NOTAS ANALÍTICASORIENTE MÉDIOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Repressão à greve de professores aumenta preocupação com repressão na Jordânia

O governo da Jordânia vem sendo objeto de recorrentes críticas de associações de direitos humanos pela maneira como vem lidando com a greve de professores no país. As denúncias incluem recorrente repressão policial, até o desligamento da internet e redes sociais em distintas regiões do país para evitar que os protestos ganhem visibilidade.

As manifestações começaram após uma decisão do governo local de congelar os gastos públicos em abril. Com esta medida, não foi possível cumprir um acordo estabelecido em 2014 com o Sindicato dos Professores da Jordânia, que previa um aumento salarial de 50% para toda a categoria ao longo do ano de 2020.

Fundada em 2011, a Associação dos Professores da Jordânia possui hoje mais de 100 mil membros em todo o país e é considerada por muitos observadores internacionais como uma das poucas organizações sindicais independentes a operar na Jordânia. O sindicato é notoriamente bem articulado e foi responsável por organizar a maior paralisação do setor público na história jordaniana, em outubro de 2019.

No dia 25 de julho, após a instauração de um processo contra o dirigente sindical Nasser Nawasreh por incitar um discurso contra o governo, a polícia executou mandados de busca e apreensão por todo o país, resultando na prisão de Nawasreh e outros 12 dirigentes sindicais. A pedido do Advogado-Geral do Reino da Jordânia, Hassan Abdallat, o sindicato também foi proibido de operar no país por dois anos em consequência das acusações.

Nawasreh e os demais dirigentes foram liberados no dia 23 de agosto, após completar quase um mês de detenção sem julgamento ou fiança. A decisão que revoga o direito de o sindicato operar permanece vigente, apesar da pressão do governo que levou à retomada de parte das aulas presenciais na rede pública no dia 1º de setembro.

Policiais bloqueiam rua durante protesto dos professores na cidade de Irbid, Jordânia – Página oficial da Human Rights Watch

As prisões levaram a um aumento dos protestos, que passaram a envolver não somente professores, mas também outros cidadãos que se manifestaram contra a repressão do governo. Uma investigação estima que quase mil professores e pelo menos dois jornalistas foram presos durante as manifestações que sucederam a proibição do sindicato.

O governo local reagiu impondo mais restrições aos protestos e sua divulgação. Uma ordem do Procurador Geral da Jordânia proibiu a difusão de informações sobre a greve em veículos de notícias locais.

Muitas medidas aprovadas durante o surto de infecções causadas pelo novo coronavírus também passaram a ser utilizadas pelo governo jordaniano para proibir protestos e como fundamento para a repressão policial. A escalada dos meios repressivos tem gerado preocupação em distintos observadores internacionais.

O Porta-Voz do Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas, Rupert Colville, declarou que os recentes eventos são evidências “de um padrão crescente de supressão das liberdades públicas e da restrição do espaço cívico e democrático pelo governo jordaniano, inclusive contra ativistas dos direitos trabalhistas, defensores dos direitos humanos, jornalistas e aqueles que criticaram”.

O diretor adjunto da organização para o Oriente Médio, Michael Page, declarou que o fechamento do sindicato dos professores “levanta sérias preocupações quanto ao respeito do governo pela lei” e que “a falta de transparência e a proibição da discussão deste incidente em redes sociais somente reforça conclusão de que as autoridades estão violando direitos dos cidadãos”.

Por meio de distintas redes sociais os manifestantes têm denunciado tanto a violência policial quanto cerceamentos à liberdade de expressão no país. Denúncias indicam que houve restrições de acesso a internet e a certas plataformas. A Netblocks denunciou que o serviço de transmissão ao vivo do Facebook foi derrubado durante os protestos dos professores no país.

A Jordânia sempre foi reconhecida em meio à comunidade internacional por manter respeito a certas liberdades civis, ainda mais em comparação com outros vizinhos. Entretanto, a escalada da repressão e o uso de mecanismos estatais tanto para diminuir a ação de entidades da sociedade civil quanto do debate público tem gerado preocupação quanto a uma possível escalada autoritária no país.

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1Manifestantes se reúnem em frente a sede da Associação dos Professores da Jordânia na cidade de IrbidPágina oficial da Human Rights Watch” (Fonte):

https://www.hrw.org/news/2020/08/27/jordan-arrests-forced-dispersal-teacher-protests

Imagem 2Policiais bloqueiam rua durante protesto dos professores na cidade de Irbid, JordâniaPágina oficial da Human Rights Watch” (Fonte):

https://www.hrw.org/news/2020/08/27/jordan-arrests-forced-dispersal-teacher-protests

About author

É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, atualmente é mestrando em História, Política e Bens Culturais no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Integrou o Grupo de Estudos de Segurança Internacional (GEDES) na condição de pesquisador, onde também colaborou como redator do Observatório Sul-Americano de Defesa e Forças Armadas. Como pesquisador da Rede de Segurança e Defesa da América Latina desenvolveu trabalho na área de segurança pública, defesa e manutenção da paz. Atualmente desenvolve pesquisa sobre a reconstrução do Estado no Iraque. Como colaborador do CEIRI Newspaper escreve sobre a política e dinâmica regional do Oriente Médio.
Related posts
NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

Resposta à COVID-19 nas Américas pode sofrer transformação a partir de novos testes rápidos

Direito InternacionalNOTAS ANALÍTICAS

China ameaça EUA de retaliação por investigação de estudantes suspeitos de espionagem industrial

NOTAS ANALÍTICASPOLÍTICAS PÚBLICASSAÚDE

EpiVacCorona: segunda vacina russa contra a COVID-19 tem seu registro confirmado

ÁSIAECONOMIA INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

China lança plano de transformar Shenzhen em “motor central” de reforma

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Open chat
Olá!