Liberais Democratas.

Resultado das Eleições de 2015[4]

  Votos % de votos Número de representantes eleitos
Conservadores 11.334.226 36,9% 331
Trabalhistas 9.347.273 30,4% 232
SNP 1.454.436 4,7% 56
Liberais Democratas 2.415.916 7,9% 8
UKIP 3.881.099 12,6% 1
Outros 2.264.575 7,4% 22
Total 30,697,525 650

O Partido conta atualmente com 17 cadeiras no Parlamento, das quais 6[5] foram herdadas de Deputados que recentemente deixaram o Partido Trabalhista e o Conservador, justamente por não concordarem com a direção que estes vinham tomando em relação ao Brexit. Chuka Umunna (ex-Trabalhista) declarou, com otimismo, durante a conferência, que os Liberais Democratas poderão conseguir eleger até 200 deputados, caso haja uma nova eleição. Já, Jo Swinson, a atual líder do Partido, foi mais modesta, acreditando na possibilidade de conquistar pelo menos 100 cadeiras nas próximas eleições. De qualquer maneira, ambas declarações são extremamente otimistas, para uma agremiação cujo recorde, desde a fusão entre os Liberais e o Partido Social Democrático em 1988, foi eleger 62 membros para o Parlamento em 2005.

A nova posição do Partido preocupa simpatizantes que também lutam contra o Brexit. Caroline Lucas, representante no Parlamento do Partido Verde (Green Party), classificou a promessa de revogar o artigo 50, e efetivamente de cancelar o Brexit, como “arrogante” e um “tapa na cara” de quem votou para sair. Norman Lamb, Deputado do próprio Liberal Democratas, pediu cautela ao Partido, e declarou que cancelar a saída da União Europeia, sem um novo referendo, seria como “brincar com o fogo. A proposta divide a opinião dos eleitores “anti-Brexit” que defendem uma nova consulta popular como a melhor maneira para definir de vez esta questão.

A posição dos Liberais Democratas poderá fazer com que o voto “anti-Brexit” fique ainda mais pulverizado entre os Partidos da oposição, facilitando uma vitória dos Conservadores. Boris Johnson foi um dos líderes da campanha a favor da saída do Reino Unido da UE em 2016, e vem firmemente declarando que o Brexit acontecerá, com ou sem acordo, no próximo dia 31 de Outubro de 2019. A posição de Boris pode atrair os eleitores do Brexit Party, a única agremiação partidária que viavelmente pode concorrer com os Conservadores por eleitores que são favoráveis à saída.

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Notas:

[1] A YouGov é uma empresa sediada no Reino Unido, especializada em pesquisa de mercado e de opinião política.

[2] Fonte: https://yougov.co.uk/topics/politics/articles-reports/2019/09/19/political-trackers-17-18-sept-update

[3] A eleição de 2015 sagrou os Conservadores como líderes do governo, à época com David Cameron na liderança. Em 2017, já com Theresa May como Primeira-Ministra, uma nova eleição foi realizada, a qual ainda se reflete na atual configuração política do Parlamento.

[4] Fonte: https://www.bbc.co.uk/news/election/2015/results

[5] Fazem parte da lista dos Deputados que recentemente se filiaram aos Liberais Democratas: Luciana Berger, Chuka Umuna e Angela Smith (Labour), Sam Gyimah, Philip Lee e Sarah Wollaston (Conservadores).

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Jo Swinson, líder do Liberal Democrats” (Fonte): https://www.flickr.com/photos/libdems/48429472046/

Imagem 2 “Reino Unido – Intenção de votos – Pesquisa Yougov (Fonte): https://yougov.co.uk/topics/politics/articles-reports/2019/09/19/political-trackers-17-18-sept-update

About author

MA em International Relations and Democratic Politics pela University of Westminster, Londres (2016-2017). Graduado em Relações Internacionais pelas Faculdades Integradas Rio Branco (2013). Reside a 5 anos na Inglaterra. Atualmente trabalha para a Comissão Aeronáutica Brasileira na Europa. Possui interesse na área de Integração Europeia, Política Exterior Brasileira e Cristianismo e Relações Internacionais.
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