O Governo russo está denunciando e acusando o Ocidente, mais especificamente, Estados Unidos, Reino Unido, França, além de indiretamente alguns de seus aliados, de estarem preparando a encenação de um ataque químico na Síria, que dirão ter sido feito pelo governo de Bashar al-Assad.

O objetivo seria terem justificativas para novos bombardeios, ações variadas e possível invasão do país, na tentativa de frear o processo de paz que se desenrola, bem como fazer recuar o Exército da Síria, que vem ganhando território, graças principalmente ao apoio da Rússia, do Irã e grupos aliados deste último.

Pode-se destacar que a Turquia, apesar de membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), está identificando que a perda de controle político por parte de Assad poderá gerar fragmentação do território sírio, significando um avanço dos curdos, que, por sua vez, desejam ganhar independência de região da Turquia e fundar o seu próprio país, o projetado Curdistão, que acrescentaria ainda áreas da Síria, do Iraque e do Irã.

Major-general Igor Konashenkov com jornalistas em El-Karjatein, na Síria, em abril de 2016

Segundo declarações do Ministério da Defesa russo, fontes relataram que na região de Idlib estão chegando especialistas para realizar a encenação de um “ataque químico”, e que o local em que ocorreria a suposta atividade seria o povoado chamado Kafer Zaita. O major-general Igor Konashenkov, representante oficial do Ministério, afirmou que há “socorristas disfarçados de Capacetes Brancos” e que haveria filmagem para ser repercutida nas mídias ocidentais e locais. Em suas palavras: “No próprio povoado de Kafer Zaita está se efetuando o treinamento de um grupo de habitantes, transferidos do norte da província, para sua participação [numa] encenação de ‘danos’ causados pelas alegadas ‘munições químicas’ e ‘bombas de barril’ supostamente lançadas pelas forças governamentais da Síria, [encenação também] da falsa prestação de assistência pelos socorristas disfarçados de Capacetes Brancos e [participação na] gravação de cenas para ulterior divulgação nas mídias em inglês e do Oriente Médio. (…)” (Acréscimos feitos no original para tornar a redação mais compreensível).

Além disso, afirmou que o ataque estaria sendo planejado para os próximos dois dias, contando do momento em que fez a declaração, domingo, dia 26 de agosto, ou seja, para até hoje, dia 28, terça-feira, embora seja possível admitir que também está no seu cenário que ocorra ainda esta semana. Especificou de forma clara: “Planeja-se efetuar um ataque com munições com substâncias tóxicas a partir de lançadores de foguetes nas próximas 48 horas contra o povoado de Kafer Zaita, situado seis quilômetros para sul de Habit”.

Logo do Hayyat Tahrir al-Sham

Os detalhes da acusação são muito específicos, razão pela qual a comunidade internacional tem ficado atenta, e vem levando em consideração a alta probabilidade de que algo realmente poderá ocorrer, independentemente de quem será o responsável por esse alegado ataque químico, e de ele ser real ou encenado, caso se confirmem essas denúncias que vem sendo feitas. Trazendo mais elementos, Konashenkov também detalhou: “Pelas informações confirmadas simultaneamente por várias fontes independentes, o agrupamento terrorista Tahrir al-Sham [novo nome adotado depois do desgaste sofrido pelo reconhecidamente nefasto do bando Frente al-Nusra] está realizando os preparativos para mais uma provocação com ‘uso de armas químicas’ para seguir com as denúncias vazias de que seriam crimes das forças governamentais sírias contra a população civil da província de Idlib. (…)”.

Além desses, há outros fatos que estão sendo apresentados pelos russos como confirmadores das suspeitas:

  1. segundo informações, o destroyer estadunidense USS The Sullivans chegou ao Golfo Pérsico, e um bombardeiro B-1B foi transferido para base militar no Qatar.
  2. a declaração de John Bolton, Assessor para Segurança Nacional dos EUA, dada em coletiva de imprensa no dia 22, quarta-feira da semana passada, afirmando que os sírios (no caso, o Governo sírio) “devem pensar bem antes de fazer uso de armas químicas contra a população de Idlib”. Isso pôde ser visto como uma falha de comunicação no planejamento dos norte-americanos, pois anunciaram antecipadamente o evento, ou seja, acabam robustecendo as suspeitas e dando mais força às acusações da Rússia de que os ocidentais estão provocando a situação de novo embate e serão os responsáveis pelo alegado ataque com armas químicas, mesmo que seja apenas uma encenação. A exceção para a declaração de Bolton se daria se houvesse trazido dados do serviço de inteligência. Neste caso, seriam necessárias mais informações e com detalhamento, tal qual foi feito pelo Governo russo, ao invés de fazer apenas a ameaça.

John Bolton, Assessor para Segurança Nacional dos EUA

Com base no que tem sido divulgado na imprensa, deve-se acrescentar a esses dois pontos a significativa retirada dos 230 milhões de dólares de doação dos EUA do fundo de estabilização para a Síria, algo que vem sendo interpretado como um recuo estadunidense em apoiar o processo de pacificação do país, devido ao caso de a guerra estar caminhando para um desfecho favorável a Assad, algo contrário aos interesses norte-americanos, tanto que o porta-voz da diplomacia dos EUA, Heather Nauert, declarou que “O presidente (Donald Trump) deixou claro que estamos preparados para permanecer na Síria até uma derrota duradoura do EI (grupo Estado Islâmico), e seguimos centrados em garantir a retirada das forças iranianas e de seus aliados”. Observadores entendem que isso mostra que pretendem permanecer, mas gera a interpretação de que o objetivo mais importante é impedir os avanços dos seus adversários na região.

