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Rússia assume papel de mediador no conflito da Síria

Uma nova fase da guerra deflagrada em território sírio se desenvolveu a partir do último dia 6 de outubro (2019), quando o Presidente norte-americano, Donald Trump, declarou a retirada de tropas militares estadunidenses do noroeste da Síria, abrindo caminho para uma ofensiva militar em larga escala da Turquia e também deixando de lado o apoio estratégico que estava sendo direcionado aos aliados curdos.

A decisão de Trump de minimizar a participação dos EUA nesse conflito, segundo informações, vai ao encontro de suas promessas de campanha pré-eleitoral e também pelo fato de o Governo norte-americano estar desembolsando enormes quantias para manter qualquer tipo de apoio, principalmente às milícias curdas que foram de extrema importância para os EUA na campanha contra o Estado Islâmico.

Atualmente, na complexidade desse conflito, são muitos os atores envolvidos no jogo político no norte da Síria e, para especialistas, com a saída dos norte-americanos dessa região, a próxima nação a assumir o importante papel de principal mediador e direcionador dos desígnios que restabelecerão o equilíbrio sistêmico regional será a Federação Russa, tendo como representante o Presidente Vladimir Putin.

Mapa da situação militar na Síria – Janeiro 2019

O nó a ser desatado pela Rússia está baseado não só nos trabalhos para se evitar a ameaça de um refortalecimento do Estado Islâmico que ainda apresenta focos espalhados pelo território sírio, mas, também, nos conflitos internos entre sírios, curdos e turcos, que se estruturaram nos últimos tempos.

Para se entender qual será a responsabilidade da Rússia neste momento, deve-se apresentar o desenho político da região com seus atores e suas ações, para que se tenha a possibilidade de direcionar acordos entre as partes, no intuito de estabelecer um processo de paz.

Bandeira do YPG

YPG – As Unidades de Proteção Popular (em curdo: Yekîneyên Parastina Gel), é uma organização armada curda da região do Curdistão sírio. O grupo foi fundado como braço armado do Partido de União Democrática sírio, também tem ligações com o Conselho Nacional Curdo e, atualmente, controla militarmente boa parte do nordeste da Síria. Considerado como uma milícia armada, foi aliado dos EUA na luta contra o Estado Islâmico e, com a saída das tropas norte-americanas da região, se viram por conta própria, principalmente na luta contra tropas turcas.

Turquia – declarou que sua segurança nacional está ameaçada devido a ações do YPG próximo à sua fronteira e lançou uma série de ofensivas contra o mesmo, no intuito de criar uma “zona de segurança” no território sírio. O país considera o YPG um aliado do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta pela autonomia curda na Turquia.

Combatentes das Forças Democráticas Sírias (FDS)

FDS – as Forças Democráticas Sírias é uma coalizão de várias unidades, sendo a maior parte delas formada pela milícia curda do YPG, além de unidades árabe-muçulmanas e árabe-cristãs que controlam praticamente 40% do território sírio. Também lutaram ao lado da coalizão internacional liderada pelos EUA contra o Estado Islâmico.

Governo sírio – a liderança em Damasco, sob o governo de Bashar al-Assad, mantém um relacionamento ambivalente com os curdos, que vai da cooperação até o conflito, dependendo de seus interesses momentâneos.  Tropas do Governo, atualmente, dominam vastas áreas do centro, do sul e do oeste da Síria, sendo que o nordeste do país é controlado pelas FDS. O fato de o Exército sírio agora apoiar os curdos contra a ofensiva militar turca pode significar que o presidente Assad está tentando expandir sua influência na região.

Militante com bandeira do Estado Islâmico

Estado Islâmico – O EI pode se beneficiar com a desestabilização na região, mesmo tendo sido enfraquecido nas últimas batalhas com as FDS. Alguns focos de jihadistas ainda persistem em certas regiões centrais do país e, com a saída das tropas norte-americanas que suportavam as milícias que os combatiam, poderão se fortalecer e voltar a impor sua hegemonia na área.

Rússia – com a saída dos EUA, tropas russas começaram, em 15 de outubro (2019), a patrulhar o norte da Síria e a preencher o vácuo político deixado por Washington, fazendo uma linha divisória entre as forças turcas e o Exército sírio, além de estarem em constante conversação entre as partes para se evitar um choque direto entre essas forças militares.

Para analistas internacionais, o movimento que redesenha o equilíbrio no Oriente Médio, reflete a repentina perda de influência dos EUA e abre uma nova oportunidade para os russos se apresentarem como mediadores confiáveis, garantindo novos negócios e avançando seus interesses estratégicos.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Kremlin de Moscou” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Rússia#/media/Ficheiro:Kremlin_Moscow.jpg

Imagem 2 Mapa da situação militar na Síria  Janeiro 2019” (Fonte): https://southfront.org/wp-content/uploads/2019/01/24jan_syria_war_map-1024×952.jpg

Imagem 3 Bandeira do YPG” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:People%27s_Protection_Units_Flag.svg

Imagem 4 Combatentes das Forças Democráticas Sírias (FDS)” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Forças_Democráticas_Sírias#/media/Ficheiro:Syrian_Democratic_Forces_announce_Deir_ez-Zor_offensive.jpg

Imagem 5 Militante com bandeira do Estado Islâmico” (Fonte): https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:%C4%B0D_bayra%C4%9F%C4%B1_ile_bir_militan.jpg

About author

Bacharel em Ciências Econômicas pelo Centro Universitário da Fundação Santo André (CUFSA) e pós-graduado em Economia pela FEA-USP (MBA). Habilitado em Iniciação Científica em Defesa, pela Escola Superior de Guerra (ESG-RJ), e Especialista em Docência no Ensino Superior (SENAC). Atuou durante 7 anos como educador no Projeto Formare da Fundação Iochpe, ministrando aulas sobre Ética, Sociedade, Política e Democracia. Atualmente, é pós-graduando em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Tem grande interesse nas áreas de Geopolítica, Relações Internacionais e Economia Política Internacional
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