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Resultados eleitorais e política externa na Ucrânia

Após o segundo turno das eleições presidenciais na Ucrânia, que ocorreu no dia 21 de abril de 2019, a expectativa era de que haveria uma mudança na política externa do país, especialmente uma aproximação com a Rússia, acusada de envolvimento na Guerra do Donbass. Mas, a população ucraniana, assolada por uma crise, não tinha abandonado, necessariamente, seu desejo de integração à União Europeia, nem o lema de Poroshenko, “Exército, Fé e Língua”. A rejeição à figura pessoal do ex-Presidente não significou um total abandono de princípios que guiaram esses eleitores e cidadãos até o momento.

A razão possível da derrota de Poroshenko estava na pobreza no país, na identificação do aumento do custo de vida e da corrupção e não por sua política externa, assim como casos de corrupção que estouraram em seu governo, sobretudo os ligados ao setor de Defesa. Mas, apoiadores do ex-presidente Poroshenko acreditavam que sua possível derrota significaria uma mudança radical na estratégia geopolítica da Ucrânia, o que não ocorreu. Até o momento, a vitória de Zelenski não rompeu com essa política externa. Uma prova disso é que a grande maioria, especialmente nos Oblasts do Sul e do Leste, que concentram os falantes de idioma russo, continuaram apoiando os esforços da Ucrânia para se afastar da Rússia e conquistar uma maior integração na União Europeia.

Conforme dados pesquisados, candidatos abertamente pró-russos, como Yuriy Boyko e Oleksandr Vilkul obtiveram, juntos, apenas 15,8% de todos os votos no primeiro turno, o que significou apenas 3 milhões de votos. Outros, com posições claramente anti-russas (Poroshenko, Hrytsenko, Tymoshenko etc.) receberam nada menos que 51% dos eleitores, ou seja, 9,5 milhões de votos. Boyko e Vilkul foram vencedores apenas em Donetsk, Lugansk, que são áreas conflagradas, e Kharkov. Qualquer que fosse o candidato, Zelenski ou Poroshenko, não poderia adotar uma postura pró-russa e, por mais diversificado que sejam as visões de política externa dos eleitores do candidato vitorioso, Zelenski, o máximo que se poderia chegar sem comprometer a campanha é o que se chegou a fazer: propor um processo de pacificação na região de Donbass. Antes do primeiro turno das eleições, 53,3% dos seus eleitores apoiaram a integração da Ucrânia com a União Europeia, enquanto 45,4% apoiaram a adesão da Ucrânia à OTAN e 32,6%, não.

É importante entender que as eleições não foram um reflexo étnico. Segundo o Instituto Internacional de Sociologia de Kiev (KMIS)antes do segundo turno das eleições presidenciais, 44% dos eleitores eram ucranianos de língua ucraniana, 23,8% eram bilíngues e 28,2% falavam o idioma russo. Ou seja, a maioria que votou e elegeu Zelenski apoiava sua plataforma de diplomacia e diálogo com um país supostamente agressor, a Rússia, e falava fluentemente o ucraniano, ou seja, não era russófila. Isto, por si só, revela um potencial de união entre os diversos grupos, que foi bem explorado pela equipe de campanha do atual Presidente, e dentre os principais temas dos eleitores estava a Segurança Nacional e a Paz no Donbass.

Se, por um lado, o Presidente se elegeu propondo diálogo e paz, isto não significa, necessariamente, uma mudança radical. O que difere são os métodos de se atingir a paz, mas não os princípios em que se baseia a maioria da população. Como Zelenski precisa de um Parlamento com maioria para seu apoio, a política externa não pode se posicionar como aliada da Rússia e sim se guiar pelo que a maioria da população do país se orientava antes das eleições: as forças nacionalistas e anti-russas.

Mapa do resultado do segundo turno das eleições presidenciais na Ucrânia

geografia do voto na Ucrânia é clara, os partidos pró-russos teriam recebido 73,7% no Donbass (leste do país), controlados pela Ucrânia, contra 6,5% dos partidos anti-russos; enquanto que, no Oeste, os partidos pró-russos mal alcançaram os 4% de apoio. Pelo menos 50% do país votou em uma orientação pacifista e pró-diplomática da plataforma de Zelenski (exceto o Donbass). Foram 55,4% no Leste, 66,7% no Sul, 87,6% no Centro e 89,6% no Oeste. Na vaga hipótese de que Zelenski optasse por se aliar aos partidos pró-russos, sua situação seria de crescente oposição no Oeste, mas também no Centro do país.

Uma política interna que aproveite estes dados para costurar alianças entre os partidos poderá unir a Ucrânia, um exemplo está no Sul, que, sem grande apoio de outras regiões, apoiou uma pauta comum nas eleições. Houve uma confluência de interesses diversos contra os escândalos de corrupção e a pauperização da economia. À oposição, por sua vez, resta torcer por um Parlamento fragmentado e um Presidente enfraquecido. Os partidos pró-russos sabem que suas chances estão diminuindo e isto pode torná-los mais imprudentes na arena política. Em suma, Vladimir Zelenski tem toda uma conjuntura a seu favor e não pode desperdiçá-la, nem ignorar os pontos comuns de seus eleitores.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Manifestação próUnião Europeia na Ucrânia” (Fonte): https://torange.biz/pt/protests-ukraine-27787

Imagem 2 Mapa do resultado do segundo turno das eleições presidenciais na Ucrânia” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:%D0%A0%D0%B5%D0%B7%D1%83%D0%BB%D1%8C%D1%82%D0%B0%D1%82%D0%B8_%D0%92%D0%B8%D0%B1%D0%BE%D1%80%D1%96%D0%B2_%D0%9F%D1%80%D0%B5%D0%B7%D0%B8%D0%B4%D0%B5%D0%BD%D1%82%D0%B0_%D0%A3%D0%BA%D1%80%D0%B0%D1%97%D0%BD%D0%B8_2019_%D0%B7%D0%B0_%D0%BE%D0%BA%D1%80%D1%83%D0%B3%D0%B0%D0%BC%D0%B8_(%D0%B4%D1%80%D1%83%D0%B3%D0%B8%D0%B9_%D1%82%D1%83%D1%80).svg

About author

Licenciado em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1987 e Mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) em 2008. Mantém interesse e pesquisa nas áreas de Geografia Urbana, Geopolítica e Epistemologia da Geografia. Co-autor do livro "Não Culpe o Capitalismo".
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