Outro fato relevante é a situação interna nos EUA, em que o presidente Donald Trump vem sendo submetido a críticas e constantemente surgem ameaças de que poderá ser solicitado o seu impeachment. Ou seja, uma ação externa, ainda mais dessa natureza – envolvendo direitos humanos, a Rússia, o Irã, e a Síria – poderia desviar o foco da crise pessoal que vive o mandatário norte-americano, algo que lhe impulsiona a tomar tal decisão, ou seja, realizar um bombardeio punitivo contra um ataque com armas químicas.

Lavrov se reúne com o presidente Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca, 10 de maio de 2017

Trazendo mais elementos que aumentam a probabilidade de que algo poderá acontecer em breve, o Ministro das Relações Exteriores da Federação Russa, Sergei Lavrov, respondeu à afirmação de Bolton declarando que “Todas as forças estrangeiras que estão lá sem o convite do governo sírio devem eventualmente retirar-se”, tendo disso isso após o Assessor para Segurança Nacional dos EUA também ter alegado que a saída do Irã e seus aliados do território sírio era uma condição para a resolução do conflito.

Nesse sentido, há indícios de que o processo de paz dificilmente será alcançado, ocorrendo, pelo contrário, um exercício de preservação do impasse que se vive, em que, de um lado, não haverá apoio para a pacificação sem que ocorra a saída de Assad, a retirada do Irã e seus aliados, e a exclusão da influência russa na área; de outro, que a pacificação só terá resultado se Assad for preservado e os ocidentais retirados da Síria, bem como reduzidas as suas presenças na região.

Complementarmente, os turcos alertaram aos russos que seria um desastre uma solução militar em Idlib, último baluarte da resistência síria ao governo Assad. O ministro das Relações Exteriores turco, Mevlüt Cavusoglu, em coletiva de imprensa em Moscou, ao lado de Serguei Lavrov, foi enfático ao dizer isso: “Uma solução militar causaria uma catástrofe não somente para a região de Idlib, mas também para o futuro da Síria. Os combates podem durar muito tempo, os civis se verão afetados”. O russo, por sua vez, completou: “Quando foi criada uma zona de distensão em Idlib ninguém propôs utilizar esta região para que combatentes (…) se escondessem e utilizassem os civis como escudos humanos. (…). Não apenas ficam lá, como há ataques e disparos permanentes vindos desta zona contra as posições do exército sírio”.

Ministro das Relações Exteriores turco, Mevlüt Cavusoglu

A Turquia, que apoia grupos rebeldes, prevê que o Exército sírio faça um ataque naquela região, mas não cita a probabilidade do uso de armas químicas, por isso está alertando para que não ocorra ação militar e está em negociações com a Rússia, uma vez que seus interesses estão convergindo cada vez mais com os russos e distanciando-se constantemente dos ocidentais, tanto que, no mesmo encontro, Mevlüt Cavusoglu declarou: “No entanto, é muito importante que esses grupos radicais, os terroristas, sejam neutralizados. É também muito importante para a Turquia, pois eles estão do outro lado da nossa fronteira. Representam antes de tudo uma ameaça para nós”. Reforçando esta convergência, Vladimir Putin, Presidente da Rússia, declarou, referindo-se positivamente à Turquia: “Graças aos esforços de nossos países, com participação de outros países interessados, especialmente do Irã (…), conseguimos avançar claramente na solução da crise síria”.

Diante do quadro, a denúncia e acusação feita sobre a suposta encenação de ataque com armas químicas começa a ganhar foro de alta probabilidade, uma vez que uma resposta à ação dessa natureza supostamente promovida pelo governo sírio fecha o círculo estratégico momentâneo das três potências da OTAN (EUA, Reino Unido e França), trazendo ainda mais elementos para retardar a crescente convergência entre Rússia e Turquia, bem como mais subsídios aos esforços para impedir a pacificação do país de uma maneira que não contemple o melhor cenário para os Ocidentais, ou seja: pacificação da Síria com a saída de Assad; a retirada do Irã e grupos aliados dos iranianos do território sírio; e afastamento da influência russa no país que surgiria desse processo, bem como na região médio oriental.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Print Screen da Região de Idlib destacada em rosa retirado do Google Maps” (Fonte):

https://www.google.com.br/maps/place/Idlib,+S%C3%ADria/@35.9334051,36.6421011,7z/data=!4m5!3m4!1s0x152500e6cc6ed27b:0xe59a7e2f651fc24c!8m2!3d35.8268798!4d36.6957216

Imagem 2 Majorgeneral Igor Konashenkov com jornalistas em ElKarjatein, na Síria, em abril de 2016” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Igor_Konashenkov#/media/File:Igor_Konashenkov_(2016-04-08).jpg

Imagem 3 Logo do Hayyat Tahrir alSham” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Tahrir_al-Sham#/media/File:Hayyat_Tahrir_al-Sham_logo.jpg

Imagem 4 John Bolton, Assessor para Segurança Nacional dos EUA” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/John_R._Bolton#/media/File:John_R._Bolton_by_Gage_Skidmore.jpg

Imagem 5 Lavrov se reúne com o presidente Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca, 10 de maio de 2017” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Sergey_Lavrov#/media/File:President_Trump_Meets_with_Russian_Foreign_Minister_Sergey_Lavrov_(33754471034).jpg

Imagem 6 Ministro das Relações Exteriores turco, Mevlüt Cavusoglu” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mevlüt_Çavuşoğlu#/media/File:Çavuşoğlu.jpg