ECONOMIA INTERNACIONALEURÁSIANOTAS ANALÍTICAS

Rússia apresenta reservas financeiras maiores que saldos devedores

Quando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) teve seu fim decretado, em 1991, o extinto Estado deixou um saldo da dívida externa em torno dos US$ 70 bilhões (aproximadamente R$ 286,30 bilhões*), acumulados principalmente no período da Perestroika** (1985-1991), quando o Governo tentou implementar políticas econômicas para estabilização nacional, que, no fim, se apresentaram falhas em seu objetivo e deixariam um legado de dívidas para o novo país que despontava.

Logotipo do Clube de Paris

Em 2006, após anos de rigorosa escalada de políticas econômicas do governo de Vladimir Putin, a Federação Russa concluiu o pagamento, de forma antecipada, de toda a dívida soviética junto ao Clube de Paris, grupo integrado por 19 países credores e que deixariam registrado como o maior recebimento da história da instituição, quando, em uma única parcela, receberia do país devedor o montante de US$ 22 bilhões (aproximadamente R$ 89,98 bilhões*).

Desde então, a Rússia vem se empenhando em tomar medidas econômicas restritivas no intuito de garantir estabilidade financeira em detrimento aos percalços que poderiam se apresentar. As sanções internacionais promovidas contra si devido à reintegração da Crimeia, a queda dos preços de petróleo no mercado mundial e a incerteza sobre as perspectivas de crescimento da economia global relatadas pelo Banco Central russo, fizeram com que o Kremlin iniciasse um processo de acumulação de reservas, como instrumento de proteção internacional.

Segundo fontes jornalísticas, o resultado dessa rigorosa política financeira ocasionou uma enorme queda da dívida pública líquida do país e as estatísticas mostram que as autoridades financeiras da Rússia podem efetuar pagamento de todos os seus débitos utilizando, apenas, dos depósitos do Banco Central e de Bancos comerciais.

Histórico (%) da dívida pública russa em relação ao PIB (1999 – 2017)

Em 1o de agosto (2019), a dívida total da Rússia, que inclui as externas e internas, era de 16,2 trilhões de rublos (aproximadamente 1,04 trilhão de reais***), ou cerca de 15% do PIB (Produto Interno Bruto). Isto representa um pouco menos do que o total dos depósitos no Banco Central e nos Bancos comerciais, de 17,6 trilhões de rublos (aproximadamente 1,13 trilhão de reais***).

Um fato interessante nesse processo de absorção de dívidas é que a Federação Russa está indo na contramão das operações realizadas no resto do mundo, não só pelas barreiras econômicas que enfrenta devido às sanções impostas pela comunidade internacional, mas, também, pela austera política econômico-financeira que vem adotando.

Logotipo do Institute of International Finance

Desde 2008, várias economias mundiais, ao lidar com a crise global, tiveram que contrair dívidas em forma de empréstimos adicionais no intuito de evitar recessões internas. Isso desencadeou um recorde no montante acumulado, onde todos os setores da economia, como famílias, governos, instituições financeiras e companhias não financeiras, apresentaram uma elevação de US$ 70 trilhões (aproximadamente R$ 286,3 trilhões*), no final de 2006, para um nível sem precedentes uma década depois, em torno de US$ 215 trilhões (aproximadamente R$ 879,35 trilhões*), alcançando 325% do PIB mundial, segundo dados apresentados do Institute of International Finance.

Os países que mais contrataram empréstimos, no final desse período, foram as três maiores economias do mundo (EUA, China e Japão), declarou o FMI (Fundo Monetário Internacional), sendo que a entidade ressaltou que a dívida desses países, que excede sua produção, representa riscos potenciais para a expansão global.

Posto isso, no intuito de atingir a estabilidade macroeconômica, o Banco Central (BC) russo começou a elaborar uma forte estratégia de desdolarização, com um processo de redução dos títulos da dívida pública dos EUA, e, paralelamente, vem se concentrando na compra de ouro, sendo que, no início de junho (2019), o BC russo anunciou que as reservas cambiais e de ouro do país atingiram aproximadamente o equivalente a US$ 502,7 bilhões (aproximadamente R$ 2,06 trilhões*).

A política financeira russa, no entanto, tem também consequências negativas, segundo os economistas. A decisão de poupar dinheiro e não o empregar para impulsionar o crescimento econômico leva à estagnação contínua, além de que o governo teve que cortar benefícios sociais e aumentar impostos, o que afetou a popularidade dessa política. De acordo com as atuais perspectivas, provavelmente, a Rússia está esperando a redução das receitas e a desaceleração da economia global.

———————————————————————————————–

Notas:

* Cotação de 11/10/2019 (USD 1 = BRL 4,09).

** Durante o governo de Mikhail Gorbachev, em 1985, foi introduzida a Perestroika, uma reestruturação política da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), que, juntamente com a Glasnost (transparência), tinha o objetivo de reorganizar setores da sociedade soviética. No sentido literal, Perestroika tem o significado de reconstrução. Introduzida na URSS no XXVII Congresso do Partido Comunista, afetou profundamente os rumos do país, além de ter criado uma nova forma de política soviética. Gorbachev, então Secretário Geral do Partido, ao perceber que o setor econômico da nação estava a caminho de um declínio, adotou medidas reformadoras que seriam concluídas quando as ações da Perestroika chegassem ao seu fim. Entre as principais medidas que deveriam ser tomadas no processo, estava a redução na quantidade de dinheiro investido no setor de Defesa. Para realizar esta tarefa, Gorbachev indicou que a URSS precisava iniciar a desocupação do território afegão, renegociar a redução de armamentos definida com os EUA nos acordos de Yalta, além de parar a interferência na política em outras nações comunistas.

*** Cotação de 11/10/2019 (RUB 1 = BRL 0,64).

———————————————————————————————–

Fontes das Imagens:

Imagem 1 Barras de ouro como reserva financeira” (Fonte): https://i2.wp.com/top10mais.org/wp-content/uploads/2015/02/russia-entre-os-paises-com-as-maiores-reservas-de-ouro-do-mundo.jpg?resize=600%2C330&ssl=1

Imagem 2 Logotipo do Clube de Paris” (Fonte): http://www.clubdeparis.org/en

Imagem 3 Histórico (%) da dívida pública russa em relação ao PIB (1999 2017)” (Fonte): https://pt.tradingeconomics.com/russia/government-debt-to-gdp

Imagem 4 Logotipo do Institute of International Finance” (Fonte): https://en.wikipedia.org/wiki/Institute_of_International_Finance#/media/File:Institute_of_International_Finance_logo.svg

About author

Bacharel em Ciências Econômicas pelo Centro Universitário da Fundação Santo André (CUFSA) e pós-graduado em Economia pela FEA-USP (MBA). Habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ), e Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC). Atuou durante 7 anos como educador no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Atualmente, é pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Tem grande interesse nas áreas de Geopolítica, Relações Internacionais e Economia Política Internacional
Related posts
EUROPANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

A Dinamarca aprova a construção do gasoduto russo

ÁfricaCOOPERAÇÃO INTERNACIONALNOTAS ANALÍTICAS

Investimento na cultura de Cabo Verde

ECONOMIA INTERNACIONALEUROPANOTAS ANALÍTICAS

Crise do Comércio no Reino Unido faz nova vítima

ÁFRICANOTAS ANALÍTICASPOLÍTICA INTERNACIONAL

Atraso na implementação do acordo no Sudão do Sul e a pressão internacional

Receba nossa Newsletter

 

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Olá!
Powered by