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ANÁLISES DE CONJUNTURAÁSIA

Resposta do Governo chinês à recente onda de violência em Xinjiang

Na semana retrasada, a “Região Autônoma Uigur de Xinjiang” voltou a ser sacudida por uma onda de violência levada a cabo por alguns membros do grupo étnico local (conhecido por Uigur*) que, segundo dados oficiais, resultou em 35 mortes e destruição de bens públicos (principalmente esquadras policiais). Os ataques ocorreram em duas cidades próximas da capital da Província, na quarta-feira (dia 26) e sexta-feira (28)[1].

Esta foi a terceira vez no ano de 2013. As outras ocorreram em fevereiro e abril com saldo de dezenas de pessoas assassinadas e alguns atacantes abatidos pelas forças de segurança. Os analistas apontam que os recentes ataques étnicos têm uma particularidade simbólica, pois ocorreram nas vésperas da data de 5 de julho, quando, em 2009, aconteceu a eclosão da maior violência dos últimos anos entre as comunidades Uigur e Han** na capital da província, Urumqi, quando197 pessoas perderam a vida, a maioria da etnia Han[2].

Entretanto, a China se opõe ao “Ocidente” sobre as causas que quase que ciclicamente originam cenas de ataques sangrentos nas ruas de “Xinjiang”, que é a maior província da China, com cerca de 20 milhões de habitantes, sendo 9 milhões da etnia Uigur, ressaltando-se  que o número dos Han vem crescendo há décadas[3].

Enquanto que para o governo dos “Estados Unidos da América” e para a “mídia ocidental” questões ligadas à limitação da liberdade religiosa, ao desrespeito à cultura dos Uigures e à exclusão de benefícios econômicos em favor dos Han fomentam ressentimento dos primeiros que se degeneram em violência com uso de armas brancas contra os segundos, com destaque para facas de tamanho maior. Igualmente, a mobilização de um forte contingente das forças de segurança e de defesa para patrulhar as ruas das cidades “problemáticas”, restaurar a ordem e a tranquilidade públicas, bem como a caça e a prisão de suspeitos constituem um motivo adicional de críticas por parte dos países ocidentais que acusam a China de “uso excessivo da força[4].   

Mesmo reconhecendo que há muito ainda por se fazer no que diz respeito à “estabilidade social” e à “manutenção da estabilidade” naquela região autônoma[5] ao mesmo tempo que reitera que respeita os direitos étnicos de toda população do país, o governo de Pequim defende-se afirmando que o que origina a instabilidade se resume nas “três forças do mal” também chamadas de “três ameaças principais” com ligações internas e externas: “terrorismo, separatismo e extremismo[6].

De acordo com as autoridades chinesas, alguns dos protagonistas da violência em “Xinjiang” são clandestinos formados militar e ideologicamente na Turquia, sem o conhecimento do governo local. Crê-se que desde o início do ano de 2013, cerca de 100 chineses da etnia Uigur teriam se juntado aos rebeldes que estão a lutar contra o governo da Síria[7]. Por isso, na quinta-feira passada (4 de julho) já se noticiava localmente que os governos da China e Turquia haviam concordado em intensificar a luta contra o terrorismo em ambos países, em particular na conturbada província chinesa de “Xinjiang[8].

Mas a China havia antes condenado o “Ocidente” por usar “um peso e duas medidas” quando reage à sua forma firme e dura para repor a ordem nas zonas afetadas. Contudo, Pequim clama por uma maior colaboração internacional no combate ao terrorismo que desde 11 de Setembro de 2001 é uma ameaça global, no lugar dos outros países se imiscuírem nos assuntos internos da China[9]

De igual modo, a luta contra o terrorismo consta das prioridades da SCO (sigla inglesa para a “Organização de Cooperação de Xangai”, composta por seis países: Cazaquistão, China, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão e Uzbequistão), tanto que em 2009 foi a mesma entidade quem aprovou uma convenção contra terrorismo[10]

É importante referir que a informação alternativa a partir daquela região continua controlada e jornalistas estrangeiros são aconselhados a evitarem escalar a Província por questões de segurança dos mesmos. Daí que o mundo fora informado a partir de fontes oficiais e de relatos vinculados por grupos independentistas de Uigures no exterior, como o “Movimento Islâmico do Turquistão Oriental”, a “Associação de Solidariedade e Educação de Turquistão Oriental”, o “Congresso Mundial de Uigures” e organizações estrangeiras dos “Direitos Humanos[11].

Doutro lado, o governo chinês usa momentos como estes para reforçar ainda mais o controle da internet. Normalmente censura-se a informação, eliminam-se as discussões online sobre temas relacionados com alguns problemas sócio-políticos recém-acontecidos e também bloqueiam-se alguns sites estrangeiros cujas notícias considera-se nefasta à sociedade. 

Por exemplo, em março de 2008, para evitar a abundância no Youtube de vídeos de reportagens noticiosas estrangeiras (“Ocidentais”) e imagens fotográficas sobre os acontecimentos de uma manifestação no “Tibet”, o governo da China baniu momentaneamente ou limitou o acesso no território nacional deste sítio de compartilhamento de vídeos. Mas o bloqueio definitivo de Youtube só aconteceu um ano depois (março de 2009) após o “Governo Tibetano no Exílio” postar um vídeo em que supostamente a polícia agredia um jovem quando dos protestos do ano anterior. Por sua vez, a China disse ter sido uma pura fabricação para enganar a opinião pública internacional[12].

Nesses tipos de casos o governo da China tem recorrido a uma série de medidas. Além de incrementarem o controle policial no terreno dos acontecimentos, os departamentos relevantes do “Partido Comunista da China” e Ministérios do governo central igualmente se esforçam em garantir que na internet, em especial no Twitter chinês, o Weibo, não abundem discussões sobre “assuntos negativos”, por exemplo, palavras ligadas ao nome de local onde ocorre um incidente são bloqueadas na internet[13].

Pode-se imaginar que as autoridades chinesas pretendem garantir um ambiente de estabilidade ao nível nacional. No entanto, é muito provável eclodir a violência contra outras minorias étnicas noutras cidades chinesas, levadas a cabo pela maioria Han, como forma de retaliação aos ataques que muitas vezes visam este grupo majoritário em “Xinjiang” e “Tibet”. 

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* Com afinidades linguísticas com os turcos.

** Que corresponde a cerca de 92% da população chinesa, enquanto que as outras 55 etnias perfazem a remanescente percentagem.

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Imagem (Fonte):

http://images.echinacities.com/detail/8829-After-the-Attack-Shots-of-Xinjiang-Streets/3#img_pos

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.nytimes.com/2013/07/01/world/asia/china-blames-religious-extremists-for-violence-in-xinjiang.html?_r=0

[2] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/china/2012-03/06/content_14766900.htm

[3] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/792653.shtml#.UdXRt_kwcqP

[4] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/china/2013-06/28/content_16685197.htm

[5] Ver:

http://blogs.wsj.com/chinarealtime/2013/07/02/in-wake-of-xinjiang-violence-hints-of-a-new-approach/

[6] Ver:

http://english.peopledaily.com.cn/90785/8307876.html

[7] Ver:

http://www.globaltimes.cn/content/792959.shtml#.UdWt73jFscx

[8] Ver:

http://www.china.org.cn/world/2013-07/04/content_29318745.htm

[9] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/opinion/2013-06/28/content_16677456.htm

[10] Ver:

http://www.fidh.org/The-Convention-Against-Terrorism

[11] Ver:

http://www.dailytimes.com.pk/default.asp?page=2013\07\01\story_1-7-2013_pg14_1

[12] Ver:

http://www.guardian.co.uk/world/2009/mar/25/china-blocks-youtube

[13] Ver:

http://chinadigitaltimes.net/2013/06/ministry-of-truth-xinjiang-violence/

About author

De Nacionalidade Moçambicana, é mestrando em História do Mundo no Instituto de Estudos Africanos da Universidade Normal de Zhejiang, na China. Graduado em História pela Universidade Eduardo Mondlane em Maputo (2007). Possui experiência na docência de disciplinas de História Geral e da África Austral. Interesses: História de Moçambique, relações China-Moçambique, política externa chinesa no nordeste e sudeste da Ásia, relações China-África, cultura cibernética popular na China. Fala Português, Inglês, Francês e conhecimento razoável de chinês.
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